Campo Grande (MS), Quinta-feira, 10 de Setembro de 2026

Justiça / Política

Irmão de André Mendonça foi promovido na Prefeitura de SP após voto do ministro em ação sobre funerárias

Alexandre de Almeida Mendonça chegou à Secretaria Executiva da SP Regula em 2026; Prefeitura rejeita qualquer relação entre sua trajetória e a atuação do ministro no STF

10/09/2026

07:45

ICL

DA REDAÇÃO

©DIVULGAÇÃO

O irmão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), chegou em junho de 2026 ao cargo de secretário-executivo da SP Regula, agência municipal responsável pela regulação de serviços públicos de São Paulo, incluindo o setor funerário e cemiterial. A ascensão ocorreu depois de o ministro participar de julgamento no Supremo envolvendo justamente o modelo adotado pela Prefeitura para esses serviços.

Alexandre de Almeida Mendonça já integrava a estrutura da agência quando o irmão analisou o processo no STF. Documentos oficiais da Prefeitura confirmam que, a partir de 1º de junho de 2026, Alexandre passou a ocupar a Secretaria Executiva da SP Regula. A estrutura oficial da autarquia também o identifica atualmente nessa função. 

A coincidência temporal entre a trajetória funcional de Alexandre e a atuação do ministro no processo levanta questionamentos apresentados pela reportagem original, mas não demonstra, por si só, que a promoção tenha sido contrapartida ou consequência do voto de André Mendonça. A Prefeitura de São Paulo nega categoricamente qualquer vínculo entre os dois episódios.

Processo discutia serviços regulados pela SP Regula

A controvérsia chegou ao STF por meio da ADPF 1196, que trata do modelo de concessão dos serviços funerários e cemiteriais da capital paulista.

O relator, ministro Flávio Dino, havia determinado medidas relacionadas aos preços dos serviços, à divulgação dos valores e à fiscalização das concessionárias. O processo foi motivado por questionamentos sobre a situação do setor após sua concessão à iniciativa privada. 

Em março de 2025, depois do voto de Dino, acompanhado por Alexandre de Moraes, André Mendonça pediu vista e interrompeu o julgamento. O andamento oficial do STF confirma que Mendonça devolveu posteriormente o processo para julgamento e que a análise foi retomada em abril. 

Na sequência, Mendonça abriu divergência em relação ao relator e adotou entendimento que, caso prevalecesse, afastaria as medidas contestadas pela administração municipal e pelas concessionárias.

O julgamento, entretanto, não chegou a uma decisão definitiva. Houve pedido de destaque do ministro Gilmar Mendes, levando a discussão do ambiente virtual para o plenário presencial. 

Alexandre já trabalhava na agência

Quando André Mendonça participou do julgamento, seu irmão já estava na SP Regula.

Segundo a trajetória funcional apresentada pela reportagem, Alexandre ingressou como gerente em fevereiro de 2024, tornou-se superintendente em julho do mesmo ano e chegou ao cargo de secretário-executivo em 2026.

Há registros públicos anteriores à promoção mostrando sua atuação institucional. Em setembro de 2024, por exemplo, Alexandre foi designado representante titular da SP Regula no Grupo Técnico Intersecretarial de Indicadores da Cidade de São Paulo

A portaria de 26 de maio de 2026, com efeitos a partir de 1º de junho, registra oficialmente Alexandre como secretário-executivo. 

Secretário participou de reunião com área funerária

A estrutura da SP Regula inclui uma gerência específica para Serviços Funerários e Cemiteriais.

Documento publicado pela própria agência registra Alexandre, já como secretário-executivo, em reunião realizada em 19 de junho de 2026 com as diferentes gerências. Entre os participantes estava a responsável pela área de serviços funerários e cemiteriais. 

O registro comprova a participação administrativa do secretário em reunião envolvendo a área, mas não demonstra que ele tenha participado diretamente da defesa judicial da Prefeitura no processo analisado pelo STF.

Prefeitura rejeita relação entre promoção e julgamento

A Prefeitura de São Paulo afirmou que considera “irresponsável e sem fundamento” estabelecer relação entre a atuação do Supremo e a contratação ou promoção de Alexandre na agência.

Segundo a administração municipal, a representação judicial dos interesses da Prefeitura é responsabilidade da Procuradoria-Geral do Município (PGM), e não da SP Regula.

A Prefeitura também informou que Alexandre ingressou na agência depois de um processo seletivo realizado em 2024, que teria considerado currículo, experiência profissional e entrevistas. Segundo a nota, ele é formado em Administração de Empresas e sempre exerceu funções administrativas, sem responsabilidade direta pela gestão dos contratos de concessão.

“Dessa forma, a narrativa que a reportagem busca sustentar é falaciosa e sem nenhuma comprovação”, afirmou a Prefeitura.

Apoio público de Nunes a Mendonça

A aproximação política ganhou outro componente no domingo (7), quando, segundo a reportagem, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) distribuiu camisetas em apoio a André Mendonça durante os atos do Dia da Independência em São Paulo.

As peças traziam mensagens como “#ForçaMendonça” e “O povo brasileiro de bem está com André Mendonça”.

A manifestação ocorreu em meio ao acirramento da crise no Supremo e durante ato convocado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com críticas à Corte.

Ministro foi questionado sobre eventual impedimento

A reportagem também procurou André Mendonça para saber se o ministro informou formalmente no processo que seu irmão trabalhava na SP Regula e se chegou a avaliar eventual impedimento ou suspeição para participar do julgamento.

Alexandre também foi procurado para esclarecer suas atribuições e eventual participação em questões diretamente relacionadas aos serviços funerários e cemiteriais.

Até a publicação do material apresentado, não havia resposta dos dois.

O ponto central permanece sendo a necessidade de separar os fatos documentados da hipótese levantada pela reportagem: está comprovado que Alexandre trabalhava na SP Regula durante o julgamento e que posteriormente chegou à Secretaria Executiva; também está documentado que André Mendonça divergiu de Flávio Dino no processo. Não há, porém, nos elementos apresentados, prova de que a promoção tenha ocorrido como consequência ou contrapartida pelo voto do ministro.


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