Campo Grande (MS), Quarta-feira, 04 de Novembro de 2026

Economia / Política Monetária

Banco Central mantém Selic em 13,75% e interrompe sequência de cortes após piora das expectativas econômicas

Decisão unânime do Copom reflete preocupações com inflação, contas públicas e cenário internacional; juros elevados continuam pressionando crédito e investimentos

04/11/2026

17:30

DA REDAÇÃO

©DIVULGAÇÃO

O Banco Central decidiu manter a taxa básica de juros do Brasil, a Selic, em 13,75% ao ano, nesta quarta-feira (4), interrompendo uma sequência de cinco reduções iniciada em março. A decisão foi tomada por unanimidade pelo Comitê de Política Monetária (Copom), diante da piora das expectativas de inflação e do aumento das incertezas econômicas no Brasil e no exterior.

A manutenção dos juros ocorre em um momento de turbulência nos mercados financeiros, após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 25 de outubro, e de preocupações relacionadas à política fiscal do próximo mandato.

Para empresas e consumidores de Mato Grosso do Sul, a decisão significa a continuidade de condições restritivas de financiamento, com reflexos sobre empréstimos, compras parceladas, investimentos produtivos e capital de giro.

O Copom não antecipou se voltará a reduzir os juros na próxima reunião, marcada para dezembro.

Inflação acima da meta preocupa Banco Central

No comunicado divulgado após a reunião, o Banco Central avaliou que o cenário econômico se tornou mais desafiador desde o encontro anterior, realizado em 16 de setembro.

Embora a atividade econômica apresente sinais mais claros de desaceleração, o mercado de trabalho continua relativamente resistente, enquanto os indicadores de inflação permanecem elevados.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 4,58% nos 12 meses encerrados em setembro, superando o limite de tolerância da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional.

A meta central de inflação é de 3% ao ano, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%.

Outro fator de preocupação é a deterioração das expectativas para os próximos anos.

Segundo a pesquisa Focus, consultada pelo Banco Central, as projeções de inflação chegaram a:

  • 2026: 5,2%;

  • 2027: 4,8%.

Ambas estão acima do teto de tolerância da meta.

O próprio Copom elevou sua projeção de inflação para o segundo trimestre de 2028, horizonte relevante da política monetária, para 3,5%.

Guerra no Oriente Médio aumenta pressão sobre preços

O ambiente internacional também pesou na decisão.

Segundo o Banco Central, o prolongamento dos conflitos armados no Oriente Médio contribuiu para a elevação dos preços internacionais do petróleo e de seus derivados.

O aumento do combustível pode encarecer o transporte, a produção industrial e a distribuição de mercadorias, pressionando os preços pagos pelos consumidores.

Além disso, a manutenção de políticas monetárias restritivas nas principais economias desenvolvidas aumenta a volatilidade financeira e exige maior cautela dos países emergentes.

“Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities”, destacou o Copom.

A combinação de petróleo mais caro, oscilações cambiais e inflação persistente reduz o espaço para novos cortes imediatos da Selic.

Reação do mercado após eleição também influencia cenário

A decisão ocorre depois de uma forte deterioração dos indicadores financeiros brasileiros na sequência do segundo turno presidencial.

Conforme os dados divulgados, desde a reeleição de Lula, o Ibovespa acumulou queda de 18,45%, enquanto o dólar avançou aproximadamente 10%, chegando a R$ 5,46.

O movimento foi associado à preocupação dos investidores com a condução das contas públicas e com a capacidade do governo de financiar as promessas anunciadas durante a campanha eleitoral.

Antes da votação, as projeções apontavam para a possibilidade de a Selic encerrar 2026 em 13,25% ao ano.

Com o aumento das incertezas, a expectativa predominante passou a ser de manutenção da taxa.

Em levantamento da Bloomberg com 29 economistas, 24 projetavam juros estáveis, enquanto cinco esperavam redução de 0,25 ponto percentual.

O Banco Central ressaltou que continuará acompanhando os efeitos da política fiscal sobre as condições financeiras.

“O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza”, informou.

Embora a reação dos mercados tenha contribuído para a piora das condições econômicas, o comunicado também atribui importância aos riscos externos e à persistência da inflação.

O que muda para consumidores e empresas de MS?

A manutenção da Selic em patamar elevado influencia o custo do crédito em todo o país.

Em Mato Grosso do Sul, os efeitos podem ser sentidos por famílias que dependem de financiamentos e por empresas que utilizam empréstimos para ampliar suas atividades.

Entre os principais reflexos estão:

  • Empréstimos e financiamentos: juros elevados tendem a manter mais caras as operações de crédito pessoal, aquisição de veículos e financiamento empresarial.

  • Comércio: o custo do parcelamento pode limitar o consumo, especialmente de produtos de maior valor.

  • Empresas e pequenos negócios: o capital de giro continua mais oneroso, dificultando investimentos e expansão.

  • Agronegócio: produtores e empresas da cadeia agropecuária podem enfrentar custos financeiros elevados, conforme as condições de suas linhas de crédito.

  • Investimentos: aplicações de renda fixa vinculadas à Selic ou ao CDI tendem a continuar oferecendo remuneração elevada, observadas as características de cada produto.

A taxa básica, entretanto, não corresponde diretamente aos juros cobrados pelos bancos. As condições oferecidas aos clientes também dependem de fatores como risco de crédito, garantias e custos operacionais.

Copom evita indicar próximos movimentos

O comunicado divulgado nesta quarta-feira não apresenta sinalização definitiva sobre o rumo dos juros na próxima reunião.

O Banco Central considera que a economia brasileira enfrenta uma combinação de desaceleração da atividade, expectativas de inflação mais altas e incertezas fiscais e internacionais.

“O contexto atual, caracterizado por taxa Selic substancialmente contracionista, aumento significativo das incertezas em torno do cenário base, expectativas de inflação mais elevadas e desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada apresenta um cenário desafiador para a política monetária, demandando serenidade e cautela na sua condução”, afirmou o Comitê.

A próxima reunião está prevista para 8 e 9 de dezembro, quando os diretores voltarão a avaliar a inflação, o comportamento da economia e as condições financeiras.

Mercado projeta queda gradual nos próximos anos

Apesar da interrupção dos cortes, as projeções de mercado ainda indicam uma trajetória de redução da Selic no médio prazo.

As estimativas apresentadas apontam para:

  • 2027: 11,75% ao ano;

  • 2028: 10% ao ano;

  • 2029: 10% ao ano.

Esses números representam expectativas de analistas, não compromissos assumidos pelo Banco Central.

A Selic havia permanecido em 15% ao ano durante cinco reuniões consecutivas antes do início do ciclo de flexibilização monetária, em março de 2026.

Com a decisão desta quarta-feira, o Copom interrompe temporariamente esse movimento e mantém a prioridade no controle da inflação.

A retomada dos cortes dependerá principalmente da evolução dos preços, das expectativas inflacionárias e da redução das incertezas econômicas. Até lá, consumidores e empresas continuarão convivendo com uma das principais restrições ao crédito e à atividade econômica brasileira.

 


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