Política / Internacional
Por que Putin permanece no poder? Repressão, propaganda e história ajudam a explicar apoio na Rússia
Especialistas apontam ausência de oposição competitiva, controle da informação e lembranças da crise dos anos 1990 como fatores que sustentam o governo russo.
12/10/2026
06:45
ESTADÃO
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A permanência de Vladimir Putin no comando da Rússia, após mais de 26 anos, não pode ser explicada apenas pelo apoio popular ou pelos resultados das eleições. A repressão política, as restrições à oposição, a propaganda estatal e a experiência histórica da população ajudam a compreender por que o presidente mantém o poder mesmo diante da guerra na Ucrânia, das dificuldades econômicas e das críticas internacionais.
A análise ganhou destaque após as eleições parlamentares de 20 de setembro, quando o partido Rússia Unida, ligado a Putin, conquistou 349 das 450 cadeiras da Duma, a Câmara dos Deputados russa. As demais vagas ficaram com partidos classificados como oposição sistêmica, que, embora apresentem diferenças programáticas, não representam uma alternativa efetiva ao atual governo.
A eleição ocorreu em um ambiente de forte controle político. Segundo especialistas ouvidos pelo jornal O Estado de S. Paulo, organizações independentes enfrentam obstáculos para disputar cargos, enquanto críticos do Kremlin estão sujeitos a processos judiciais, prisões e outras formas de repressão.
O jornalista russo Roman Badanin, autor do livro O Czar em Pessoa, escrito com Mikhail Rubin, afirma que a falta de alternativas políticas é fundamental para compreender a continuidade do governo.
Os dois dirigem o veículo independente Proekt e vivem no exílio. Para Badanin, as eleições russas não oferecem aos cidadãos uma disputa em condições equivalentes entre governo e oposição.
Entre os casos frequentemente citados estão o do oposicionista Alexei Navalni, morto em uma prisão russa, e os assassinatos da jornalista Anna Politkovskaya e do político Boris Nemtsov.
O partido Yabloko, contrário à guerra na Ucrânia, também enfrentou impedimentos para participar das eleições parlamentares. Integrantes da legenda foram alvo de processos e condenações relacionados a manifestações contra o conflito.
Outro fator apontado pelos especialistas é a trajetória política da Rússia, marcada por longos períodos de governos autoritários.
Após a queda do czar Nicolau II, em 1917, o país passou pelo regime soviético, inicialmente sob Vladimir Lenin e posteriormente sob Josef Stalin. O sistema de partido único permaneceu até o fim da União Soviética, em 1991.
Na década seguinte, durante o governo de Boris Yeltsin, a Rússia enfrentou uma profunda crise econômica, acompanhada de inflação, perda de renda e instabilidade social.
A chegada de Putin à Presidência, em 2000, coincidiu com um período de valorização internacional do petróleo e recuperação econômica.
Segundo Mikhail Rubin, parte da população passou a associar o governo Putin à estabilidade, enquanto a experiência democrática dos anos 1990 ficou relacionada às dificuldades econômicas.
Essa percepção é reforçada pela comunicação oficial, que frequentemente apresenta o atual governo como responsável por evitar o retorno à crise daquele período.
A professora Dina Khapaeva, do Instituto de Tecnologia da Geórgia, considera que a propaganda estatal exerce influência importante na formação da opinião pública russa.
O governo utiliza meios de comunicação, campanhas institucionais e discursos nacionalistas para fortalecer a imagem de Putin como defensor dos interesses do país.
A narrativa também está presente na maneira como o Kremlin apresenta os conflitos militares envolvendo a Rússia.
Entre os episódios estão a guerra na Chechênia, a intervenção na Geórgia em 2008, a anexação da Crimeia em 2014 e a invasão em larga escala da Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022.
Para Lev Volkov, diretor do instituto independente Levada Center, o apoio às Forças Armadas e a identificação com o país ajudam a explicar por que parte dos russos manifesta concordância com as decisões presidenciais.
Essa identificação, entretanto, não significa necessariamente aprovação de todas as políticas do governo.
Os levantamentos de opinião também são utilizados para avaliar a sustentação política de Putin, embora especialistas alertem para as dificuldades de medir preferências em ambientes repressivos.
Em pesquisa realizada em abril, o instituto estatal VCIOM registrou aprovação presidencial de 65,6%, o menor índice desde o início da invasão da Ucrânia. Em maio, o percentual subiu para 66,8%, enquanto a confiança no presidente alcançou 72,1%.
O instituto informou que alterou sua metodologia, combinando entrevistas telefônicas com visitas presenciais, diante de dificuldades nas comunicações.
Rubin observa que entrevistas realizadas diretamente nas residências podem influenciar as respostas, especialmente quando os participantes temem consequências por expressar opiniões contrárias ao governo.
Um estudo publicado em 2024 na revista científica American Political Science Review também identificou que a percepção de popularidade de um governante pode influenciar o apoio recebido. Quando participantes tiveram acesso a informações negativas sobre a aprovação de Putin, parte deles reconsiderou sua avaliação.
O jornalista e comentarista político Konstantin Eggert, da Deutsche Welle, relaciona a resistência a mudanças políticas à experiência histórica da população russa.
Ao longo do último século, o país enfrentou revoluções, guerras, fome, repressão política e profundas transformações econômicas. Segundo Eggert, essa trajetória contribuiu para a adaptação de parte da sociedade a períodos prolongados de dificuldades.
O temor de punições, a ausência de organizações oposicionistas com liberdade de atuação e a percepção de que uma mudança poderia provocar nova instabilidade dificultam a mobilização coletiva.
Isso não significa que todos os russos apoiem Putin. Há manifestações de oposição, críticas à guerra e organizações independentes, embora muitas atuem sob restrições ou fora do país.
A continuidade do governo russo resulta, portanto, de uma combinação de fatores: apoio político de parte da população, repressão aos adversários, controle da informação, nacionalismo e limitações à competição eleitoral.
Para os especialistas, compreender essa realidade exige distinguir a aprovação espontânea do presidente das condições políticas que dificultam a manifestação pública de opiniões contrárias ao Kremlin.
Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veículo.
Leia Também
Leia Mais
Lula e Flávio Bolsonaro participam de celebrações de Nossa Senhora Aparecida em Brasília
Leia Mais
Lula critica decisão do TSE sobre canal de campanha no WhatsApp
Leia Mais
Moraes autoriza retomada de visitas de Flávio Bolsonaro ao pai, com restrições eleitorais
Leia Mais
Horóscopo de hoje, 12 de outubro: amor, oportunidades e surpresas para os 12 signos
Municípios