Campo Grande (MS), Sábado, 10 de Outubro de 2026

Política / Eleições 2026

Apoiadores de Flávio expõem eleitores de Lula no exterior e incentivam denúncias

Publicações relatadas em quatro países incluem divulgação de dados pessoais e pedidos de denúncia

10/10/2026

07:30

DA REDAÇÃO

©REPRODUÇÃO

Publicações atribuídas a perfis de apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL) nas redes sociais são apontadas como parte de uma mobilização para identificar e expor brasileiros que manifestaram apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no exterior. Segundo os episódios relatados, usuários também incentivaram denúncias às autoridades estrangeiras, inclusive com pedidos de deportação.

Os casos teriam ocorrido durante e após o primeiro turno das eleições presidenciais, realizado em 4 de outubro, com registros de publicações envolvendo brasileiros residentes na Polônia, Coreia do Sul, Japão e Bélgica.

Entre as condutas relatadas estão a divulgação de fotografias e informações pessoais, tentativas de identificar endereços residenciais e profissionais e manifestações favoráveis à comunicação de dados dos eleitores a empregadores e autoridades migratórias.

Não há evidências apresentadas de que Flávio Bolsonaro, sua campanha eleitoral ou integrantes de sua equipe tenham organizado, autorizado ou coordenado essas iniciativas. As ações descritas são atribuídas a usuários e perfis específicos das redes sociais, e eventuais responsabilidades individuais dependem de apuração.

Deputado polonês defendeu deportação de brasileiras

O episódio de maior repercussão envolveu duas brasileiras residentes na Polônia, cujas fotografias passaram a circular nas redes sociais depois de manifestações de apoio a Lula.

Segundo os relatos, as imagens, aparentemente publicadas pelas próprias eleitoras após a votação, foram reproduzidas por outros usuários acompanhadas de mensagens que associavam o apoio ao presidente brasileiro à promoção do comunismo.

Entre os perfis que ampliaram a circulação do material estava o do influenciador Mario Nawfal, conhecido por publicações sobre política internacional.

Na noite de 4 de outubro, um usuário brasileiro mencionou o eurodeputado polonês Dominik Tarczyński em uma postagem relacionada a uma das mulheres.

Posteriormente, o parlamentar publicou mensagens defendendo a deportação das brasileiras.

“Vou cuidar delas. Sejam como a Polônia”, escreveu Tarczyński no Instagram.

Em outra publicação, afirmou:

“Eu mesmo vou ajudá-la a fazer as malas antes da deportação dela. Promover o comunismo na Polônia é constitucionalmente proibido.”

As declarações representam a posição manifestada pelo eurodeputado e não constituem uma decisão das autoridades migratórias polonesas.

No dia seguinte, conforme os registros descritos, Tarczyński voltou a divulgar as fotografias no X e solicitou que informações sobre as brasileiras fossem encaminhadas a ele por mensagens privadas.

Um usuário brasileiro associado à mobilização virtual teria colaborado na identificação de uma das eleitoras e divulgado informações sobre sua identidade e trajetória profissional.

Ao compartilhar o conteúdo, escreveu: “Seja bem-vinda de volta ao Brasil.”

Fotografias não demonstram violação da legislação polonesa

Ao defender a deportação, Dominik Tarczyński mencionou dispositivos da legislação polonesa que restringem a promoção de regimes totalitários.

A Constituição da Polônia proíbe organizações que adotem práticas totalitárias associadas ao nazismo, fascismo e comunismo. A legislação penal também estabelece restrições à promoção pública de determinados regimes totalitários.

Entretanto, de acordo com a descrição das fotografias divulgadas, as brasileiras aparecem manifestando apoio a Lula e utilizando símbolos do Partido dos Trabalhadores (PT).

Não foram apresentados elementos que demonstrem que as mulheres tenham defendido um regime totalitário ou cometido infração à legislação polonesa.

Também não há informação de que autoridades daquele país tenham instaurado procedimentos migratórios ou determinado medidas de deportação em razão das publicações.

As duas brasileiras procuraram a Embaixada do Brasil em Varsóvia, conforme informação atribuída ao Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty).

Em resposta à reportagem que divulgou o caso, o ministério informou que a representação diplomática brasileira se colocou à disposição para prestar assistência consular, caso solicitada.

Usuário lançou campanha para incentivar denúncias

No dia da votação, um perfil brasileiro na plataforma X divulgou uma iniciativa denominada “De volta para minha terra”.

Segundo as publicações relatadas, o responsável pelo perfil incentivou brasileiros residentes no exterior a denunciar compatriotas que haviam manifestado apoio ou declarado voto em Lula.

A conta foi associada à chamada Bolha da Resenha, descrita na reportagem de origem como uma rede de perfis geralmente anônimos relacionada a ataques virtuais e à circulação de conteúdos falsos e extremistas.

Essa caracterização é atribuída à reportagem e não representa, por si só, uma conclusão judicial sobre a atuação de todos os usuários vinculados à rede.

Outras contas teriam aderido à iniciativa. Em uma das manifestações, um usuário defendeu a identificação de residências e locais de trabalho de eleitores do PT para informar empregadores, vizinhos e autoridades.

A autoria, o alcance e as consequências concretas dessas publicações precisam ser examinados individualmente para a determinação de eventuais responsabilidades.

Publicações semelhantes foram relatadas em outros três países

Além da Polônia, a mobilização teria alcançado brasileiros residentes na Coreia do Sul, Japão e Bélgica.

Na Coreia do Sul, segundo os relatos, um perfil divulgou informações que permitiam identificar uma brasileira, acompanhadas da imagem de um aparente documento pessoal.

No Japão, uma conta afirmou ter apresentado denúncias contra eleitores de Lula ao Comitê Nacional de Segurança Pública. O responsável pela publicação também mencionou a possibilidade de acionar autoridades migratórias.

A declaração do usuário não comprova que uma denúncia tenha sido efetivamente registrada, aceita ou transformada em procedimento oficial.

Na Bélgica, uma publicação envolvendo uma brasileira apoiadora de Lula teria sido encaminhada ao perfil responsável pela iniciativa “De volta para minha terra”, ampliando a exposição da eleitora.

As informações disponíveis não permitem afirmar que todos os episódios tenham sido coordenados por uma mesma organização ou que tenham produzido consequências administrativas ou migratórias.

Eurodeputado declarou apoio a Flávio Bolsonaro

O eurodeputado Dominik Tarczyński já havia manifestado publicamente apoio à família Bolsonaro antes da divulgação das fotografias das brasileiras.

Em setembro, o parlamentar publicou uma imagem ao lado do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, durante um encontro em Miami, nos Estados Unidos.

Na ocasião, chamou Eduardo de “meu querido amigo” e pediu votos para Flávio Bolsonaro.

Nas semanas seguintes, o político polonês voltou a divulgar manifestações favoráveis ao candidato do PL e compartilhou conteúdos relacionados à eleição brasileira.

Esses registros demonstram uma aproximação política pública, mas não comprovam que Eduardo Bolsonaro tenha participado da identificação das eleitoras, encaminhado suas fotografias ou solicitado qualquer medida contra elas.

Também não há elementos apresentados que vinculem a campanha presidencial de Flávio à organização dos episódios relatados.

Apoios na Coreia do Sul também foram divulgados

Antes do primeiro turno, o usuário brasileiro associado à campanha “De volta para minha terra” já compartilhava manifestações de apoio a Flávio Bolsonaro feitas por representantes conservadores estrangeiros.

Entre elas estavam publicações do ex-primeiro-ministro sul-coreano Hwang Kyo-ahn, que declarou apoio ao candidato do PL nos dias 28 e 29 de setembro.

O responsável pelo perfil brasileiro comemorou as manifestações e afirmou que seus esforços para apresentar o candidato à direita sul-coreana haviam produzido resultados.

Em junho, Hwang participou de um encontro de grupos conservadores nos Estados Unidos, que também contou com a presença de Eduardo Bolsonaro.

Segundo o relato do ex-primeiro-ministro, os dois conversaram sobre a situação política brasileira.

Entretanto, não há evidências de que Hwang Kyo-ahn ou Eduardo Bolsonaro tenham participado das publicações contra eleitores de Lula ou que esses contatos políticos tenham sido utilizados para organizar denúncias.

Exposição de dados pode trazer riscos aos eleitores

Os episódios relatados levantam questões sobre privacidade, liberdade de manifestação política e segurança de brasileiros residentes no exterior.

A divulgação de dados pessoais acompanhada de incentivos à localização de indivíduos pode representar risco de constrangimento, intimidação ou assédio. A eventual caracterização de ilícitos, porém, depende das circunstâncias, da legislação aplicável e da apuração das condutas atribuídas a cada responsável.

É necessário distinguir manifestações de apoio político, publicações efetivamente identificadas, acusações feitas por usuários e consequências comprovadas.

No caso das brasileiras residentes na Polônia, a informação confirmada pelo Itamaraty, conforme o relato apresentado, é que elas procuraram a representação diplomática e que houve disponibilidade para assistência consular.

Não há confirmação de deportações ou de medidas migratórias adotadas contra os eleitores mencionados.

Até o momento, os elementos relatados não demonstram participação ou coordenação da campanha de Flávio Bolsonaro nas iniciativas. A apuração de eventuais abusos deve considerar a identificação dos autores das publicações, a autenticidade dos registros e os possíveis efeitos sobre as pessoas expostas.


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