Campo Grande (MS), Sexta-feira, 09 de Outubro de 2026

Política / Bastidores

Michelle Bolsonaro amplia espaço político em meio a conflitos com Flávio e outros integrantes da família

Ex-primeira-dama fortaleceu sua atuação no PL Mulher, mas divergências sobre alianças eleitorais expuseram tensões com o enteado durante a campanha presidencial

09/10/2026

09:30

RPI

DA REDAÇÃO

©DIVULGAÇÃO

A atuação política de Michelle Bolsonaro (PL) ganhou dimensão própria nos últimos anos, mas também aprofundou divergências com integrantes da família do ex-presidente Jair Bolsonaro. O principal conflito público ocorreu em 24 de junho de 2026, quando a ex-primeira-dama divulgou um vídeo de aproximadamente 27 minutos criticando o enteado Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República.

A manifestação teve origem em uma disputa sobre alianças eleitorais no Ceará, mas revelou desentendimentos mais amplos sobre a participação de Michelle nas decisões do partido, seu relacionamento com os filhos do marido e a autonomia que conquistou à frente do PL Mulher.

Em reportagem publicada pela revista Piauí, aliados e antigos integrantes do círculo político de Jair Bolsonaro relataram episódios de tensão familiar e divergências sobre o futuro político da ex-primeira-dama. Os depoimentos apresentam avaliações distintas sobre sua personalidade, sua influência eleitoral e suas relações dentro do partido.

Disputa no Ceará desencadeou confronto público

O desentendimento começou com a definição dos candidatos que receberiam apoio do PL nas eleições cearenses.

Michelle defendia a pré-candidatura de Eduardo Girão (PL) ao governo estadual e de Priscila Costa (PL) ao Senado. Flávio, por sua vez, articulou uma aliança com Ciro Gomes (PSDB) para o governo do Ceará, buscando ampliar os apoios à sua candidatura presidencial.

A ex-primeira-dama se opôs ao acordo, principalmente pelas críticas que Ciro havia dirigido anteriormente a Jair Bolsonaro e seus filhos.

“Ele é inimigo do meu marido. É um dos principais responsáveis por ele estar na cadeia”, afirmou Michelle no vídeo, ao justificar sua resistência à composição.

Ela também acusou Flávio e os irmãos Eduardo, Carlos e Jair Renan Bolsonaro de participarem de ataques coordenados contra sua atuação política.

Segundo Michelle, o conflito se agravou depois que Flávio a responsabilizou publicamente pela controvérsia no Ceará.

“Ele foi muito ríspido. Me desrespeitou e me maltratou ao telefone, e eu não tinha feito nada contra ele”, declarou.

A ex-primeira-dama afirmou que o enteado teria sugerido que ela permanecesse afastada das decisões partidárias.

“Diante dessa humilhação, entendi que ele não queria o meu apoio e que este era insignificante”, acrescentou.

As declarações representam a versão de Michelle sobre os episódios. A reportagem não apresenta confirmação independente de todos os diálogos privados mencionados por ela.

Tentativa de reconciliação não encerrou divergências

A repercussão do vídeo mobilizou dirigentes do PL e lideranças próximas à ex-primeira-dama.

O presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, e políticas como Damares Alves (Republicanos-DF), Celina Leão (PP) e Bia Kicis (PL-DF) participaram de iniciativas para reduzir a tensão.

Em 23 de julho, Flávio publicou um vídeo no qual pediu desculpas pelos episódios que haviam provocado desconforto entre os dois e convidou Michelle a participar de sua campanha presidencial.

Dois dias depois, porém, ela não compareceu pessoalmente à convenção nacional do PL, realizada em São Paulo, que oficializou a candidatura do senador.

Michelle alegou uma forte crise de enxaqueca. Sua participação ocorreu por meio de um vídeo gravado, no qual falou sobre Jair Bolsonaro, o trabalho do PL Mulher e sua trajetória política, além de desejar proteção divina à campanha do enteado.

A ausência alimentou interpretações sobre a permanência das divergências, embora não constitua, isoladamente, prova de rompimento político.

PL Mulher impulsionou projeção nacional

A consolidação de Michelle como liderança partidária começou a ganhar força após as eleições presidenciais de 2022.

Em 2023, ela assumiu o comando do PL Mulher, com apoio da direção nacional do partido, e passou a percorrer estados brasileiros para estimular a participação feminina na política.

Segundo dados apresentados pela própria ex-primeira-dama, o trabalho contribuiu para ampliar a presença de mulheres vinculadas à legenda nas eleições municipais de 2024.

“Elegemos 45,8% mais mulheres que em 2020. Foram 1.005 mulheres eleitas”, declarou.

A atuação também fortaleceu sua presença entre eleitoras conservadoras e integrantes de comunidades evangélicas, públicos com os quais mantém identificação por meio de discursos religiosos e da defesa de pautas familiares.

O estrategista político Duda Lima, citado na reportagem, atribuiu parte desse desempenho à capacidade de comunicação da ex-primeira-dama.

“Ela tem luz própria”, afirmou.

A projeção alcançada por Michelle fez com que seu nome passasse a ser considerado em diferentes articulações eleitorais, inclusive em discussões sobre uma eventual chapa presidencial com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Michelle, entretanto, negou ter negociado uma candidatura a vice-presidente.

Relação com os Bolsonaro acumula desentendimentos

A reportagem da Piauí também recupera episódios anteriores à chegada de Jair Bolsonaro à Presidência, em 2019, para contextualizar as dificuldades de convivência entre Michelle e integrantes da família.

O ex-deputado Julian Lemos, que participou da campanha presidencial de Bolsonaro em 2018, afirmou que a relação entre a então futura primeira-dama e os filhos do político já era marcada por distanciamento.

“Ela nunca foi aceita pela família. É o arquétipo da madrasta odiada pelos filhos do marido”, declarou Lemos.

O ex-aliado também apresentou críticas pessoais a Jair Bolsonaro e seus familiares. Essas avaliações refletem sua experiência e seus conflitos políticos posteriores, não sendo possível tratá-las como uma descrição consensual das relações familiares.

Outros antigos colaboradores ouvidos pela revista relataram restrições à presença de assessores na residência do casal e dificuldades na organização de atividades políticas.

Em sentido diferente, aliados de Michelle destacaram sua dedicação ao trabalho partidário e a atenção dispensada às apoiadoras.

A deputada federal Rosana Valle (PL-SP) afirmou que a ex-primeira-dama costuma dedicar tempo às participantes dos encontros promovidos pelo partido.

“Ela ouve, ela se preocupa. Nos eventos, costuma ficar do começo ao fim”, disse.

Já a ex-deputada Joice Hasselmann, que rompeu politicamente com o grupo bolsonarista, fez críticas à postura de Michelle e questionou a imagem pública construída por ela.

Os relatos mostram percepções divergentes sobre a ex-primeira-dama, em um ambiente marcado por alianças, disputas internas e rompimentos.

De Ceilândia ao Palácio da Alvorada

Nascida em 22 de março de 1982, em Ceilândia, no Distrito Federal, Michelle teve uma trajetória profissional anterior à entrada na política.

Trabalhou no comércio e, posteriormente, na representação de uma empresa do setor de vinhos em Brasília.

Em 2007, passou a trabalhar na Câmara dos Deputados, inicialmente no gabinete do então deputado Marco Aurélio Ubiali. Foi nesse período que conheceu Jair Bolsonaro, com quem iniciou um relacionamento.

O casal oficializou a união em cerimônia religiosa celebrada pelo pastor Silas Malafaia, em 2013.

Durante a campanha presidencial de 2018, Michelle teve participação relativamente discreta, mas ganhou destaque nacional na posse de Bolsonaro, em 1º de janeiro de 2019, quando discursou em Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Como primeira-dama, passou a defender especialmente iniciativas voltadas às pessoas com deficiência, à inclusão e às doenças raras.

A experiência no governo ampliou sua visibilidade e abriu caminho para uma atuação partidária mais independente após a derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022.

Religião e participação feminina sustentam discurso

A identidade religiosa ocupa espaço central na comunicação política de Michelle.

Em eventos do PL Mulher, ela costuma relacionar a participação feminina à fé cristã, à defesa da família e à presença das mulheres em posições de liderança.

Essa combinação recebe avaliações distintas de representantes religiosos.

O pastor Silas Malafaia, aliado da família Bolsonaro, considera que Michelle conquistou autonomia por sua capacidade de mobilização.

“Bolsonaro deu visibilidade a Michelle, e ela agarrou a oportunidade. Ela tem talento, é evangélica raiz, sabe falar, tem uma boa aparência, tem posicionamentos políticos”, afirmou à Piauí.

Malafaia também destacou a expansão do PL Mulher, que, em sua avaliação, passou a alcançar eleitoras além das comunidades evangélicas.

O deputado federal e pastor Henrique Vieira (Psol-RJ) apresentou outra interpretação. Para ele, a influência da ex-primeira-dama está relacionada à aproximação entre determinadas correntes religiosas conservadoras e projetos políticos de direita.

Vieira distingue o conservadorismo religioso, que orienta escolhas individuais e comunitárias, de movimentos que procuram transformar princípios de fé em regras obrigatórias para toda a sociedade.

Na avaliação do parlamentar, Michelle possui uma comunicação religiosa capaz de mobilizar seguidores, mas essa influência depende também das condições políticas e sociais.

As análises evidenciam que o eleitorado evangélico não constitui um grupo uniforme e reúne diferentes posições sobre religião, democracia e participação política.

Livro do PL Mulher expõe posições da ex-primeira-dama

As ideias defendidas por Michelle também aparecem no livro Edificando a nação, sobre bases e valores, lançado em 2025 pelo PL Mulher.

No artigo Uma política diferente, ela defende a ampliação da participação feminina em cargos políticos e de liderança.

Ao mesmo tempo, apresenta críticas ao feminismo e às correntes progressistas, afirmando que as mulheres conservadoras devem ter liberdade para conciliar atuação profissional, vida familiar e convicções religiosas.

O posicionamento evidencia uma das principais diferenças entre a agenda política de Michelle e a de movimentos feministas, especialmente em debates sobre direitos reprodutivos, modelos familiares e políticas de gênero.

Para a ex-primeira-dama, sua atuação representa uma alternativa conservadora de participação feminina na política.

Michelle ganha autonomia, mas futuro político permanece indefinido

A projeção nacional alcançada por Michelle fez com que dirigentes e aliados passassem a discutir sua possível participação em disputas eleitorais de maior alcance.

Seu nome já foi mencionado em articulações para o Senado e em especulações sobre uma candidatura presidencial futura.

Ao mesmo tempo, as divergências com Flávio Bolsonaro evidenciam os limites de sua influência nas decisões tomadas pelo núcleo familiar e pela direção do PL.

No vídeo divulgado em junho, Michelle afirmou que havia perdoado os envolvidos nos conflitos, mas ressaltou que isso não significava restabelecer automaticamente os relacionamentos.

“Perdoar não é o mesmo que esquecer ou querer continuar o relacionamento”, declarou.

A ex-primeira-dama também afirmou que seu futuro político permanece indefinido.

“Meu futuro político está nas mãos de Deus. Ele providenciará tudo”, disse.

Procurada pela Piauí, Michelle não concedeu entrevista para a reportagem.

A trajetória recente mostra uma liderança que construiu espaço próprio dentro do conservadorismo brasileiro, mas que continua vinculada às disputas políticas e familiares do grupo Bolsonaro. O alcance dessa autonomia dependerá das decisões partidárias e dos próximos movimentos da ex-primeira-dama.

 


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