Política / Crise Internacional
Oposição rejeita saída voluntária de Peña e avança com impeachment no Paraguai
Câmara aprova processo por 78 votos após renúncia do presidente; crise do Ueno Bank provoca investigação criminal e preocupa parceiros comerciais, incluindo MS.
05/11/2026
20:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciada nesta quinta-feira (5 de novembro), não foi suficiente para encerrar a crise política provocada pelo colapso do Ueno Bank. A Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade dos 78 parlamentares presentes, a abertura de um processo de impeachment contra o mandatário, enquanto integrantes da oposição defendem sua destituição formal para permitir a apuração das suspeitas envolvendo a instituição financeira.
O pedido de afastamento foi encaminhado ao Senado paraguaio, responsável por julgar a acusação. Para que haja destituição, será necessário o apoio de dois terços dos senadores.
A oposição sustenta que aceitar a renúncia poderia permitir a Peña assumir a condição de senador vitalício, prevista na Constituição paraguaia para ex-presidentes, com possíveis consequências sobre sua imunidade parlamentar. Essa interpretação está no centro das discussões jurídicas e políticas sobre a saída do chefe do Executivo.
A formalização da renúncia também encontrou obstáculos no Congresso. A sessão conjunta destinada a analisar o pedido ficou sem quórum após a retirada de parlamentares governistas, deixando a situação institucional pendente de definição.
Senadores querem responsabilização por crise bancária
Entre os parlamentares que defendem a continuidade do impeachment está a senadora Esperanza Martínez (Frente Guasú), que também cobrou a responsabilização do vice-presidente Pedro Alliana.
O senador Rafael Filizzola (Partido Democrático Progressista) criticou a tentativa de encerrar a crise por meio da renúncia e defendeu a investigação das possíveis irregularidades relacionadas ao banco.
Já o deputado Raúl Benítez (Partido Encontro Nacional) questionou a condução das negociações no Congresso e manifestou preocupação com a possibilidade de que os envolvidos deixem de responder pelas suspeitas.
Na Câmara, o pedido de impeachment contra Pedro Alliana foi rejeitado por 48 votos a 30, enquanto a acusação contra Peña recebeu apoio unânime dos presentes.
A abertura do processo político não representa condenação criminal. A apuração de eventuais delitos cabe às autoridades judiciais paraguaias.
Ministério Público abre investigação contra Peña
Além da pressão no Congresso, Santiago Peña passou a enfrentar uma nova investigação criminal relacionada ao caso Ueno Bank.
A Fiscalia-Geral do Paraguai determinou a abertura de procedimento para examinar denúncias envolvendo o presidente e possíveis irregularidades financeiras. Uma equipe de procuradores foi designada para conduzir as apurações.
As suspeitas levantadas por parlamentares incluem possíveis conflitos de interesses, tráfico de influência e questionamentos sobre a administração de recursos públicos depositados na instituição.
Peña nega irregularidades. O presidente reconhece que manteve vínculos empresariais anteriores com o grupo relacionado ao banco, mas sustenta que as acusações devem ser examinadas pelas autoridades competentes.
Banco atendia quase 3 milhões de clientes
A crise começou após o Banco Central do Paraguai determinar a abertura de um procedimento de resolução do Ueno Bank, diante da deterioração de seus indicadores financeiros.
Segundo informações divulgadas pelas autoridades paraguaias, a instituição atendia aproximadamente 2,9 milhões de clientes e havia recebido depósitos expressivos de órgãos públicos durante o governo Peña.
A interrupção das operações provocou dificuldades para correntistas movimentarem recursos e intensificou a pressão sobre o governo.
A oposição também questiona as relações comerciais mantidas anteriormente pelo presidente com empresas ligadas à instituição. Peña deixou sua participação societária no grupo em março de 2025, conforme as informações divulgadas sobre o caso.
Ao anunciar a renúncia, o presidente afirmou que sua decisão buscava preservar a estabilidade institucional e reduzir as tensões políticas.
“Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas”, declarou.
Posteriormente, diante da continuidade do impeachment, Peña informou que pretende comparecer ao julgamento político e apresentar sua defesa.
Crise no país vizinho interessa diretamente a Mato Grosso do Sul
Os desdobramentos políticos e financeiros no Paraguai também são acompanhados com atenção por setores ligados ao comércio e à logística de Mato Grosso do Sul.
O país vizinho é um dos principais parceiros do Estado no projeto da Rota Bioceânica, corredor rodoviário que pretende conectar o território brasileiro aos portos do Chile, passando pelo Paraguai e pela Argentina.
Uma das estruturas centrais dessa integração é a ponte internacional entre Porto Murtinho (MS) e Carmelo Peralta (Paraguai), considerada estratégica para o transporte de cargas e a ampliação das relações comerciais.
Peña esteve em Campo Grande, em março de 2026, durante a COP15, quando participou de compromissos com autoridades e representantes empresariais.
Uma eventual mudança no comando do governo paraguaio ocorre, portanto, em um período de fortalecimento das iniciativas de integração regional.
Até o momento, não há informação de suspensão ou alteração dos compromissos relacionados à Rota Bioceânica em consequência da crise política.
Senado terá papel decisivo
Com a acusação aprovada pela Câmara, o processo de impeachment entra em uma etapa decisiva no Senado.
Os parlamentares deverão analisar as acusações e os argumentos de defesa do presidente antes de deliberar sobre eventual destituição.
Paralelamente, as autoridades financeiras e judiciais continuam responsáveis pelas medidas relacionadas ao Ueno Bank e pela investigação das suspeitas apresentadas contra os envolvidos.
O resultado dessas decisões determinará os próximos passos da crise institucional no Paraguai, enquanto milhares de correntistas aguardam soluções para recuperar o acesso aos recursos mantidos na instituição financeira.
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