Campo Grande (MS), Sexta-feira, 06 de Novembro de 2026

Política / Crise Internacional

Oposição rejeita saída voluntária de Peña e avança com impeachment no Paraguai

Câmara aprova processo por 78 votos após renúncia do presidente; crise do Ueno Bank provoca investigação criminal e preocupa parceiros comerciais, incluindo MS.

05/11/2026

20:00

DA REDAÇÃO

©DIVULGAÇÃO

A renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciada nesta quinta-feira (5 de novembro), não foi suficiente para encerrar a crise política provocada pelo colapso do Ueno Bank. A Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade dos 78 parlamentares presentes, a abertura de um processo de impeachment contra o mandatário, enquanto integrantes da oposição defendem sua destituição formal para permitir a apuração das suspeitas envolvendo a instituição financeira.

O pedido de afastamento foi encaminhado ao Senado paraguaio, responsável por julgar a acusação. Para que haja destituição, será necessário o apoio de dois terços dos senadores.

A oposição sustenta que aceitar a renúncia poderia permitir a Peña assumir a condição de senador vitalício, prevista na Constituição paraguaia para ex-presidentes, com possíveis consequências sobre sua imunidade parlamentar. Essa interpretação está no centro das discussões jurídicas e políticas sobre a saída do chefe do Executivo.

A formalização da renúncia também encontrou obstáculos no Congresso. A sessão conjunta destinada a analisar o pedido ficou sem quórum após a retirada de parlamentares governistas, deixando a situação institucional pendente de definição.

Senadores querem responsabilização por crise bancária

Entre os parlamentares que defendem a continuidade do impeachment está a senadora Esperanza Martínez (Frente Guasú), que também cobrou a responsabilização do vice-presidente Pedro Alliana.

O senador Rafael Filizzola (Partido Democrático Progressista) criticou a tentativa de encerrar a crise por meio da renúncia e defendeu a investigação das possíveis irregularidades relacionadas ao banco.

Já o deputado Raúl Benítez (Partido Encontro Nacional) questionou a condução das negociações no Congresso e manifestou preocupação com a possibilidade de que os envolvidos deixem de responder pelas suspeitas.

Na Câmara, o pedido de impeachment contra Pedro Alliana foi rejeitado por 48 votos a 30, enquanto a acusação contra Peña recebeu apoio unânime dos presentes.

A abertura do processo político não representa condenação criminal. A apuração de eventuais delitos cabe às autoridades judiciais paraguaias.

Ministério Público abre investigação contra Peña

Além da pressão no Congresso, Santiago Peña passou a enfrentar uma nova investigação criminal relacionada ao caso Ueno Bank.

A Fiscalia-Geral do Paraguai determinou a abertura de procedimento para examinar denúncias envolvendo o presidente e possíveis irregularidades financeiras. Uma equipe de procuradores foi designada para conduzir as apurações.

As suspeitas levantadas por parlamentares incluem possíveis conflitos de interesses, tráfico de influência e questionamentos sobre a administração de recursos públicos depositados na instituição.

Peña nega irregularidades. O presidente reconhece que manteve vínculos empresariais anteriores com o grupo relacionado ao banco, mas sustenta que as acusações devem ser examinadas pelas autoridades competentes.

Banco atendia quase 3 milhões de clientes

A crise começou após o Banco Central do Paraguai determinar a abertura de um procedimento de resolução do Ueno Bank, diante da deterioração de seus indicadores financeiros.

Segundo informações divulgadas pelas autoridades paraguaias, a instituição atendia aproximadamente 2,9 milhões de clientes e havia recebido depósitos expressivos de órgãos públicos durante o governo Peña.

A interrupção das operações provocou dificuldades para correntistas movimentarem recursos e intensificou a pressão sobre o governo.

A oposição também questiona as relações comerciais mantidas anteriormente pelo presidente com empresas ligadas à instituição. Peña deixou sua participação societária no grupo em março de 2025, conforme as informações divulgadas sobre o caso.

Ao anunciar a renúncia, o presidente afirmou que sua decisão buscava preservar a estabilidade institucional e reduzir as tensões políticas.

“Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas”, declarou.

Posteriormente, diante da continuidade do impeachment, Peña informou que pretende comparecer ao julgamento político e apresentar sua defesa.

Crise no país vizinho interessa diretamente a Mato Grosso do Sul

Os desdobramentos políticos e financeiros no Paraguai também são acompanhados com atenção por setores ligados ao comércio e à logística de Mato Grosso do Sul.

O país vizinho é um dos principais parceiros do Estado no projeto da Rota Bioceânica, corredor rodoviário que pretende conectar o território brasileiro aos portos do Chile, passando pelo Paraguai e pela Argentina.

Uma das estruturas centrais dessa integração é a ponte internacional entre Porto Murtinho (MS) e Carmelo Peralta (Paraguai), considerada estratégica para o transporte de cargas e a ampliação das relações comerciais.

Peña esteve em Campo Grande, em março de 2026, durante a COP15, quando participou de compromissos com autoridades e representantes empresariais.

Uma eventual mudança no comando do governo paraguaio ocorre, portanto, em um período de fortalecimento das iniciativas de integração regional.

Até o momento, não há informação de suspensão ou alteração dos compromissos relacionados à Rota Bioceânica em consequência da crise política.

Senado terá papel decisivo

Com a acusação aprovada pela Câmara, o processo de impeachment entra em uma etapa decisiva no Senado.

Os parlamentares deverão analisar as acusações e os argumentos de defesa do presidente antes de deliberar sobre eventual destituição.

Paralelamente, as autoridades financeiras e judiciais continuam responsáveis pelas medidas relacionadas ao Ueno Bank e pela investigação das suspeitas apresentadas contra os envolvidos.

O resultado dessas decisões determinará os próximos passos da crise institucional no Paraguai, enquanto milhares de correntistas aguardam soluções para recuperar o acesso aos recursos mantidos na instituição financeira.

 

 


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