Internacional / Política
Santiago Peña apresenta renúncia após crise bancária no Paraguai; MS acompanha desdobramentos
Intervenção no Ueno Bank, com cerca de 2,9 milhões de clientes, provoca crise política no país vizinho e amplia incertezas sobre a sucessão presidencial.
05/11/2026
15:15
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5 de novembro) sua decisão de renunciar ao cargo, em meio à crise financeira provocada pela intervenção no Ueno Bank e à pressão de parlamentares por seu impeachment. A instabilidade política no país vizinho também chama atenção em Mato Grosso do Sul, que mantém relações comerciais, industriais e logísticas com o Paraguai, especialmente nas regiões de fronteira.
A decisão foi comunicada por Peña em um vídeo divulgado nas redes sociais. O presidente afirmou que pretende deixar o governo para preservar a estabilidade institucional e reduzir as tensões provocadas pelo colapso da instituição financeira.
“Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República”, declarou o mandatário, em pronunciamento no qual também mencionou a necessidade de preservar a paz social e as instituições democráticas.
Peña pediu desculpas à população e defendeu que a devolução dos recursos aos clientes prejudicados seja tratada como prioridade pelas autoridades financeiras.
A renúncia foi formalizada em documento encaminhado ao Congresso paraguaio. Entretanto, informações divulgadas pela imprensa local apontam que a Câmara dos Deputados rejeitou o pedido e aprovou uma acusação para julgamento político, o que mantém a situação institucional em aberto.
Intervenção bancária atingiu milhões de clientes
A crise começou após o Banco Central do Paraguai (BCP) determinar, em 3 de novembro, o início do procedimento de resolução do Ueno Bank, instituição que atendia aproximadamente 2,9 milhões de clientes.
Segundo as informações divulgadas pelo órgão regulador, a medida foi adotada depois da identificação de problemas financeiros que comprometeram a capacidade do banco de atender às exigências de solvência.
O índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela regulamentação paraguaia.
A decisão provocou a suspensão das operações bancárias e dificuldades de acesso aos recursos depositados pelos clientes, desencadeando manifestações em Assunção, capital do Paraguai.
O caso ganhou maior repercussão diante da presença de recursos públicos na instituição. Entre os valores envolvidos estão aproximadamente US$ 380 milhões vinculados ao Instituto de Previdência Social (IPS), responsável por benefícios previdenciários e serviços de saúde no país.
A situação ampliou as preocupações sobre a proteção dos depósitos e a recuperação dos recursos mantidos no banco.
Relações empresariais de Peña entram no centro da crise
A intervenção também provocou questionamentos políticos sobre antigas relações comerciais de Santiago Peña com o grupo empresarial ligado ao Ueno Bank.
O presidente manteve participação societária em empresas relacionadas ao Grupo Vázquez, controlador da instituição, até 2025.
Parlamentares da oposição passaram a cobrar esclarecimentos sobre possíveis conflitos de interesses, operações financeiras e a atuação dos órgãos responsáveis pela fiscalização bancária.
As relações empresariais anteriores do presidente, entretanto, não comprovam sua participação em eventuais irregularidades.
Peña negou ter cometido atos ilícitos e defendeu que os fatos sejam apurados pelas autoridades competentes.
Com o avanço da crise, integrantes do Partido Colorado, legenda do presidente, também passaram a questionar sua permanência no governo.
A discussão sobre o impeachment ganhou força no Congresso, aumentando a pressão política sobre o mandatário.
Sucessão presidencial permanece indefinida
A apresentação da renúncia abriu uma nova etapa da crise institucional paraguaia.
Pelas regras de sucessão, o vice-presidente Pedro Alliana é o nome previsto para assumir o comando do Executivo em caso de vacância definitiva da Presidência.
Entretanto, a formalização da saída depende dos procedimentos constitucionais e das decisões do Congresso.
A situação ganhou novos contornos com as informações sobre a rejeição da renúncia pela Câmara dos Deputados e o avanço do processo de julgamento político.
Até a definição institucional, não é possível tratar a transferência de poder como concluída.
Crise desperta atenção na fronteira com Mato Grosso do Sul
Os acontecimentos no Paraguai têm importância regional para Mato Grosso do Sul, especialmente pela integração econômica entre os dois territórios.
Na fronteira formada por Ponta Porã, no lado brasileiro, e Pedro Juan Caballero, no lado paraguaio, a circulação de consumidores, comerciantes e trabalhadores faz parte da rotina econômica.
Uma crise prolongada no sistema financeiro paraguaio pode gerar dificuldades para pessoas e empresas que dependem de serviços bancários no país vizinho.
Até o momento, entretanto, não há dados oficiais que permitam identificar quantos brasileiros residentes ou atuantes na região de fronteira foram diretamente afetados pela suspensão das operações do Ueno Bank.
Também não há confirmação de interrupção generalizada das atividades comerciais fronteiriças em consequência da crise.
Presidente paraguaio esteve em Campo Grande em março
A instabilidade ocorre meses depois de Santiago Peña participar de compromissos oficiais em Campo Grande, durante a abertura da COP15, conferência internacional dedicada à conservação das espécies migratórias, realizada em 22 de março de 2026.
Na ocasião, o presidente paraguaio participou de uma reunião com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e manteve contato com representantes do setor produtivo sul-mato-grossense.
Um dos encontros ocorreu na Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems), onde foram discutidas oportunidades de investimentos, negócios e integração econômica entre Brasil e Paraguai.
A aproximação faz parte de uma agenda de cooperação que envolve infraestrutura, comércio exterior e desenvolvimento regional.
Rota Bioceânica amplia importância da estabilidade paraguaia
Entre os principais projetos compartilhados por Mato Grosso do Sul e Paraguai está a Rota Bioceânica, corredor rodoviário planejado para conectar o Brasil aos portos do Chile, atravessando territórios paraguaio e argentino.
Uma das obras estratégicas é a ponte internacional entre Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul, e Carmelo Peralta, no Paraguai.
A estrutura integra um conjunto de investimentos destinados a facilitar o transporte de mercadorias, reduzir distâncias logísticas e ampliar as alternativas de exportação para os mercados internacionais.
Embora não exista confirmação de paralisação dessas obras em decorrência da crise política, a continuidade dos compromissos bilaterais dependerá da atuação das autoridades dos dois países.
Para Mato Grosso do Sul, os próximos desdobramentos serão importantes tanto pela proximidade territorial quanto pelos investimentos e projetos de integração econômica mantidos com o Paraguai.
A definição da sucessão presidencial e a condução da crise bancária deverão indicar como o país vizinho administrará seus compromissos institucionais e financeiros nos próximos meses.
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