Justiça / Investigação
PF encontra sala oculta com máquina de contar dinheiro em hangar de advogado ligado a Flávio Bolsonaro
Relatório obtido pelo Estadão aponta estrutura para armazenamento de valores em aeroporto de Brasília; Willer Tomaz nega irregularidades e afirma prestar serviços a transportadoras
22/10/2026
06:45
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A Polícia Federal (PF) identificou um compartimento oculto, equipado com uma máquina de contar cédulas e estrutura para armazenamento de valores, em um hangar utilizado por empresas de aviação do advogado Willer Tomaz, no Aeroporto Internacional de Brasília. A descoberta ocorreu durante uma operação realizada em 7 de agosto de 2026, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). As informações constam de relatório policial obtido pelo jornal O Estado de S. Paulo.
Amigo do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Willer é investigado em procedimentos que apuram suspeitas de movimentações financeiras irregulares e possível ocultação de patrimônio. Segundo a reportagem, o advogado também passou a ser investigado em um inquérito relacionado a suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o parlamentar.
A defesa de Willer rejeita qualquer irregularidade e afirma que o compartimento identificado pela PF é uma sala-cofre utilizada em atividades comerciais legítimas, relacionadas à prestação de serviços a empresas de transporte de valores.
Compartimento foi localizado após denúncia anônima
A operação ocorreu nos hangares 36 e 37 da área de aviação executiva do aeroporto de Brasília, ocupados por duas empresas vinculadas a Willer Tomaz.
Inicialmente, os agentes cumpriram mandados de busca e apreensão e recolheram documentos relacionados à operação das aeronaves.
Após a conclusão dessa primeira etapa, os investigadores receberam uma denúncia anônima sobre a existência de um espaço escondido que poderia ser utilizado para guardar dinheiro em espécie.
Diante da informação, a equipe retornou ao hangar por volta das 15h para realizar uma nova inspeção.
Segundo o relatório, os policiais identificaram alterações na estrutura de um dos ambientes. Após removerem um obstáculo de madeira, encontraram uma porta metálica reforçada, aparentemente blindada.
Com a abertura da porta, os agentes tiveram acesso a um compartimento reservado, equipado para a guarda de valores.
A PF descreveu o local como um ambiente estruturado especificamente para armazenamento seguro de dinheiro.
Policiais encontraram malas vazias e equipamento para contar cédulas
Durante a inspeção, os investigadores localizaram uma máquina de contar dinheiro, malas vazias consideradas adequadas ao transporte de grandes quantias e uma estrutura interna com grades e divisórias.
O relatório também menciona a apreensão anterior de outro equipamento de contagem de cédulas no escritório do advogado.
Apesar das características do compartimento, nenhuma quantia em dinheiro foi encontrada na sala durante a diligência.
Para os investigadores, os materiais localizados justificam aprofundar a apuração sobre a possível utilização do espaço para movimentação de recursos em espécie.
A PF também considerou necessário verificar se houve retirada de dinheiro do ambiente durante o intervalo entre a primeira vistoria e o retorno dos agentes.
Por esse motivo, foi solicitada uma perícia papiloscópica, destinada à coleta de impressões digitais que possam ajudar a identificar pessoas que utilizaram o compartimento.
A existência da sala e dos equipamentos não comprova, isoladamente, movimentação de recursos ilícitos.
Advogado afirma que sala-cofre era usada por transportadoras de valores
Procurado pelo Estadão, Willer Tomaz contestou a interpretação apresentada pelos investigadores.
Segundo o advogado, a estrutura encontrada no hangar integra a atividade comercial de suas empresas, que também prestariam serviços a transportadoras de valores.
“A sala cofre e os equipamentos mencionados estão localizados nos hangares das empresas de aviação e são essenciais para a prestação de serviços a empresas de transportes de valores que temos em nosso portfólio”, afirmou.
Willer também negou que o espaço fosse utilizado para guardar dinheiro de origem irregular.
“É fantasiosa e ridícula a tese de que a sala seria usada para contar ou guardar recursos de origem não declarada”, declarou.
A versão apresentada pelo advogado diverge da hipótese investigada pela PF, que busca esclarecer a finalidade do compartimento e sua eventual relação com movimentações financeiras sob investigação.
Quatro aeronaves foram apreendidas
Durante a operação de agosto, a Polícia Federal também apreendeu quatro aeronaves vinculadas às empresas de Willer Tomaz.
Entre os equipamentos estão:
Helicóptero Robinson R66, fabricado em 2012;
Avião Cessna 550 Bravo, fabricado em 2001;
Helicóptero Helibras AS 350 B2, fabricado em 2007;
Aeronave Cessna Aircraft, fabricada em 2000.
Embora tenham sido apreendidas, as aeronaves permaneceram nos hangares, sob responsabilidade de uma funcionária da empresa.
Os investigadores também obtiveram cópias dos diários de bordo e das listas de passageiros referentes a viagens realizadas nos últimos anos.
A documentação está sendo analisada para identificar usuários das aeronaves e verificar eventuais conexões com os fatos investigados.
Segundo o Estadão, Flávio Bolsonaro utilizou aeronaves do advogado, inclusive em deslocamentos com familiares para o Rio de Janeiro.
O uso de aeronaves privadas, por si só, não constitui irregularidade. A investigação busca esclarecer as circunstâncias dos deslocamentos e eventuais relações com as movimentações financeiras examinadas.
STF apura suspeitas envolvendo Flávio Bolsonaro
A operação realizada em agosto foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do STF, no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de ocultação de patrimônio relacionadas ao senador Weverton Rocha (PDT-MA).
Posteriormente, Willer Tomaz também passou a figurar em outro inquérito, conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes, que, segundo o Estadão, apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio Bolsonaro.
A reportagem publicada no domingo (18) informou que esse seria o segundo procedimento no STF no qual o senador passou à condição de investigado.
Os elementos que deram origem à nova apuração teriam sido obtidos a partir da quebra do sigilo de dados armazenados na nuvem do advogado, em investigação iniciada no Rio Grande do Sul e posteriormente encaminhada ao Supremo.
As suspeitas ainda dependem de apuração e não representam comprovação de responsabilidade criminal dos envolvidos.
Movimentações de R$ 258 milhões em apostas chamaram atenção da PF
Outro ponto examinado pelos investigadores envolve movimentações financeiras realizadas por Willer Tomaz em plataformas de apostas esportivas.
Segundo o Estadão, a Polícia Federal identificou operações consideradas atípicas e investiga a possibilidade de utilização dessas plataformas para lavagem de dinheiro.
A reportagem afirma que o advogado movimentou R$ 258 milhões em depósitos em uma das plataformas.
Um documento do Ministério da Fazenda teria classificado Willer como o maior apostador individual do Brasil.
O volume financeiro chamou a atenção dos investigadores, que procuram esclarecer a origem dos recursos e a finalidade das operações.
Entretanto, movimentações elevadas em plataformas de apostas não demonstram, por si só, a prática de lavagem de dinheiro.
PF também apreendeu imagens de câmeras em rancho de luxo
A mesma operação incluiu buscas em uma propriedade rural de Willer Tomaz, localizada em Planaltina de Goiás (GO).
No relatório, os agentes destacaram as características da estrutura encontrada no imóvel, descrita como indicativa de elevada capacidade patrimonial.
A propriedade possui praia artificial, lago com píeres, construções próximas à água, motos aquáticas e um túnel subterrâneo que liga áreas separadas por uma via pública.
O local também ficou conhecido após a divulgação de uma fotografia do senador Weverton Rocha ao lado de políticos do Centrão, registrada na piscina da propriedade.
O vazamento dessa imagem tornou-se objeto de apuração da própria Polícia Federal.
Durante as buscas, os investigadores recolheram quatro dispositivos de armazenamento vinculados ao sistema de câmeras de segurança do rancho.
Segundo o relatório, o objetivo foi preservar registros que possam ajudar a identificar a circulação de pessoas, veículos e bens no período relacionado à investigação.
As imagens poderão ser analisadas em conjunto com os demais documentos e registros apreendidos.
Investigações seguem em andamento
A Polícia Federal procura estabelecer se há relação entre as movimentações financeiras investigadas, a utilização das aeronaves, o compartimento encontrado no hangar e os registros obtidos na propriedade rural.
Entre os materiais sob análise estão listas de passageiros, diários de bordo, documentos financeiros e gravações de câmeras de segurança.
Willer Tomaz nega que a sala-cofre tenha sido utilizada para atividades ilícitas e sustenta que sua estrutura atende a serviços comerciais regulares.
Até o momento, as informações divulgadas não indicam que tenha sido encontrado dinheiro em espécie no compartimento oculto, nem estabelecem, por si só, a participação de Flávio Bolsonaro em eventual movimentação irregular.
Os fatos relatados integram investigações em andamento, e a responsabilidade dos envolvidos dependerá da análise das provas e das decisões das autoridades competentes.
Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veículo.
Leia Também
Leia Mais
Richarlison acusa Flávio Bolsonaro e advogado de irregularidades em disputa por mansão de R$ 10 milhões
Leia Mais
Horóscopo desta quinta-feira (22): veja as previsões para os 12 signos do zodíaco
Leia Mais
Vencer a crise institucional é o objetivo do eleitor brasileiro
Leia Mais
Lula aceita exigências de Flávio Bolsonaro para abrir sigilos e cobra reciprocidade
Municípios