Política / Eleições 2026
Flávio Bolsonaro exclui publicações contra o Bolsa Família às vésperas do segundo turno
Postagens antigas associavam o benefício ao uso eleitoral de recursos públicos; candidato afirma que pretende ampliar a proteção de beneficiários que conseguem emprego.
20/10/2026
16:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) apagou publicações antigas de sua conta na rede social X, antigo Twitter, nas quais criticava o Bolsa Família e associava o programa de transferência de renda ao uso eleitoral de benefícios sociais. A exclusão dos conteúdos ganhou repercussão nesta terça-feira (20), a cinco dias do segundo turno presidencial, marcado para domingo (25).
A remoção foi identificada pelo jornal O Estado de S. Paulo, que havia armazenado, em junho, as publicações feitas pelo parlamentar na plataforma. A comparação com o conteúdo disponível atualmente permitiu identificar mensagens que deixaram de aparecer no perfil do candidato.
Procurada pelo jornal, a campanha de Flávio Bolsonaro não havia apresentado esclarecimentos sobre a exclusão das postagens até a publicação da reportagem.
Entre os conteúdos apagados estão mensagens publicadas em novembro de 2011, quando Flávio Bolsonaro exercia o mandato de deputado estadual no Rio de Janeiro.
Na ocasião, ele criticou o projeto Renda Melhor, iniciativa do governo fluminense que previa pagamentos complementares de até R$ 300 para famílias que já recebiam o Bolsa Família.
O parlamentar afirmou ter sido o único deputado a votar contra a proposta na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).
“Fui o único voto contra na @alerj ao projeto ‘Renda Melhor’, q chamei de ‘bolsa-farelo’, pelo seu caráter clientelista eleitoral”, escreveu na época.
A expressão “bolsa-farelo” apareceu em mais de uma publicação do então deputado, segundo o levantamento.
As mensagens demonstravam a oposição de Flávio à proposta estadual e incluíam críticas à utilização de programas sociais na política eleitoral.
Outras publicações identificadas pelo jornal foram feitas em 2010 e continham afirmações sobre a relação entre benefícios sociais e comportamento eleitoral.
Em uma postagem de março daquele ano, Flávio escreveu:
“3% da população tem ensino superior, 30 milhões recebem bolsa-família, 80% dos eleitores votam em troca de alguma coisa.”
Os percentuais e números citados representam afirmações feitas pelo parlamentar na época e não foram acompanhados, no material apresentado, de fontes que comprovassem sua precisão.
Em abril de 2010, ele voltou ao assunto.
“Enquanto se trocar voto por cesta básica, bolsa-família e esmola o Brasil não vai para frente”, publicou.
Em outra ocasião, ao compartilhar uma notícia sobre a aprovação de reajuste do Bolsa Família, o parlamentar escreveu que a medida representaria “financiamento público de campanha do PT”.
As declarações associavam decisões relacionadas ao programa social a interesses eleitorais do Partido dos Trabalhadores (PT), sem apresentar, nas mensagens reproduzidas, provas de irregularidades.
A retirada das publicações passou a ser explorada por aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa eleitoral.
Em uma manifestação no X, o perfil oficial do PT afirmou que os conteúdos antigos indicariam oposição de Flávio Bolsonaro ao Bolsa Família.
“Você não engana ninguém, Flávio”, publicou o partido.
A repercussão ocorre em meio ao debate sobre a continuidade e as regras do programa de transferência de renda, que atende famílias em situação de vulnerabilidade econômica.
A exclusão das postagens, por si só, não esclarece os motivos da decisão nem permite concluir qual seria a posição atual do candidato sobre todos os aspectos do benefício.
A discussão sobre o Bolsa Família também ganhou força após declarações de Daniella Marques, coordenadora-geral do plano de governo de Flávio Bolsonaro.
Ela afirmou que a proposta do candidato é permitir que beneficiários continuem recebendo parte do auxílio por até dois anos após o aumento da renda familiar, em situações como a conquista de um emprego formal ou a abertura de um negócio.
A manifestação provocou críticas de adversários, que interpretaram inicialmente a proposta como uma possível limitação do tempo de permanência no programa.
Entretanto, o mecanismo mencionado pela coordenadora já existe no Bolsa Família e é conhecido como regra de proteção.
Pelas regras citadas no debate, famílias que ultrapassam o limite de renda de R$ 218 por pessoa podem continuar recebendo 50% do valor do benefício durante um período de transição, desde que atendam às condições estabelecidas pelo programa.
O prazo mencionado é de 18 meses, enquanto anteriormente a permanência nessa condição podia chegar a 24 meses.
Assim, a proposta apresentada pela campanha de Flávio Bolsonaro consiste em ampliar o período de transição para dois anos, e não em estabelecer um limite geral de dois anos para todos os beneficiários.
Após a repercussão das declarações, Flávio Bolsonaro e Daniella Marques divulgaram vídeos nas redes sociais para contestar a interpretação de que a candidatura pretende restringir ou encerrar o Bolsa Família.
O senador afirmou que sua proposta busca incentivar a entrada dos beneficiários no mercado formal de trabalho sem provocar a perda imediata do auxílio.
“O que estou fazendo de proposta é para incentivar você, caso queira, quando arrumar um emprego de carteira assinada, você continua recebendo o Bolsa Família por até dois anos”, declarou.
A campanha classificou como falsas as afirmações de adversários de que o candidato pretende acabar com o programa.
O episódio acrescenta um novo tema à disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro na reta final do segundo turno, ao colocar em debate tanto as declarações antigas do senador quanto as propostas atuais de sua campanha para a transferência de renda.
Os eleitores voltarão às urnas no próximo domingo (25 de outubro) para escolher o presidente da República.
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