Política / Investigação
Vorcaro afirma que Kassab recebia comissões por investimentos de fundos públicos no Banco Master
Ex-banqueiro atribui ao presidente do PSD participação em esquema de captação de recursos previdenciários; Kassab nega as acusações e classifica relato como fantasioso.
19/10/2026
16:00
MTP
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, afirmou à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR) que o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, teria recebido parte das comissões pagas pelo banco para atrair investimentos de fundos previdenciários estaduais e municipais. As declarações foram apresentadas durante uma tentativa de negociação de colaboração premiada e são contestadas pelo dirigente partidário.
Segundo o relato atribuído a Vorcaro, Kassab teria se comprometido a incentivar administrações municipais comandadas pelo PSD ou por aliados a aplicar recursos dos regimes próprios de previdência em letras financeiras do Banco Master, produtos de investimento que não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Em contrapartida, o banco pagaria comissões proporcionais aos valores captados. Vorcaro afirmou que parte desses pagamentos teria sido realizada em dinheiro a consultores e agentes públicos, incluindo Kassab.
As declarações do ex-banqueiro ainda dependem de comprovação e não representam, por si só, prova de participação do presidente do PSD em irregularidades.
Procurado para comentar as acusações, Gilberto Kassab negou qualquer participação na captação de recursos para o Banco Master e afirmou nunca ter recebido pagamentos de Vorcaro ou de seus representantes.
“Trata-se de um relato absolutamente fantasioso, o qual refuto com veemência”, declarou o presidente do PSD.
Kassab também afirmou que jamais atuou para direcionar investimentos de fundos previdenciários a qualquer instituição financeira.
“Nunca fiz qualquer gestão em favor de fundo de previdência para o Master ou qualquer outra instituição financeira. Nunca tratei de doações com Daniel Vorcaro, representantes do Banco Master, e nunca autorizei ninguém a falar em meu nome nestes temas”, acrescentou.
O dirigente partidário declarou ainda que não mantém relacionamento com o ex-banqueiro e que nunca conversou com ele pessoalmente ou por telefone.
De acordo com as informações apresentadas por Vorcaro, o Banco Master passou a intensificar a oferta de letras financeiras a regimes próprios de previdência a partir de 2023, período em que enfrentava dificuldades para captar recursos por meio de Certificados de Depósito Bancário (CDBs).
O banco precisava obter dinheiro para honrar aplicações que estavam vencendo, enquanto parte significativa dos recursos anteriormente captados havia sido direcionada a investimentos de baixa liquidez, como precatórios, direitos creditórios e fundos financeiros.
Nesse cenário, os fundos previdenciários de estados e municípios passaram a representar uma alternativa de captação.
Segundo Vorcaro, o contato com Kassab teria ocorrido por intermédio de Augusto Lima, ex-sócio do banqueiro, apontado como interlocutor entre o dirigente partidário e representantes do Master.
A versão apresentada pelo ex-controlador do banco deverá ser confrontada com documentos e outros elementos reunidos pelos investigadores.
Dados do governo federal apontam que 21 regimes próprios de previdência de estados e municípios investiram aproximadamente R$ 1,88 bilhão em letras financeiras do Banco Master entre 2023 e 2024.
Esses fundos administram recursos destinados ao pagamento de aposentadorias e pensões de servidores públicos efetivos.
Entre os maiores investimentos identificados estão:
Rio de Janeiro: R$ 970 milhões.
Amapá: R$ 400 milhões.
Maceió (AL): R$ 97 milhões.
São Roque (SP): R$ 93,1 milhões.
Cajamar (SP): R$ 87 milhões.
O maior volume foi aplicado pelo RioPrevidência, responsável pela gestão previdenciária dos servidores do Estado do Rio de Janeiro.
As aplicações em letras financeiras envolvem riscos específicos porque esses títulos não são cobertos pelo FGC, mecanismo que protege determinadas modalidades de depósitos e investimentos bancários dentro dos limites estabelecidos.
Com a liquidação do Banco Master, os titulares dessas letras passaram à condição de credores da instituição, sujeitos às regras do processo de liquidação e ao risco de não recuperar integralmente os valores investidos.
Desde o início das investigações envolvendo o Banco Master, a Polícia Federal realizou diversas operações relacionadas à aplicação de recursos previdenciários em títulos emitidos pela instituição.
Entre os procedimentos mencionados estão a Operação Zona Cinzenta, envolvendo investimentos no Amapá; a Compliance 82, relacionada a Maceió; e a Operação Off-Balance, referente a Cajamar.
Também houve investigações sobre aplicações realizadas pelo fundo previdenciário do Rio de Janeiro, no âmbito da Operação Compliance Zero.
Os procedimentos buscam esclarecer as circunstâncias das decisões de investimento, a atuação de intermediários e a eventual ocorrência de irregularidades na destinação dos recursos públicos.
A existência de aplicações em títulos do banco, isoladamente, não comprova que os gestores tenham praticado crimes.
As declarações sobre Kassab foram apresentadas durante tentativas de Daniel Vorcaro de firmar um acordo de colaboração premiada.
Segundo as informações divulgadas, três propostas de delação foram rejeitadas pela Polícia Federal e pela PGR, que identificaram omissões em relação a fatos já conhecidos pelos investigadores.
Vorcaro está preso preventivamente desde 4 de março de 2026, quando foi alvo da terceira fase da Operação Compliance Zero.
O ex-banqueiro permanece custodiado na unidade conhecida como Papudinha, no Complexo da Papuda, em Brasília.
A rejeição das propostas de colaboração não impede que informações fornecidas pelo investigado sejam examinadas, mas reforça a necessidade de verificação independente das acusações.
Esta é a segunda vez que o nome de Gilberto Kassab aparece nas informações atribuídas a Vorcaro durante a tentativa de colaboração.
Conforme reportagem do UOL, o ex-banqueiro também teria mencionado supostas doações eleitorais intermediadas pelo dirigente do PSD em 2022, relacionadas à manutenção do Credcesta, cartão de crédito consignado ligado a empresas do grupo Master, no governo paulista.
Kassab e o governo de São Paulo negaram as alegações.
Em outro episódio, Vorcaro teria buscado a intervenção do presidente do PSD para convencer o deputado estadual Luiz Paulo (PSD-RJ) a retirar das redes sociais um vídeo com críticas aos investimentos do RioPrevidência no Banco Master. Segundo o relato divulgado, o pedido não foi atendido.
Em sua manifestação, Kassab rejeitou tanto a existência de contatos com Vorcaro quanto qualquer participação em pagamentos, doações ou negociações envolvendo fundos previdenciários.
“Não tenho qualquer relação com Daniel Vorcaro, nunca falei com ele, pessoalmente ou por telefone. Não participei ou recebi nenhuma doação de Vorcaro ou de seus representantes. Nunca recebi valores em espécie”, afirmou.
O presidente do PSD concluiu dizendo que desconhece a origem das acusações e que elas não possuem sustentação factual.
As declarações atribuídas a Daniel Vorcaro permanecem no campo das alegações apresentadas aos investigadores. A eventual responsabilização de agentes públicos ou políticos dependerá da identificação de provas, da apuração das circunstâncias e das decisões das autoridades competentes.
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