Justiça / Investigação
Delator diz que desconhecia uso de R$ 62 milhões em filme sobre Bolsonaro; PF aponta contradições
Empresário afirma que dinheiro enviado aos Estados Unidos seria aplicado em imóveis, mas investigadores encontraram documento que menciona financiamento da produção.
17/10/2026
07:15
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, afirmou à Polícia Federal (PF) que desconhecia a suposta destinação de US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 62 milhões, enviados aos Estados Unidos para financiar o filme Dark Horse, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em depoimento prestado no âmbito de uma delação premiada, ele declarou que o dinheiro foi apresentado como investimento imobiliário pelo empresário Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master. A PF, entretanto, identificou documentos que levantam dúvidas sobre essa versão.
A investigação examina transferências internacionais relacionadas a um fundo administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro.
Segundo informações obtidas pela imprensa, o empresário afirmou que não manteve contato com autoridades políticas durante as operações financeiras, incluindo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República.
A Polícia Federal solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) mais 90 dias para aprofundar a análise dos documentos e esclarecer divergências entre os registros financeiros e as declarações do colaborador.
Em depoimento prestado em 1º de outubro, Mineiro relatou que recebeu uma proposta para aplicar recursos em um fundo destinado ao desenvolvimento de empreendimentos imobiliários nos Estados Unidos.
Os investimentos seriam direcionados principalmente aos estados do Texas e da Flórida, por meio de uma estrutura financeira associada a Paulo Calixto.
Segundo o empresário, a solicitação para transferir os valores partiu de Fabiano Zettel e teria sido confirmada por Daniel Vorcaro.
Mineiro declarou que não recebeu informações sobre qualquer participação no financiamento de uma produção cinematográfica.
“Em momento algum lhe foi informado que os recursos se destinavam ao financiamento de um filme ou cinebiografia”, consta do relato apresentado à Polícia Federal.
O empresário também afirmou que não aceitaria participar de uma operação com essa finalidade, por considerar que o envolvimento poderia representar riscos à reputação de suas empresas.
De acordo com a investigação, as remessas foram realizadas por meio da Entre Investimentos, empresa ligada ao delator, com destino ao fundo Havengate, administrado por Paulo Calixto.
O montante efetivamente transferido por essa operação, conforme os dados apresentados, chegou a US$ 12,3 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 62 milhões.
A Polícia Federal aponta que o planejamento financeiro relacionado à produção previa aportes de até US$ 24 milhões, valor estimado em R$ 134 milhões.
Mineiro afirmou que tomou conhecimento da possível utilização dos recursos no filme somente depois de reportagens publicadas pela imprensa.
Segundo seu depoimento, após descobrir a finalidade atribuída ao investimento, solicitou o resgate integral do dinheiro e a apresentação de demonstrativos financeiros do fundo.
O empresário declarou que não recebeu resposta dos responsáveis pela administração dos recursos.
A versão apresentada pelo delator passou a ser confrontada com documentos obtidos pelos investigadores.
Segundo a Polícia Federal, uma carta-acordo dirigida à Entre Investimentos estabelece compromisso de aporte de US$ 24 milhões e faz referência à produção de um filme.
O documento é considerado relevante porque contrasta com a afirmação de Mineiro de que não havia sido informado sobre a destinação cinematográfica dos recursos.
Em análise preliminar, a PF reconheceu que parte dos registros confirma os valores e as instituições envolvidas nas transferências.
Entretanto, os investigadores identificaram informações que divergem do depoimento ou exigem esclarecimentos adicionais.
A existência da carta-acordo não resolve, isoladamente, a questão sobre o conhecimento efetivo do empresário a respeito do destino do dinheiro, ponto que permanece sob investigação.
Outra divergência envolve a origem dos recursos utilizados nas remessas internacionais.
Mineiro afirmou que os aportes foram financiados por saques de uma conta garantida no Banco Master, pela venda de ativos e por recursos próprios.
A Polícia Federal, porém, identificou uma movimentação financeira que não corresponde integralmente a essa explicação.
Segundo os investigadores, na véspera da primeira transferência ao exterior, a conta da Entre Investimentos recebeu um depósito de R$ 12 milhões realizado pela empresa Super Empreendimentos.
A informação consta de uma planilha de controle analisada pela PF e será objeto de aprofundamento para esclarecer a origem e o percurso do dinheiro.
Os investigadores também apontaram fragilidades na documentação apresentada para comprovar determinadas operações, incluindo a ausência de registros referentes a parte dos pagamentos.
O possível financiamento do filme ganhou repercussão após reportagem do The Intercept Brasil apontar que Flávio Bolsonaro teria participado diretamente de negociações com Daniel Vorcaro sobre o repasse de recursos.
Essa informação integra a apuração jornalística e deve ser distinguida das declarações prestadas por Mineiro à Polícia Federal.
Em seu depoimento, o empresário afirmou que não teve contato com Flávio ou outras autoridades políticas durante a realização das transferências.
A documentação mencionada na investigação, conforme as informações divulgadas, ainda não permite estabelecer integralmente a origem de todos os valores movimentados.
A referência ao senador nas reportagens não significa, por si só, comprovação de participação em eventual irregularidade financeira.
A Go UP, produtora associada ao filme Dark Horse, também aparece na análise dos documentos financeiros.
Segundo a Polícia Federal, os registros examinados até o momento não permitem identificar as contas bancárias de origem de determinados recursos remetidos pela produtora.
Os documentos mostram valores recebidos, contas beneficiárias e características das operações de câmbio, mas não esclarecem completamente a origem do dinheiro.
Essa limitação é um dos motivos apontados pelos investigadores para justificar a continuidade das diligências.
O objetivo é reconstruir o caminho dos recursos e verificar a participação das pessoas físicas e jurídicas envolvidas nas operações.
Diante das divergências identificadas, a Polícia Federal solicitou ao STF a ampliação do prazo de investigação por mais 90 dias.
O período adicional deverá permitir a análise de documentos bancários, contratos e registros de transferências internacionais, além do confronto dessas informações com o depoimento do colaborador.
A apuração também deverá buscar esclarecimentos sobre o compromisso de aporte de US$ 24 milhões, a movimentação de R$ 12 milhões identificada na conta da Entre Investimentos e a documentação relacionada à produtora do filme.
Procurados pela reportagem que divulgou as informações, representantes da campanha de Flávio Bolsonaro, a assessoria de Daniel Vorcaro e o advogado Paulo Calixto não haviam apresentado manifestação até a publicação.
A investigação permanece em andamento, sem conclusão definitiva sobre o conhecimento de Mineiro a respeito da destinação dos recursos ou sobre eventuais responsabilidades dos demais envolvidos.
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