Justiça / Patrimônio
Richarlison apresenta documentos e contesta versão de advogado sobre imóvel ligado a Flávio Bolsonaro
Jogador afirma ter investido R$ 10 milhões em propriedade de Angra dos Reis e questiona transferência de direitos; defesa de Willer Tomaz nega irregularidades
21/10/2026
15:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
O atacante Richarlison, jogador do Tottenham e da seleção brasileira, divulgou nesta quarta-feira (21 de outubro) documentos que, segundo ele, comprovam a legalidade da aquisição dos direitos de ocupação de um imóvel de luxo em Angra dos Reis (RJ). A propriedade, situada em terreno pertencente à União, é objeto de uma disputa judicial que envolve o advogado Willer Tomaz e na qual o jogador também menciona o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).
Em vídeo publicado nas redes sociais, Richarlison afirmou ter investido aproximadamente R$ 10 milhões na aquisição dos direitos sobre o imóvel, em reformas e na segurança da área. O jogador acusa integrantes do grupo adversário de terem utilizado procedimentos judiciais e administrativos para obter o controle da propriedade.
As acusações são contestadas por Willer Tomaz, que afirma possuir documentação regular e decisões judiciais favoráveis. Flávio Bolsonaro, por sua vez, nega participação na disputa e sustenta que foi mencionado no processo apenas como testemunha.
Jogador afirma ter adquirido direitos em 2020
Segundo Richarlison, a negociação ocorreu em outubro de 2020, em parceria com o político mineiro Alencar da Silveira Júnior, ex-deputado estadual.
O atacante afirma que os investimentos chegaram a R$ 10 milhões, incluindo R$ 4,66 milhões destinados à indenização de antigos ocupantes, além de despesas com reformas e proteção da propriedade.
“Eu e o deputado Alencar compramos a área em outubro de 2020. Investimos cerca de R$ 10 milhões entre pagamento aos antigos posseiros, reformas e segurança contra invasões”, declarou.
O jogador sustenta que os acordos foram formalizados em cartório e que a posse recebeu reconhecimento da Justiça do Rio de Janeiro.
O imóvel está localizado próximo ao aeroporto de Angra dos Reis e possui estrutura de alto padrão, incluindo uma cachoeira particular.
Por se tratar de terreno da União, a controvérsia envolve direitos de ocupação e procedimentos de regularização, e não uma compra convencional da propriedade plena do terreno.
Richarlison questiona atuação da Secretaria do Patrimônio da União
O atacante afirma que, após adquirir os direitos sobre o imóvel, recebeu propostas de interessados na área, entre os quais estaria Flávio Bolsonaro.
Segundo sua versão, a recusa em negociar teria sido seguida de medidas judiciais que resultaram na perda do controle da propriedade.
“Como eu não quis vender, os caras pegaram na mão grande lá na Justiça”, afirmou.
Richarlison também questiona a atuação da Secretaria do Patrimônio da União (SPU) na análise dos pedidos de regularização.
O jogador alega que seu requerimento permaneceu sem andamento durante aproximadamente dez meses, enquanto o pedido apresentado pelo grupo adversário teria recebido tratamento mais rápido.
Ele também acusa os envolvidos de utilizarem uma empresa anteriormente considerada inapta e de terem recorrido a documentos relacionados a antigos ocupantes para obter a transferência dos direitos.
Essas afirmações integram a versão apresentada pelo atleta e são contestadas pela defesa da outra parte.
Advogado afirma possuir decisões judiciais favoráveis
O advogado Willer Tomaz rejeitou as acusações e afirmou que a documentação divulgada por Richarlison não comprova a aquisição dos direitos perante quem considera a legítima titular da área.
Segundo Tomaz, os documentos apresentados demonstrariam pagamentos realizados a ocupantes anteriores, e não à empresa que, conforme sua interpretação, detinha os direitos sobre o imóvel.
“Os papéis exibidos por Richarlison confirmam que o atacante pagou a posseiros, e não à proprietária de direito”, declarou.
O advogado também apontou divergências entre os valores apresentados pelo jogador.
De acordo com Tomaz, enquanto Richarlison menciona o pagamento de R$ 4,66 milhões, a empresa Sport 70, ligada ao atleta, teria informado em documentos judiciais o desembolso de R$ 2,6 milhões.
Tomaz afirma que sua posição está amparada por escritura registrada, certidão da SPU e decisões judiciais favoráveis, inclusive no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que, segundo ele, já transitaram em julgado.
O advogado também declarou ter desembolsado aproximadamente R$ 5 milhões para regularizar pendências fiscais relacionadas à propriedade.
Flávio Bolsonaro nega participação na disputa
A participação de Flávio Bolsonaro é outro ponto de divergência entre as versões apresentadas.
Richarlison afirma que o senador teria demonstrado interesse na aquisição do imóvel e que integrantes de seu grupo teriam atuado nos procedimentos administrativos de regularização.
O atacante declarou ainda que tentou conversar diretamente com o parlamentar no início de 2026, mas não recebeu resposta.
“Mandei mensagem para o Flávio Bolsonaro no começo do ano para resolver a situação e não tive retorno”, afirmou.
O senador, entretanto, já negou qualquer envolvimento irregular com a propriedade.
Em manifestação publicada nas redes sociais em 2022, Flávio afirmou que não integrava o litígio e que havia sido incluído no processo apenas como testemunha.
“Fake news que eu esteja em litígio com Richarlison. A defesa dele me arrolou como testemunha numa disputa de imóvel no RJ, sem eu ter absolutamente nada a ver com o tema”, declarou na ocasião.
Willer Tomaz também sustenta que o senador não participou da disputa pela propriedade e que sua presença no processo ocorreu exclusivamente na condição de testemunha indicada pela parte adversária.
Disputa judicial começou após negociação do imóvel
O conflito envolvendo a área se estende desde 2020, quando Richarlison e seus sócios afirmam ter adquirido os direitos de ocupação.
Em 2022, o grupo foi surpreendido por uma ordem judicial de reintegração de posse solicitada pela empresa M Locadora, representada por advogado associado a Willer Tomaz.
Desde então, as partes apresentam versões divergentes sobre a legitimidade dos direitos relativos à propriedade e sobre a regularidade dos procedimentos administrativos realizados perante a SPU.
Tomaz afirma que as questões relacionadas à titularidade já foram examinadas pela Justiça e que existem decisões definitivas favoráveis à sua posição.
Richarlison, por outro lado, mantém os questionamentos sobre a origem dos direitos apresentados pelo grupo adversário e sobre a atuação dos órgãos responsáveis pela regularização.
Representação pede investigação ao Ministério Público Federal
A controvérsia também foi levada ao Ministério Público Federal (MPF) pelo coletivo Derrubando Muros, que apresentou uma representação solicitando a apuração dos procedimentos de transferência dos direitos de ocupação.
O grupo argumenta que a situação merece análise por envolver patrimônio pertencente à União.
“Não é uma mera disputa entre entes privados. Trata-se de patrimônio da União. É de todos os brasileiros”, afirmou José Cesar Martins, coordenador do coletivo.
Entre os signatários da representação estão o jurista Miguel Reale Júnior e o professor de Direito Conrado Hübner Mendes.
O documento menciona suspeitas de advocacia administrativa, hipótese que envolve o uso indevido da função pública para atender interesses particulares.
A apresentação da representação, contudo, não significa que as irregularidades tenham sido comprovadas.
Defesa cita arquivamento de investigação criminal
Em resposta às acusações, Willer Tomaz afirmou que os fatos relacionados à negociação já foram examinados em inquérito policial, posteriormente arquivado por ausência de indícios de crime, segundo sua versão.
O advogado também declarou que Richarlison responde a uma ação judicial em Brasília em razão das acusações feitas publicamente.
As manifestações das partes demonstram que a controvérsia envolve diferentes questões: a titularidade dos direitos de ocupação, a validade dos documentos apresentados, as decisões judiciais existentes e a regularidade dos procedimentos administrativos.
A divulgação dos documentos pelo jogador representa um novo capítulo da disputa, mas não estabelece, por si só, a existência de irregularidades atribuídas aos envolvidos.
Enquanto Richarlison sustenta ter adquirido legitimamente os direitos sobre a propriedade, Willer Tomaz afirma que sua documentação e as decisões judiciais reconhecem a posição defendida pelo grupo que representa. Flávio Bolsonaro mantém a versão de que não participou da negociação nem da disputa judicial pelo imóvel.
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