Economia / Mercado
Euforia do mercado com Flávio pode durar pouco sem plano fiscal concreto, alertam economistas
Bolsa disparou e dólar caiu após resultado do primeiro turno, mas especialistas dizem que reação pode se inverter se candidato não detalhar medidas para controlar dívida
07/10/2026
08:15
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A forte reação do mercado financeiro após Flávio Bolsonaro (PL) terminar o primeiro turno à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está baseada, principalmente, na expectativa de uma mudança na condução das contas públicas. Economistas, porém, alertam que esse otimismo poderá desaparecer rapidamente caso um eventual governo do candidato do PL não apresente medidas fiscais concretas e politicamente viáveis. Markdown colado
Na primeira sessão depois da eleição, o Ibovespa avançou mais de 7%, ultrapassou os 206 mil pontos e estabeleceu novo recorde. No mesmo pregão, o dólar recuou mais de 4%, chegando à casa dos R$ 5. Markdown colado
Flávio encerrou o primeiro turno com 47,03% dos votos, enquanto Lula recebeu 45,16%. A diferença ficou em aproximadamente 2,2 milhões de votos. O desempenho do PL também se refletiu no Congresso, onde o partido ampliou sua representação. Markdown colado
A leitura predominante entre investidores é de que aumentou a possibilidade de um governo mais comprometido com o equilíbrio fiscal. Essa expectativa pode reduzir os juros projetados para os próximos anos e tornar os ativos brasileiros mais atraentes. Até agora, entretanto, a campanha de Flávio ainda não detalhou como pretende executar o ajuste esperado pelo mercado. Markdown colado
O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, compara o entusiasmo inicial dos investidores a um relacionamento cuja duração ainda é incerta.
“Quanto dura um amor de verão?”, questionou o economista ao analisar a reação do mercado. Para ele, se vencer a eleição, Flávio terá de apresentar propostas concretas, executáveis politicamente e que não comprometam a economia brasileira. Markdown colado
O ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman também demonstra cautela. Segundo ele, Flávio ainda não possui histórico consolidado na área fiscal e qualquer ajuste significativo exigirá elevado capital político.
Schwartsman observa que medidas capazes de alterar de maneira relevante a trajetória das despesas podem envolver assuntos sensíveis, como Previdência, salário mínimo e programas sociais. Até agora, na avaliação dele, não existem sinais suficientes para determinar até onde um eventual governo estaria disposto a avançar nessa agenda. Markdown colado
Por outro lado, o crescimento da bancada do PL no Congresso poderá facilitar a articulação de algumas propostas, embora não elimine a necessidade de negociação política.
Para os economistas consultados, o vencedor do segundo turno terá pouco tempo para mostrar como pretende enfrentar o problema fiscal.
Schwartsman considera que as primeiras definições precisam aparecer ainda durante a transição entre a eleição e a posse. Não seria necessário apresentar imediatamente todos os detalhes, mas o mercado esperaria uma indicação clara sobre a direção da política econômica. Markdown colado
O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega compartilha dessa avaliação. Segundo ele, as medidas destinadas a estabilizar as contas públicas precisam ser explicitadas rapidamente pelo próximo presidente.
Caso isso não aconteça, Nóbrega prevê um possível “anticlímax”, com deterioração das expectativas, valorização do dólar, aumento dos juros futuros e maior restrição ao crédito pelos bancos. Markdown colado
A preocupação dos economistas está relacionada principalmente à trajetória das contas públicas. Antes do primeiro turno, uma consulta realizada com mais de 20 economistas de diferentes correntes apontou o equilíbrio fiscal como um dos principais desafios do próximo governo. Markdown colado
Em agosto de 2026, a dívida bruta do setor público alcançou R$ 11,05 trilhões, correspondentes a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). O percentual é o maior desde abril de 2021. Markdown colado
Quando as despesas permanecem acima das receitas durante períodos prolongados, aumenta a necessidade de financiamento do governo. Uma percepção de maior risco fiscal tende a pressionar os juros exigidos pelos investidores e pode influenciar inflação, crédito, investimentos e crescimento econômico. Markdown colado
Parte do entusiasmo dos investidores, segundo os especialistas, decorre mais da expectativa sobre uma eventual mudança de política econômica do que de propostas já detalhadas por Flávio Bolsonaro.
Schwartsman avalia que o candidato recebeu uma espécie de “benefício da dúvida”. Na visão de parte do mercado, haveria maior possibilidade de ajuste fiscal em um governo do PL, enquanto existe desconfiança em relação à disposição de Lula para priorizar essa agenda. Trata-se, contudo, de uma percepção atribuída aos agentes e economistas consultados, e não de garantia sobre a política que qualquer dos candidatos adotará. Markdown colado
O governo Lula afirma ter realizado entre 2023 e 2026 um esforço fiscal de aproximadamente R$ 240 bilhões, equivalente a cerca de 2% do PIB, combinando aumento de arrecadação e contenção de despesas. Para um eventual novo mandato, a sinalização é de continuidade do ajuste de maneira gradual. Markdown colado
Já o plano de Flávio promete um “grande tesouraço”, com redução de despesas e enxugamento da máquina pública. A equipe econômica também estuda uma espécie de PEC da Transição com cortes bilionários. Os detalhes necessários para avaliar como essas metas seriam alcançadas, entretanto, ainda não foram apresentados. Markdown colado
O debate não se limita ao tamanho do corte de despesas. André Galhardo argumenta que o próximo governo precisará encontrar uma solução que estabilize as contas públicas sem comprometer investimentos, empregos e crescimento.
Na avaliação do economista, um programa fiscal precisa ser executável e produzir resultados, mas não pode funcionar como uma “camisa de força” sobre a atividade econômica. Ele defende uma trajetória gradual para melhorar as contas públicas sem provocar perda significativa de empregos. Markdown colado
A reação dos mercados depois do primeiro turno, portanto, representa uma aposta sobre os rumos da política econômica, e não uma garantia de desempenho futuro. A duração desse movimento dependerá das propostas apresentadas, da capacidade de aprovação no Congresso e, sobretudo, das primeiras decisões fiscais de quem vencer a eleição presidencial.
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