Política / Eleições 2026
Simone perde o Senado, mas 8 milhões de votos abrem novo território político em São Paulo
Terceiro lugar deixa ex-ministra sem mandato, mas votação amplia sua base eleitoral e oferece capital político para manter projeto nacional até 2030
04/10/2026
19:15
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A derrota de Simone Tebet (PSB) na disputa pelo Senado em São Paulo encerrou a eleição sem o mandato que ela buscava, mas produziu um resultado político que vai além da terceira colocação. Depois de deixar Mato Grosso do Sul, romper uma trajetória de décadas no MDB e transferir o domicílio eleitoral para o maior colégio eleitoral do País, a ex-ministra terminou a campanha com mais de 8 milhões de votos e uma base eleitoral que poderá ser usada para sustentar novos projetos nacionais.
Simone não conseguiu superar Guilherme Derrite (União Brasil) e André do Prado (PL), eleitos para as duas vagas paulistas no Senado. A aposta principal, portanto, fracassou: ela ficará sem mandato parlamentar a partir de 2027. Mas a votação alcançada em um Estado onde nunca havia disputado cargo local altera sua posição para os próximos anos.
O desempenho representa aproximadamente cinco vezes os 1,626 milhão de votos que ela recebeu em São Paulo na disputa presidencial de 2022. Também corresponde, em números absolutos, a várias vezes o tamanho de todo o eleitorado de Mato Grosso do Sul.
Mais do que uma comparação estatística, os números mostram que Simone conseguiu fazer uma transição eleitoral que estava longe de ser garantida: deixou uma base construída durante quase três décadas em Mato Grosso do Sul e saiu das urnas com milhões de votos em São Paulo.
A candidatura ao Senado representava uma das maiores apostas da carreira de Simone. Ela deixou o MDB, partido no qual construiu praticamente toda sua trajetória, filiou-se ao PSB e transferiu seu domicílio eleitoral para a capital paulista.
O movimento significou, na prática, trocar uma base conhecida por um território muito maior e eleitoralmente mais complexo.
Em Mato Grosso do Sul, Simone havia sido prefeita de Três Lagoas, vice-governadora e senadora. Em âmbito nacional, disputou a Presidência da República em 2022 e posteriormente integrou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
São Paulo, entretanto, exigia uma construção diferente. Durante a campanha, adversários exploraram justamente o fato de ela ter desenvolvido sua carreira política em outro Estado. Simone respondeu apresentando a experiência administrativa e nacional como argumento para representar os paulistas.
A votação obtida não foi suficiente para conquistar o Senado, mas mostrou capacidade de transferência e ampliação de sua base.
No primeiro balanço após a eleição, Simone voltou a definir o espaço político que pretende ocupar.
“Eu sou uma pessoa de centro”, afirmou.
A declaração ganha peso depois do resultado. Sem mandato, sua capacidade de permanecer competitiva dependerá menos de uma estrutura institucional própria e mais da preservação do eleitorado conquistado, das alianças construídas e de sua presença no debate nacional.
Simone também procurou delimitar sua relação política com Lula.
“Eu não penso igual ao presidente Lula”, declarou.
Em seguida, explicou os pontos que, na avaliação dela, sustentam a aproximação: “Aquilo que me aproxima do presidente Lula é infinitamente maior do que aquilo que me separa”.
A ex-ministra citou como convergências os chamados “conceitos civilizatórios”, a defesa da democracia e dos direitos humanos.
“Eu estive lá tendo coragem de estar ao lado da democracia e é isso que eu defendo”, afirmou, ao recordar o posicionamento adotado na eleição presidencial de 2022.
Simone também voltou a defender a soberania nacional. “As riquezas são nossas, nossos problemas são nossos”, declarou.
Sobre sua agenda social, definiu: “Eu sou, por humanista, pela pauta dos direitos humanos”, relacionando essa posição à erradicação da miséria e à redução da desigualdade social.
O Estado paulista não era totalmente desconhecido eleitoralmente para Simone.
Na disputa presidencial de 2022, São Paulo havia sido justamente o Estado em que ela conseguiu seu maior número absoluto de votos: 1,626 milhão, equivalentes a 6,34% dos votos válidos naquele pleito.
Quatro anos depois, a candidatura ao Senado transformou aquele desempenho em uma tentativa concreta de construir uma base permanente no Estado.
O salto para mais de 8 milhões de votos é o principal ativo que Simone leva desta eleição. Embora seja necessário considerar que eleições para presidente e para senador têm dinâmicas diferentes e, neste ano, cada eleitor paulista podia escolher dois candidatos ao Senado, o resultado dá à ex-ministra uma dimensão eleitoral que ela não possuía em São Paulo.
Isso não significa que os votos automaticamente permanecerão com ela numa eleição futura. Mas significa que Simone passa a ter um eleitorado paulista identificável, além de uma rede de alianças construída durante a campanha.
A estratégia eleitoral também ajuda a explicar o espaço que Simone procurou construir.
Recém-filiada ao PSB, ela participou da aliança liderada por Fernando Haddad em São Paulo e dividiu palanque com Lula, Geraldo Alckmin, Márcio França e Marina Silva.
Ao mesmo tempo, buscou não restringir sua candidatura ao eleitorado tradicional da esquerda. A campanha tentou estabelecer diálogo com setores empresariais, produtores rurais, prefeitos do interior e eleitores de centro.
Essa estratégia apareceu inclusive no material de campanha. Na reta final, foram produzidos panfletos sem nomes, números ou imagens de Lula, Haddad e Marina para distribuição em regiões onde lideranças de outros partidos apoiavam Simone, mas não queriam vincular seus candidatos municipais ou regionais à chapa majoritária.
Também houve aproximações com lideranças ligadas ao PSD, além de apoios provenientes de outras legendas.
A estratégia não garantiu uma das duas cadeiras, mas permitiu que Simone ultrapassasse Marina Silva, sua companheira de aliança e também integrante do governo federal.
A construção paulista ocorreu paralelamente a um afastamento eleitoral de Mato Grosso do Sul.
Simone deixou o MDB, transferiu seu título e passou a desenvolver sua candidatura em São Paulo. Seu marido, Eduardo Rocha (MDB), permaneceu em Mato Grosso do Sul e disputou uma vaga de deputado estadual, mas não foi eleito.
O resultado deixa a família sem mandato eletivo e consolida uma mudança importante na trajetória de Simone. Sua principal referência eleitoral deixa de estar necessariamente vinculada ao Estado onde construiu a carreira.
Isso não apaga sua história política sul-mato-grossense, mas modifica sua geografia eleitoral. Depois desta eleição, qualquer novo projeto de Simone terá de considerar os milhões de votos conquistados em São Paulo como parte central de sua estratégia.
Ao avaliar o cenário deste domingo, Simone classificou a disputa como diferente das anteriores.
“Uma eleição atípica, uma eleição diferente de todas, uma eleição nacionalizada”, afirmou.
Ela também definiu a campanha como “a eleição mais silenciosa das sete que eu já participei”.
Para Simone, a menor intensidade das disputas nas ruas pode refletir desgaste do eleitor com a polarização política iniciada nos últimos ciclos eleitorais.
Segundo ela, existe “uma fadiga, um cansaço do eleitor”. Na avaliação da ex-ministra, as pessoas “não querem mais brigar com a família, não querem mais brigar com o filho ou perder amigo por conta de eleição”.
Essa interpretação está diretamente ligada ao espaço político que Simone tenta ocupar: uma posição de centro capaz de dialogar com eleitores que não se identificam integralmente com nenhum dos polos da disputa nacional.
A terceira colocação impede que o resultado seja tratado como vitória eleitoral. Simone entrou na disputa para conquistar uma das duas cadeiras do Senado e não conseguiu.
O resultado, porém, deixa uma diferença importante entre perder uma eleição e sair dela politicamente esvaziada.
Simone terminou a campanha sem mandato, mas com mais de 8 milhões de votos em São Paulo, projeção nacional e relações políticas construídas no maior colégio eleitoral brasileiro. Esses elementos poderão servir de base para a manutenção de sua presença na política nacional.
“Eu tô bastante otimista”, afirmou após a votação.
O próximo passo ainda é incerto. Uma eventual participação em novo governo de Lula, caso o presidente seja reeleito no segundo turno, dependerá de decisões posteriores e não pode ser considerada consequência automática do resultado deste domingo.
Há também uma questão de calendário. Sem mandato a partir de 2027, Simone precisará encontrar uma estrutura política que lhe permita permanecer visível e preservar as conexões construídas durante a campanha.
É nesse ponto que a votação paulista ganha maior importância.
Até esta eleição, uma eventual candidatura de Simone em 2030 carregaria uma dificuldade evidente: depois de deixar Mato Grosso do Sul, seria necessário demonstrar onde estaria sua nova base eleitoral.
O resultado deste domingo oferece uma primeira resposta.
São Paulo não lhe entregou uma cadeira no Senado, mas lhe deu mais de 8 milhões de votos. Para uma política que mudou de partido, Estado e estrutura eleitoral em um único ciclo, o número representa um ativo relevante.
Transformá-lo em capital político permanente será outro desafio. Será necessário manter presença no Estado, fortalecer relações partidárias, preservar diálogo com o interior e evitar que o eleitorado conquistado se disperse nos próximos quatro anos.
A derrota, portanto, encerra uma etapa e abre outra. Simone Tebet deixa de ser uma liderança de Mato Grosso do Sul tentando espaço em São Paulo e passa a ser uma política nacional que comprovou capacidade de conquistar milhões de votos no maior colégio eleitoral do País.
Ela não conseguiu o Senado em 2026. Mas, ao sair das urnas com uma votação dessa dimensão, ganhou algo que poderá ser decisivo para seu futuro: um novo território político para disputar 2030.
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