Justiça / Crise no STF
Temer conversa com aliados de Mendonça em meio à crise com Moraes no Supremo
Ex-presidente almoçou com integrantes do TCE-SP e demonstrou preocupação com o conflito entre os ministros; Temer afirma que encontro foi apenas entre amigos
16/09/2026
19:30
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O ex-presidente Michel Temer (MDB), responsável pela indicação de Alexandre de Moraes ao Supremo Tribunal Federal (STF), reuniu-se nesta quarta-feira (16), em São Paulo, com integrantes do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) que mantêm relações políticas ou institucionais com o ministro André Mendonça. Segundo a Folha de S.Paulo, interlocutores afirmaram que houve preocupação com a escalada do conflito entre os dois ministros.
Oficialmente, entretanto, tanto Temer quanto o Tribunal trataram o encontro como uma agenda institucional, sem confirmar uma negociação formal para estabelecer uma trégua no Supremo.
“Foi apenas um almoço entre amigos. Nada mais”, afirmou Michel Temer à Folha. O TCE-SP divulgou registros da visita do ex-presidente e classificou a agenda como “visita institucional”.
De acordo com a apuração publicada nesta quarta-feira, Temer manifestou preocupação com a situação atual do Supremo durante as conversas e manteve diálogo com pessoas próximas a Mendonça para tentar evitar uma escalada das divergências. Não foi divulgado, porém, qualquer acordo entre os ministros ou compromisso concreto decorrente da reunião.
O encontro ocorreu um dia depois da sessão extraordinária do STF, marcada por fortes divergências entre Moraes e Mendonça durante a análise de questões relacionadas ao material produzido pela Polícia Federal a partir do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
A sessão terminou sem uma definição sobre a eventual abertura de investigação contra Moraes. O julgamento foi interrompido depois de um pedido de vista de Flávio Dino.
Entre os integrantes do TCE-SP está Maxwell Borges de Moura Vieira, indicado ao Tribunal pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Borges já divulgou atividades do Instituto Iter, entidade fundada por André Mendonça.
Outro integrante é Wagner de Campos Rosário, também indicado por Tarcísio. Rosário foi ministro da Controladoria-Geral da União durante os governos Temer e Jair Bolsonaro e integrou o governo federal no período em que Mendonça ocupou a Advocacia-Geral da União. O próprio TCE-SP confirma atualmente Maxwell Borges e Wagner Rosário entre os integrantes de seu colegiado.
Também faz parte do Tribunal o conselheiro Marco Aurélio Bertaiolli, ex-deputado federal e atual corregedor do TCE-SP.
O cenário envolvendo pessoas próximas a Mendonça ganhou um novo componente nesta semana com a operação da Polícia Federal contra o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP).
A investigação, autorizada por Flávio Dino, apura suspeitas de tráfico de influência, corrupção e lavagem de dinheiro, entre outros possíveis crimes. Segundo a PF, há indícios de que integrantes do grupo investigado teriam negociado acesso e influência sobre decisões em tribunais superiores. Cezinha nega irregularidades.
A própria Polícia Federal fez uma ressalva relevante: não foram identificados elementos indicando solicitação, aceitação ou recebimento de vantagem indevida pelos ministros citados nas mensagens. Os magistrados aparecem na investigação como possíveis destinatários da influência que teria sido anunciada pelos investigados, e não como suspeitos.
A investigação também incorporou o episódio envolvendo a advogada Valéria Rodrigues Linhares, que estava com R$ 510 mil em espécie no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, em 25 de agosto.
A defesa informou que o dinheiro era proveniente de serviços advocatícios. A PF, por outro lado, investiga se pagamentos relacionados ao suposto esquema eram realizados em dinheiro vivo.
Cezinha também foi responsável por intermediar um encontro entre André Mendonça e Daniel Vorcaro, realizado em março de 2025. Mensagens obtidas pela PF indicam a participação do deputado na organização da reunião. Mendonça já afirmou que recebeu o banqueiro para tratar de uma questão jurídica e que apenas ouviu o assunto apresentado.
A visita de Temer ao TCE-SP ocorre, portanto, em um momento de tensão incomum entre integrantes do Supremo. A conversa com pessoas próximas a Mendonça foi interpretada por interlocutores ouvidos pela Folha como uma tentativa de evitar que o conflito com Moraes ganhe novas proporções. (
Essa interpretação, contudo, deve ser separada da versão oficial: Temer classificou o encontro simplesmente como um almoço entre amigos, enquanto o TCE-SP informou tratar-se de uma visita institucional. Até o momento, não há anúncio público de uma mediação formal do ex-presidente entre Alexandre de Moraes e André Mendonça.
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