Cinema / Investigação
Diretor e produtora de ‘Dark Horse’ divergem sobre destino de gastos milionários do filme
Cyrus Nowrasteh diz que orçamento divulgado inclui marketing, enquanto Karina Gama afirma que cerca de US$ 13 milhões foram gastos sem distribuição e publicidade
14/09/2026
18:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
A produtora Karina Gama, proprietária da GoUp, e o diretor Cyrus Nowrasteh apresentaram versões diferentes sobre a composição dos gastos de “Dark Horse”, produção que entrou no centro de uma investigação da Polícia Federal (PF) após a identificação de repasses milionários atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro.
A divergência está em um ponto fundamental para dimensionar o custo do longa. Nowrasteh afirma que os valores divulgados sobre o orçamento já incluem despesas projetadas com marketing e publicidade. Karina, por outro lado, sustenta que aproximadamente US$ 13 milhões já foram utilizados exclusivamente nas etapas de produção e que ainda será necessário dinheiro adicional para divulgação e distribuição.
O caso ganhou repercussão depois que investigações da PF, tornadas públicas nos últimos dias, apontaram que Vorcaro teria repassado US$ 12,3 milhões, a pedido do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Segundo relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) citados na investigação, os recursos teriam sido transferidos em sete parcelas, entre janeiro e setembro de 2025.
A PF apura o destino dos valores e investiga se todo o dinheiro foi efetivamente aplicado na produção cinematográfica ou se parte dos recursos teve outra finalidade. Entre as linhas mencionadas na apuração está a possibilidade de recursos terem sido utilizados para custear a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
As hipóteses fazem parte de uma investigação em andamento e não representam, por si só, comprovação de desvio ou de responsabilidade criminal dos envolvidos.
A controvérsia sobre o orçamento aumentou depois de Cyrus Nowrasteh publicar uma manifestação na rede social X, na quinta-feira (19).
Ao comentar uma postagem que comparava os valores atribuídos a “Dark Horse” com os custos de produções de Hollywood, o diretor afirmou que os números utilizados nas comparações estavam inflados porque incluíam despesas que, nos Estados Unidos, normalmente são contabilizadas separadamente.
“Os números divulgados para o custo do filme são ridiculamente inflados. Eles incluem custos projetados de marketing para ‘Dark Horse’. Marketing e publicidade para um filme frequentemente excedem os custos de produção. Nos EUA, não combinamos os dois, como fazem no Brasil”, afirmou.
Diante da repercussão, Nowrasteh voltou ao assunto no dia seguinte e reforçou que a cifra relacionada ao longa já incorporaria despesas de divulgação.
“Muitos tentaram distorcer meu comentário. Apenas para esclarecer: a comparação de custos que a imprensa brasileira tem feito é falha. Nos EUA, os orçamentos de produção são reportados sem os custos de marketing. A cifra de ‘Dark Horse’, citada na cobertura jornalística, no entanto, já inclui marketing. Comparar uma cifra de produção mais marketing contra custos de produção sozinhos é simplesmente equivocado”, declarou.
A explicação de Karina Gama contraria diretamente a apresentada pelo diretor.
Segundo a produtora, aproximadamente US$ 13 milhões já foram gastos em “Dark Horse”, mas essa quantia não inclui os recursos destinados à distribuição, divulgação e marketing, despesas conhecidas no setor cinematográfico pela sigla P&A.
Karina afirma que o dinheiro utilizado até agora foi empregado nas fases de “desenvolvimento, soft pré, pré-produção, filmagem e pós-produção”.
De acordo com essa versão, o orçamento do filme ainda não está encerrado. Serão necessários novos recursos para colocar a produção no mercado, promover o longa e financiar sua distribuição.
A diferença entre as duas explicações é relevante porque Nowrasteh sustenta que os valores atribuídos ao projeto parecem elevados justamente por incorporarem marketing. Karina afirma o contrário: os aproximadamente US$ 13 milhões já desembolsados não contemplariam essas despesas.
Outro ponto analisado nas investigações é a estrutura financeira utilizada pela produção.
Embora “Dark Horse” tenha sido integralmente filmado no Brasil, a maior parcela das despesas teria ocorrido nos Estados Unidos.
A operação norte-americana da produtora é conduzida pela GoUp Entertainment LLC. Um dos responsáveis pela empresa é Mike Davis, sócio de Karina Gama.
Questionado sobre o acesso à documentação financeira da companhia nos Estados Unidos, Davis afirmou que não autoriza o envio direto dos registros às autoridades brasileiras.
“Conforme orientação de nossos advogados nos Estados Unidos, informo que, na minha condição de sócio majoritário da GOUP Entertainment LLC, não autorizo o encaminhamento, às autoridades brasileiras ou a quaisquer terceiros, de documentos societários, contábeis, fiscais, bancários ou contratuais da empresa custodiados nos Estados Unidos sem a estrita observância do devido processo legal norte-americano”, afirmou o produtor.
A posição não significa, por si só, que os documentos estejam fora do alcance de uma investigação brasileira. Eventual obtenção oficial do material nos Estados Unidos depende dos instrumentos jurídicos aplicáveis de cooperação internacional.
A divergência sobre o orçamento acrescenta uma nova questão à apuração da Polícia Federal: estabelecer quanto “Dark Horse” efetivamente custou, quais despesas foram pagas com os recursos recebidos e quem foram os beneficiários finais das operações.
A investigação também busca esclarecer se os US$ 12,3 milhões atribuídos a Vorcaro correspondem aos gastos declarados pela produção e se houve outras formas de financiamento ainda não identificadas.
A diferença entre as versões do diretor e da produtora não comprova irregularidade, mas cria uma inconsistência relevante para a reconstrução financeira do projeto. A definição dependerá da análise de contratos, extratos bancários, notas fiscais, registros contábeis e demais documentos da produção, inclusive aqueles mantidos nos Estados Unidos.
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