Política / Investigação
PF encontra na casa de Ciro Nogueira lista com nomes de deputados e possíveis valores
Documento estava próximo à churrasqueira e teria ordem para ser queimado; PF apura se anotações têm relação com políticos da Câmara
13/09/2026
07:30
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A Polícia Federal encontrou na residência do senador Ciro Nogueira (PP), em Brasília, uma lista manuscrita intitulada “Câmara”, contendo nomes que os investigadores associam a deputados federais acompanhados de números que, segundo a corporação, podem representar valores.
O papel foi localizado durante busca e apreensão realizada em 7 de maio, na quinta fase da Operação Compliance Zero, investigação que apura possíveis irregularidades relacionadas ao Banco Master e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
O documento estava na região da churrasqueira da residência. Conforme relato de uma funcionária aos investigadores, Ciro Nogueira teria entregado o papel e pedido que fosse queimado, sob a justificativa de que se tratava de um documento antigo e sem utilidade. A funcionária afirmou que não conseguiu cumprir a orientação porque não teve tempo.
O conteúdo passou a ser conhecido com a retirada do sigilo de procedimentos relacionados ao Caso Master na sexta-feira (11), determinada no âmbito das medidas adotadas pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin.
Entre as anotações aparecem referências como “Arthur” e “Hugo”, além de outros nomes acompanhados por números.
Segundo a interpretação registrada pela Polícia Federal, é provável que as referências correspondam ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), ao ex-presidente da Casa Arthur Lira (PP-AL) e aos deputados Elmar Nascimento (União Brasil-BA), Doutor Luizinho (PP-RJ), Adolfo Viana (PSDB-BA) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL).
Essa associação, contudo, é uma hipótese dos investigadores e não comprova, por si só, que as pessoas citadas sejam efetivamente os parlamentares mencionados pela PF ou que tenham recebido qualquer quantia.
No relatório sobre os objetos apreendidos, a própria Polícia Federal registra que o manuscrito “carece de esclarecimento”.
O documento também contém os nomes “Altineu”, “Diego” e “Netinho”, cada um acompanhado pelo número 5.
Na Câmara dos Deputados, o nome Altineu pode corresponder, segundo a apuração divulgada, ao deputado Altineu Côrtes (PL-RJ), ex-líder do partido.
A natureza dos números registrados no documento ainda não está esclarecida. A PF considera a possibilidade de que representem valores, mas essa interpretação permanece sob investigação.
Até a divulgação das informações, não havia explicação conclusiva sobre a finalidade da lista nem sobre quando ela foi produzida.
Um dos pontos que deverão ser esclarecidos é a circunstância em que o manuscrito foi parar próximo à churrasqueira.
Segundo a versão atribuída pela Polícia Federal à funcionária da residência, o próprio Ciro Nogueira teria entregue o papel e solicitado sua destruição pelo fogo.
Ela teria explicado aos agentes que o senador classificou o documento como antigo e sem serventia. O papel não chegou a ser queimado porque, segundo a funcionária, ela não teve tempo para fazê-lo antes da chegada da operação.
O relato integra a investigação e ainda deverá ser confrontado com outros elementos reunidos pela PF.
Procurada sobre o documento, a assessoria de Ciro Nogueira informou que não se manifestaria especificamente sobre o achado.
Quando a operação foi realizada, a defesa do senador afirmou que ele “não teve qualquer participação em atividades ilícitas”. Ciro também sustentou que a investigação representava uma tentativa de atingir sua honra.
A Polícia Federal apura se o presidente nacional do Progressistas teria recebido vantagens indevidas relacionadas a Vorcaro, entre elas supostos pagamentos periódicos e serviços de luxo, em troca de atuação favorável aos interesses do Banco Master no Congresso.
Essas suspeitas integram a linha investigativa da PF e não significam que Ciro Nogueira tenha sido considerado culpado ou condenado pelos fatos apurados.
A assessoria de Arthur Lira afirmou que o deputado desconhece as anotações encontradas e, por esse motivo, não poderia responder pelo conteúdo do documento.
Elmar Nascimento, por sua vez, rejeitou a interpretação de que os números registrados representem valores.
“Não tenho nenhuma relação política com Ciro Nogueira, só quem pode explicar isso é ele”, declarou.
O parlamentar também criticou a Polícia Federal e questionou as circunstâncias da apreensão.
“Desconfio da PF, quem me garante que foi encontrado lá [na casa de Ciro Nogueira]? Eles não têm fé pública de nada, não respeitam nem ministro do STF, quanto mais a gente”, afirmou.
Elmar acrescentou acreditar que o documento deveria ter sido descartado, argumentando que a PF não pediu que a questão fosse submetida ao plenário do Supremo por envolver o presidente de um Poder.
Até a publicação das informações originais, Hugo Motta, Doutor Luizinho, Adolfo Viana, Isnaldo Bulhões e Altineu Côrtes não haviam apresentado manifestação sobre o conteúdo atribuído ao manuscrito.
A lista integra o grande volume de documentos que passou a ficar disponível após a retirada de sigilo de processos relacionados ao Banco Master.
A abertura dos procedimentos expôs peças produzidas durante diferentes etapas da investigação, incluindo os materiais apreendidos na operação que chegou à residência de Ciro Nogueira.
A existência dos nomes e números no manuscrito, isoladamente, não demonstra pagamento de recursos nem participação dos parlamentares em irregularidades. O significado das anotações, sua origem, a época em que foram produzidas e a razão pela qual deveriam ser destruídas são pontos que ainda dependem de esclarecimento.
No próprio relatório de apreensão, a Polícia Federal evita apresentar uma conclusão definitiva. A investigação deverá estabelecer se o documento possui relação com os fatos apurados no Caso Master ou se as anotações têm outra explicação.
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