Campo Grande (MS), Domingo, 13 de Setembro de 2026

Artigo / Opinião

A incrível leveza do ser

13/09/2026

09:30

WILSON AQUINO*

WILSON AQUINO*

Assim como um pai chora com os erros e tropeços dos filhos, penso no quanto nosso Pai Celestial sofre ao ver nós, seus filhos, movidos pela ganância, pela vaidade, pelo poder e pela violência no dia a dia.

Lamentavelmente, os desentendimentos ocorrem até mesmo dentro de casa, destruindo a integridade da família e afastando do convívio saudável o marido, a mulher e os filhos. E o que deveria ser um porto seguro transforma-se em campo de batalha.

Os números confirmam essa triste realidade. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que o Brasil registrou 40.775 mortes violentas em 2025. É verdade que o número é o menor desde 2012, com queda de 8%, e que o país alcançou a meta de 16 mortes por 100 mil habitantes, ficando em 15,1. Mas 40 mil vidas ceifadas em um único ano não é motivo de celebração: é um chamado à reflexão.

E, enquanto os homicídios caem, outros crimes avançam. Em 2024, foram registrados 87.545 estupros no país, o maior número da história, e o mais grave: 77% das vítimas tinham menos de 14 anos e 66% dos casos ocorreram dentro de casa. O lar, que deveria ser o lugar mais seguro do mundo, é onde a violência mais se esconde.

O feminicídio é a face mais cruel dessa chaga. No Brasil, 1.571 mulheres foram assassinadas em 2025, um recorde desde a tipificação do crime, em 2015, com alta de 4% em relação ao ano anterior. Em Mato Grosso do Sul, a situação é ainda mais alarmante: o Estado registrou 39 feminicídios em 2025, crescimento de 10,5%, e ocupa a 3ª posição nacional em taxa de feminicídio, com 2,7 mortes por 100 mil mulheres.

São três vidas perdidas por mês, uma a cada dez dias. Mais da metade das mulheres assassinadas em Mato Grosso do Sul, 55,6%, foi vítima de feminicídio. E cada uma dessas mortes deixa órfãos, crianças marcadas para sempre, que crescem traumatizadas pelos atos de violência que presenciaram dentro de casa.

Nas ruas, jovens e adultos procuram tirar vantagem das pessoas que estão no seu ir e vir para o trabalho, para os estudos, para a vida, já que possuem o sagrado direito de irem e virem sem serem incomodados. Infelizmente, a legislação tem se mostrado fraca para fazer cumprir essa sagrada lei.

Mas isso ocorre porque os governantes são fracos, tanto na manutenção do aparato de segurança quanto na aplicação de leis severas que inibiriam a criminalidade.

A boa notícia é que essa realidade pode ser revertida, e o caminho começa dentro de cada um. O fortalecimento espiritual está acima de qualquer rigor da lei para impedir a expansão da criminalidade de qualquer natureza, não só no lar, mas em qualquer lugar. Ele age no indivíduo e é capaz de transformá-lo em pessoa de caráter, honesta e honrada em todos os seus compromissos.

Não se trata apenas de fé: a espiritualidade é instrumento de bem-estar e qualidade de vida. Quem cultiva a vida espiritual desenvolve resiliência para enfrentar as adversidades, serenidade para resolver conflitos sem violência e propósito para construir, em vez de destruir.

Um indivíduo fortalecido espiritualmente não precisa de grades para ser honesto, nem de câmeras para ser correto. Isso porque é esse o propósito da vida. Todo ser humano é um Filho Especial de Deus, e sua vinda a este plano na Terra é exatamente para trabalhar seu fortalecimento espiritual.

Para isso, precisa vencer todas as fraquezas humanas, colocadas propositadamente pelo Senhor dentro do indivíduo, para que, ao vencê-las, se fortaleça e brilhe. Torna-se capaz de enfrentar as adversidades da vida, inclusive as provocações, de cabeça erguida, confiante de que nunca, absolutamente nunca, está só.

Pois o Senhor está com ele em todos os momentos, no enfrentamento de todo e qualquer obstáculo.

Por isso, cada um precisa fazer melhor a sua parte. As autoridades, com efetivo nas ruas e leis mais rígidas. As famílias, ensinando o Caminho do Senhor desde cedo às crianças: ensinando-as a orar ao acordar e ao deitar, a abençoar os alimentos antes de ingeri-los, a participar das reuniões familiares, onde os pais conversam com os pequenos, até depois de crescidos, sobre os bons princípios morais e espirituais que devem nortear a vida de cada um, onde quer que estejam.

E contrariando o velho ditado de que religião e política não se misturam, seria um ato de sabedoria das autoridades constituídas incentivar o indivíduo e as famílias a se fortalecerem espiritualmente, para que todos tenham um desempenho melhor na sociedade. Caberiam até campanhas nesse sentido, pois as estatísticas e os estudos confirmam essa relação.

Não se trata, evidentemente, de impor um credo, o que feriria a laicidade do Estado e a liberdade de consciência de cada um, mas de reconhecer que a espiritualidade, em qualquer de suas expressões, é patrimônio humano capaz de formar caráter, dar sentido à vida e sustentar as pessoas diante das adversidades.

Logo, a religiosidade poderia sim ser um instrumento de governo, não para dirigir a fé de ninguém, mas para convidar cada cidadão a redescobrir esse caminho. Um povo espiritualmente fortalecido é um povo mais justo, mais pacífico e mais feliz, e essa é a mais bela política que um governante pode praticar: a política do bem.

Que os nossos governantes compreendam, portanto, que nenhuma lei substitui a transformação do coração. Que invistam em efetivo policial, em justiça e em educação, sim, mas que não se esqueçam do que há de mais simples e poderoso: uma família unida em oração, uma criança que aprende a agradecer antes do pão, um homem que sabe pedir perdão e recomeçar.

É aí, nesse silêncio fértil de cada alma, que nasce a verdadeira segurança pública, aquela que nenhum muro, cofre ou código penal consegue comprar.

E é caminhando assim, de mãos dadas com o Pai Celestial, certos de que nunca estamos sós, que encontramos a incrível leveza do ser.

Jornalista, Professor e Escritor Autor do livro “Reflexões e Memória”


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