Justiça / Supremo
Fachin assume caso Moraes e coloca futuro das investigações do Master e INSS em aberto
Presidente do STF retira Petição 16.662 de André Mendonça, paralisa procedimentos relacionados e terá de definir quem comandará as investigações
13/09/2026
07:15
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A crise interna no Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou um novo capítulo neste sábado (12). O presidente da Corte, Edson Fachin, determinou que a Petição 16.662, que reúne dados da Polícia Federal sobre possíveis contatos entre Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, deixe a relatoria de André Mendonça e passe para a Presidência do tribunal.
A decisão tem alcance maior. Fachin também determinou que as petições relacionadas às investigações do Banco Master e das fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), incluindo os processos vinculados a elas, sejam encaminhadas à Presidência do Supremo.
Os dois núcleos estavam sob responsabilidade de Mendonça. Com a determinação, os procedimentos ficam paralisados até nova decisão, enquanto Fachin define como serão distribuídas as relatorias.
Embora a medida abra a possibilidade de o próprio presidente assumir outros processos, a nova relatoria do Master e do INSS ainda não foi formalmente definida. Fachin terá de decidir se permanecerá à frente dos procedimentos ou se eles serão redistribuídos a outro integrante do tribunal.
A mudança imediata ocorre na Petição 16.662, processo que será analisado pelo plenário na sessão extraordinária marcada para terça-feira (15).
Fachin determinou à Secretaria Judiciária do STF que altere a relatoria do procedimento para a Presidência da Corte.
A justificativa apresentada é que a análise poderá envolver a aplicação de regra que impede um magistrado de atuar em determinadas circunstâncias. A questão tornou-se especialmente sensível depois das acusações trocadas entre Moraes e Mendonça sobre a condução das investigações.
Mendonça já havia encaminhado o procedimento à Presidência e interrompido sua tramitação após determinação de Fachin para que casos relacionados a possíveis investigações contra integrantes do próprio Supremo fossem suspensos.
Agora, a transferência da relatoria foi formalizada.
Apesar da mudança, permanece marcada para 15 de setembro a sessão extraordinária destinada à análise da Petição 16.662.
O plenário deverá discutir os elementos apresentados pela Polícia Federal e decidir sobre os próximos passos de uma possível investigação envolvendo Moraes.
Mendonça havia liberado o processo para julgamento em 6 de setembro, afirmando em uma de suas decisões que “o caminho inevitável dos presentes autos leva ao Plenário deste STF”.
Moraes reagiu à condução do caso e apresentou questionamentos sobre a atuação do colega. Entre as acusações formuladas estão supostas irregularidades na condução dos procedimentos. Essas alegações ainda dependem de análise institucional e não representam conclusão sobre eventual responsabilidade de Mendonça.
Parte da controvérsia surgiu após a divulgação de material obtido em aparelhos apreendidos com Daniel Vorcaro durante a Operação Compliance Zero.
O primeiro conjunto tornado público apontou 187 interações de Vorcaro com um contato registrado como “Alexandre de Moraes BRASÍLIA”. O próprio documento, entretanto, não permite concluir isoladamente que o número utilizado pertencia efetivamente ao ministro.
O material também contém referências a possíveis encontros envolvendo Vorcaro e Moraes.
A forma de obtenção, tratamento, divulgação e interpretação desses dados passou a alimentar uma disputa dentro do Supremo, inclusive sobre quais documentos deveriam estar disponíveis aos demais ministros antes da sessão extraordinária.
No fim da tarde de sábado, Fachin determinou que a Polícia Federal informe, no prazo de 24 horas, onde estão e em que condições se encontram os dados originais extraídos do celular de Vorcaro.
A determinação ocorreu após os ministros Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes solicitarem acesso à cópia integral da mídia extraída do aparelho ou, alternativamente, que o conteúdo fosse requisitado diretamente à PF.
Fachin quer informações sobre “a custódia do material e o estado em que se encontra”.
A providência acrescenta uma discussão sobre cadeia de custódia e acesso à prova digital à crise que já envolve relatoria, competência, publicidade dos procedimentos e eventual investigação de integrantes da própria Corte.
A discussão sobre os arquivos aumentou após um pedido de Cristiano Zanin pela íntegra dos dados extraídos do iPhone de Vorcaro. O ministro pretende utilizar o conteúdo na avaliação da validade do relatório da Polícia Federal que menciona possível ligação com Moraes.
Mendonça contestou a interpretação de que a íntegra dos arquivos estivesse disponível para consulta em seu gabinete.
Segundo o ministro, a PF entregou apenas uma cópia de segurança, armazenada em um HD criptografado e lacrado.
Mendonça afirmou que não abriu nem acessou o equipamento. Segundo sua manifestação, a cópia foi preservada como contraprova, destinada a eventual utilização somente se houvesse perda ou extravio do material original.
De acordo com essa versão, os dados originais continuam sob a cadeia de custódia da Polícia Federal. Fachin determinou agora que a própria corporação esclareça formalmente a situação.
A determinação para remeter à Presidência as petições do Banco Master e do INSS, juntamente com os processos relacionados, amplia os efeitos da crise para investigações que estavam sob comando de Mendonça.
Até que Fachin decida sobre as relatorias, os procedimentos ficam sem avanço.
A medida não significa, por enquanto, que o presidente do Supremo tenha assumido definitivamente todas essas investigações. O que está definido é a centralização temporária dos procedimentos na Presidência e a retirada imediata da Petição 16.662 da relatoria de Mendonça.
Uma eventual mudança definitiva nas demais relatorias dependerá de nova decisão.
Outro ponto de tensão envolve a publicidade dos documentos do Caso Master.
Nos últimos dias, Fachin determinou a disponibilização aos ministros de informações relacionadas às investigações e cobrou a retirada de sigilos. Mendonça posteriormente liberou documentos vinculados ao procedimento.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) também passou a defender que os integrantes do Supremo tenham conhecimento prévio da integralidade dos elementos necessários para decidir sobre o caso, ressalvadas diligências cuja publicidade possa prejudicar investigações em andamento ou futuras.
Com isso, a sessão de terça-feira será realizada em meio a uma discussão que vai além da existência ou não de elementos para investigar Moraes. O plenário também terá de lidar com os efeitos institucionais da disputa aberta entre integrantes da própria Corte.
1º de setembro: André Mendonça retira o sigilo de parte da investigação relacionada ao Banco Master na qual aparece o nome de Alexandre de Moraes. Relatório da Polícia Federal aponta supostas interações entre Moraes e Daniel Vorcaro.
3 de setembro: Moraes reage e encaminha ao presidente Edson Fachin, no contexto do inquérito das fake news, pedido relacionado à atuação de Mendonça, apontando suspeitas de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. As acusações ainda não foram julgadas.
4 de setembro: Fachin não acolhe a tramitação pretendida por Moraes e encaminha o procedimento à Presidência do STF. Também estabelece prazo de cinco dias úteis para manifestações de Mendonça e da Procuradoria-Geral da República.
8 de setembro: Mendonça determina o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. A decisão provoca reação da Advocacia-Geral da União (AGU), enquanto 11 diretores da PF colocam seus cargos à disposição em apoio aos delegados.
9 de setembro: o ministro Flávio Dino determina a volta de Andrei Rodrigues e Leandro Almada às funções e aponta “atropelos processuais” na decisão de Mendonça. Posteriormente, Fachin intervém no impasse, suspende os efeitos das decisões conflitantes e mantém os delegados na PF enquanto analisa a questão. O presidente do Supremo também centraliza procedimentos envolvendo integrantes da Corte e convoca sessão extraordinária para 15 de setembro.
10 de setembro: Fachin cobra a abertura das investigações relacionadas ao Banco Master e determina a disponibilização aos demais ministros de um HD com informações do caso. Mendonça atende à determinação e promove a retirada de sigilo de documentos.
11 de setembro: a Presidência do STF determina, após manifestação do Ministério Público Federal, a ampliação da retirada de sigilo das peças e procedimentos vinculados à investigação. Mendonça cumpre a determinação.
12 de setembro: Fachin transfere a Petição 16.662 para a Presidência do Supremo e determina a remessa das petições relacionadas ao Master e INSS, com os processos vinculados. Os procedimentos ficam paralisados até nova definição sobre as relatorias. No mesmo dia, Fachin determina que a PF esclareça, em 24 horas, a localização, custódia e situação dos dados originais extraídos do celular de Vorcaro.
A transferência da Petição 16.662 e a paralisação dos procedimentos do Master e do INSS colocam Edson Fachin no centro das decisões sobre a continuidade das investigações.
A primeira definição ocorrerá na terça-feira (15), quando os 11 ministros do STF deverão analisar o caso relacionado a Moraes e decidir os próximos passos do procedimento.
Outra discussão já está marcada para 23 de setembro, quando deverá ser analisada a Petição 16.704, que reúne questionamentos sobre a atuação de André Mendonça.
Até lá, Fachin terá de enfrentar uma questão com impacto direto sobre investigações de grande alcance: definir quem ficará responsável pelos procedimentos relacionados ao Banco Master e ao INSS, agora centralizados na Presidência do Supremo.
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