Justiça / Eleições
TSE não identifica conteúdos denunciados no canal de Janones, mas alerta para riscos eleitorais
Relatório sobre o “Exército do Lula” não localizou publicações apontadas pela campanha de Flávio Bolsonaro; mensagens apagadas limitaram a análise.
12/10/2026
13:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A área técnica do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não encontrou, nas publicações examinadas do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, as informações apontadas como falsas pela campanha do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). O resultado consta de relatório produzido nesta segunda-feira (12), que também identifica riscos relacionados à circulação em massa de mensagens durante o segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro.
A análise foi realizada pela Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação do TSE, a pedido do presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques, e abrangeu mensagens publicadas entre 2 e 11 de outubro de 2026. O documento é assinado por Frederico Alvim, responsável pelo setor técnico.
O canal, coordenado pelo deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG), reúne mais de 3 milhões de inscritos e é utilizado para mobilizar apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Segundo o relatório, não foram encontradas, no período analisado, publicações que reproduzissem as afirmações mencionadas na representação apresentada pela campanha de Flávio Bolsonaro.
"No período examinado (2 a 11 de outubro de 2026), não foram localizadas publicações que reproduzam essas afirmações", registra o documento.
A conclusão, entretanto, não significa que todo o histórico do canal tenha sido examinado. A equipe identificou limitações na análise, principalmente porque mensagens publicadas em setembro foram apagadas.
A controvérsia começou após a campanha de Flávio Bolsonaro recorrer ao TSE, alegando que o canal administrado por Janones estaria sendo utilizado para divulgar informações falsas e promover ataques contra o candidato.
Entre os conteúdos mencionados na denúncia estavam afirmações de que Flávio pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, teria envolvimento com milícias e adotaria medidas para reduzir aposentadorias e o Benefício de Prestação Continuada (BPC). A representação também citou uma suposta interferência no reajuste do Bolsa Família.
No domingo (11), o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, acolheu o pedido da campanha e determinou a suspensão do canal.
A medida foi revertida horas depois pelo ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, corregedor-geral da Justiça Eleitoral, que considerou insuficientes os elementos apresentados para justificar a interrupção integral das atividades naquele momento.
Com a nova decisão, o canal pôde voltar a funcionar, permanecendo a restrição à republicação de conteúdos cuja irregularidade já tivesse sido reconhecida pela Justiça Eleitoral.
Embora não tenha localizado as publicações denunciadas no intervalo examinado, a equipe técnica identificou aspectos que, em sua avaliação, exigem atenção da Justiça Eleitoral.
Um deles é a capacidade de distribuição de mensagens para milhões de inscritos, especialmente durante os dias que antecedem a votação.
O documento também menciona o uso frequente de linguagem polarizadora, com potencial para estimular confrontos no ambiente eleitoral.
Segundo os técnicos, há “nas mensagens examinadas, o emprego recorrente de uma linguagem polarizadora, que tende a estabelecer uma lógica de confronto potencialmente contrária à condição das eleições como um substitutivo do conflito”.
Outro ponto destacado é a exclusão de mensagens publicadas em setembro, que não puderam ser avaliadas. O prazo disponível também dificultou o exame integral de determinados materiais audiovisuais.
Essas limitações impedem que o relatório seja interpretado como uma avaliação definitiva de todas as publicações feitas pelo canal.
A equipe ainda identificou uma mensagem publicada em 8 de outubro, à 1h10, na qual os administradores afirmavam que não divulgariam “uma única fake news até o final da campanha”.
O deputado André Janones rejeitou as acusações de que estaria utilizando o canal para disseminar informações falsas. Segundo ele, o espaço tem como finalidade organizar e mobilizar apoiadores de Lula durante a campanha eleitoral.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também criticou a suspensão inicial e questionou a imparcialidade da condução do processo na Justiça Eleitoral.
Nesta segunda-feira (12), Lula voltou a cobrar neutralidade do comando do tribunal, afirmando que o presidente do TSE “não pode ter lado”.
As declarações ocorreram em meio à disputa judicial sobre os limites da comunicação política em plataformas digitais e a atuação da Justiça Eleitoral no combate à desinformação.
O relatório técnico deverá subsidiar novas decisões do Tribunal Superior Eleitoral sobre o funcionamento do canal e as medidas eventualmente necessárias para impedir a circulação de conteúdos considerados irregulares.
Há expectativa de que a controvérsia seja submetida ao plenário do TSE, mas ainda não existe data definida para o julgamento.
Até o momento, o levantamento não identificou, nas mensagens efetivamente examinadas, a reprodução dos conteúdos apontados na denúncia. Ao mesmo tempo, a equipe técnica recomendou atenção aos riscos associados ao alcance do canal e às limitações de fiscalização.
O caso permanece relevante para a definição dos limites entre mobilização política, liberdade de expressão e combate à desinformação durante a reta final da campanha presidencial.
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