Justiça / Banco Master
Delação aponta que empresário transportava malas de dinheiro a pedido de Vorcaro
Antônio Carlos Freixo Júnior relata operações para obter dinheiro vivo e remessas ao fundo americano que financiou o filme “Dark Horse”; acordo aguarda análise de Mendonça
04/09/2026
06:45
DA REDAÇÃO
A colaboração premiada do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, acrescentou uma nova frente às investigações sobre as operações financeiras atribuídas a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Segundo o relato apresentado às autoridades, Freixo afirma que atuava na obtenção de grandes quantidades de dinheiro em espécie a pedido do banqueiro, com valores que chegavam a ser transportados em malas.
O empresário também teria participado de operações internacionais envolvendo recursos enviados ao Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, estrutura utilizada para financiar “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
O fundo é administrado pelo advogado Paulo Calixto, apontado como ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Investigadores apuram a destinação dos valores e a possibilidade de parte dos recursos ter beneficiado Eduardo. Até o momento, porém, não há comprovação de que o dinheiro tenha sido destinado ao ex-deputado ou a outro integrante do grupo político de Bolsonaro.
A defesa de Antônio Carlos Freixo Júnior não se manifestou sobre as informações. Já a defesa de Daniel Vorcaro afirmou não ter tido acesso à proposta de colaboração e disse desconhecer o assunto.
Na colaboração, Freixo teria descrito uma relação antiga com Vorcaro, com participação conjunta em diferentes negócios.
Dono de diversas empresas, o empresário afirma que, em determinado momento dessa relação, passou a receber solicitações de Vorcaro para executar operações que classificou como “não ortodoxas”. Entre elas estariam remessas sem lastro e obtenção de dinheiro em espécie.
O mecanismo relatado às autoridades começava com a transferência de dinheiro ou bens de Vorcaro para empresas ligadas a Mineiro.
Freixo, então, procuraria outros operadores capazes de transformar esses ativos em dinheiro vivo. Segundo seu relato, esses intermediários cobravam aproximadamente 4% pela operação.
Depois de receber as notas, o empresário afirma que colocava o dinheiro em malas e fazia a entrega a Vorcaro.
Freixo declarou, no entanto, que não sabia qual era a destinação final dada pelo banqueiro aos valores recebidos em espécie.
A obtenção e o transporte de dinheiro vivo, por si sós, não demonstram necessariamente a prática de crime. A investigação busca esclarecer a origem, a finalidade e o eventual vínculo dessas movimentações com possíveis ilícitos atribuídos aos envolvidos.
A Entre Investimentos e Participações, empresa ligada a Mineiro e responsável por transferências destinadas ao Havengate, já havia aparecido nas investigações da Polícia Federal (PF).
Segundo as apurações, a empresa teria funcionado como uma espécie de braço operacional para movimentações financeiras determinadas por Vorcaro.
A colaboração de Freixo pode permitir aos investigadores reconstruir quando o ex-banqueiro teria solicitado dinheiro em espécie, quais valores estavam envolvidos, quem participou das operações e quais transações poderiam ter relação com os fatos investigados.
As declarações prestadas pelo colaborador ainda precisam ser confrontadas com documentos, movimentações financeiras e outras provas independentes.
Outro eixo considerado relevante envolve os recursos enviados aos Estados Unidos.
A Entre Investimentos realizou transferências ao Havengate Development Fund, administrado por Paulo Calixto e relacionado ao financiamento de “Dark Horse”.
A produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro passou a ser analisada pelas autoridades diante da origem dos recursos utilizados em seu financiamento e das conexões entre os responsáveis pelas operações.
Freixo, segundo pessoas que conhecem o conteúdo da colaboração, não afirma saber se os valores enviados aos Estados Unidos foram posteriormente utilizados para beneficiar Eduardo Bolsonaro ou outro aliado do ex-presidente.
Essa destinação permanece sob investigação.
A colaboração de Antônio Carlos Freixo Júnior foi celebrada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) em agosto.
Para produzir os efeitos jurídicos previstos, o acordo ainda depende da análise no Supremo Tribunal Federal (STF). O material foi encaminhado ao ministro André Mendonça, responsável pela relatoria do caso, que deverá decidir sobre sua homologação.
A delação de Mineiro é a segunda colaboração fechada pela PGR no âmbito das investigações relacionadas ao Banco Master.
A primeira envolve João Carlos Mansur, fundador e ex-controlador da gestora de recursos Reag. Esse acordo também foi encaminhado ao gabinete de Mendonça.
Com as duas colaborações, investigadores procuram aprofundar o rastreamento das operações financeiras relacionadas ao Banco Master e verificar, por meio de provas independentes, quais declarações dos colaboradores podem ser confirmadas e eventualmente utilizadas nas investigações.
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