Justiça / Supremo
Mendonça deixa sociedade do Instituto Iter após questionamentos sobre contratos públicos
Ministro e esposa vão ceder todas as cotas sem receber contrapartida; instituição será transformada em entidade sem fins lucrativos e magistrado seguirá apenas como professor
03/09/2026
09:15
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu deixar o quadro societário do Instituto Iter, instituição de ensino fundada por ele em 2024 e que passou a enfrentar questionamentos relacionados a contratos firmados com órgãos públicos. A saída também envolve a esposa do magistrado, Janei Mendonça, e ocorrerá sem pagamento pelas participações.
A decisão foi tomada em 2 de setembro de 2026, segundo nota divulgada pela assessoria do ministro. Mendonça teria comunicado ao presidente do Iter, Victor Godoy, que deveriam ser adotadas as providências necessárias para sua retirada e a transformação da instituição em uma entidade sem fins lucrativos.
O ministro afirmou a interlocutores que a mudança tem como objetivo “evitar ruídos”. Depois da alteração societária, ele pretende manter somente atividades acadêmicas no instituto, na condição de professor.
Mendonça vai ceder a totalidade das cotas pertencentes a ele e à esposa aos demais integrantes da sociedade, sem contrapartida financeira.
De acordo com a assessoria, eventuais valores correspondentes às participações deverão permanecer integralmente destinados a finalidades sociais e educacionais.
A decisão ocorre em meio à ampliação dos questionamentos públicos sobre a atuação do Iter e seus contratos com administrações públicas.
O instituto oferece cursos jurídicos e programas de aperfeiçoamento profissional, inclusive conteúdos ministrados pelo próprio ministro.
O debate sobre a instituição ganhou força após a divulgação de informações de que o Iter havia alcançado R$ 4,8 milhões em contratos públicos em 2025, aproximadamente um ano depois de iniciar suas atividades.
Nesta quinta-feira (3), a revista Fórum publicou levantamento segundo o qual o volume de contratos teria ultrapassado R$ 10,8 milhões.
Mendonça contesta esses números, segundo interlocutores citados na reportagem. O magistrado também sustenta que nunca recebeu lucros provenientes do instituto.
Conforme a versão apresentada por ele, a instituição registrou prejuízo no primeiro ano de funcionamento e teria encerrado o ano seguinte com resultado positivo próximo de R$ 200 mil.
A assessoria do Instituto Iter afirma que não houve distribuição de lucros aos sócios.
Entre os contratantes mencionados estão o Governo de São Paulo, administrado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), e a Prefeitura de São Paulo, comandada pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB).
A existência de contratos públicos, inclusive contratações sem licitação, passou a ser utilizada por críticos do ministro para levantar questionamentos sobre possível conflito de interesses ou eventual favorecimento.
As informações apresentadas, entretanto, não demonstram por si mesmas a existência de irregularidade, direcionamento de contratos ou interferência de Mendonça nas contratações.
A decisão de abandonar formalmente a sociedade ocorre justamente enquanto esses questionamentos ganham maior repercussão.
Antes de decidir pela saída, Mendonça havia anunciado publicamente que eventuais resultados financeiros correspondentes à participação de sua família no Iter seriam destinados a finalidades religiosas, sociais e educacionais.
Em vídeo divulgado anteriormente nas redes sociais, o ministro afirmou que 10% de eventual lucro seriam destinados ao dízimo e os 90% restantes a projetos sociais e de educação.
“Eu, a minha esposa, sob as bênçãos dos meus filhos, decidimos que a nossa parte do Instituto Iter será para a consagração de um altar a Deus. Tudo o que vier, possivelmente, a dar de lucro e resultado, eu vou separar 10% para o dízimo e os 90% restantes serão investidos em obras sociais e educação”, declarou Mendonça.
Com a nova decisão, o ministro não permanecerá como sócio e, segundo sua assessoria, não receberá compensação financeira pela transferência das cotas.
Outro episódio que colocou o Iter em evidência ocorreu após o Ministério da Educação (MEC) autorizar a instituição a oferecer cursos de pós-graduação lato sensu, modalidade de especialização.
A autorização chamou a atenção de integrantes do setor educacional pela rapidez da tramitação diante da existência de outros pedidos semelhantes aguardando análise, conforme a reportagem original.
A instituição, por sua vez, mantém atuação voltada ao ensino e aperfeiçoamento profissional na área jurídica.
Com a transformação anunciada, o Iter deverá deixar o modelo empresarial atual e funcionar como entidade sem fins lucrativos.
A retirada da sociedade não representará o rompimento completo do ministro com o instituto.
Segundo a nota oficial, Mendonça continuará prestando exclusivamente serviços acadêmicos, na condição de professor.
A mudança separa formalmente a participação societária do magistrado das atividades educacionais que ele continuará exercendo.
A assessoria afirma ainda que Mendonça jamais recebeu lucro da instituição e que a transferência das cotas seguirá a destinação social e educacional anteriormente anunciada.
“O ministro André Mendonça decidiu deixar a sociedade do Instituto Iter, cedendo a totalidade de suas cotas e de sua esposa, sem qualquer contrapartida financeira.
As cotas, e eventuais valores a elas correspondentes, permanecerão integralmente destinados a fins sociais e educacionais, conforme o ministro já havia decidido e anunciado no início deste ano.
Criado em 2024, o Instituto Iter será transformado em entidade sem fins lucrativos, reforçando sua vocação exclusivamente educacional e social. O ministro jamais auferiu lucro do instituto.
A decisão foi tomada em 2 de setembro de 2026, quando o ministro, em conversa com o presidente do Instituto, Victor Godoy, orientou que se tomassem as providências necessárias nos termos aqui descritos.
Nessas condições, o ministro permanecerá prestando serviços exclusivamente acadêmicos, na qualidade de professor.”
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