Justiça / Investigação
Investigadores admitem nova negociação com Vorcaro, mas exigem delação completa e rastreamento de bens
Ex-banqueiro poderá ter nova oportunidade de colaboração no caso Banco Master, desde que apresente informações inéditas e indique recursos mantidos no exterior
20/08/2026
13:30
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
Autoridades envolvidas nas investigações sobre supostas fraudes no Banco Master admitem reabrir as negociações para uma eventual colaboração premiada de Daniel Vorcaro, mas condicionam qualquer avanço a uma mudança de postura do ex-banqueiro. Entre as principais exigências estão um relato completo dos fatos, informações ainda desconhecidas e a identificação de bens e recursos mantidos no exterior.
Segundo informações atribuídas a integrantes da investigação, as duas tentativas anteriores de acordo não avançaram porque as autoridades consideraram insuficiente o material apresentado. A avaliação é de que uma eventual terceira rodada precisará demonstrar efetiva capacidade de contribuir para a identificação de outros envolvidos, obtenção de provas e, principalmente, recuperação dos valores supostamente desviados.
Vorcaro é apontado nas investigações como possível líder de uma organização criminosa ligada às irregularidades investigadas no banco. As suspeitas ainda estão submetidas à apuração e não representam condenação definitiva.
Um dos principais obstáculos apontados nas negociações anteriores teria sido a apresentação de fatos que já estavam no conhecimento dos investigadores.
Integrantes das equipes responsáveis pelo caso avaliam que uma colaboração premiada somente terá utilidade se Vorcaro fornecer elementos capazes de ampliar as provas já existentes, revelar a participação de outras pessoas e permitir o rastreamento de recursos.
A legislação brasileira prevê que acordos de colaboração podem ser utilizados, entre outras finalidades, para identificar coautores, revelar estruturas criminosas, localizar provas e recuperar ativos relacionados aos delitos investigados.
A decisão de celebrar eventual acordo dependerá, portanto, da relevância e da efetividade das informações apresentadas.
Entre os episódios que teriam provocado desconfiança nas negociações anteriores está a relação entre Vorcaro e o senador Ciro Nogueira (PP-PI).
Em mensagens com a ex-namorada Martha Graeff, o ex-banqueiro teria descrito o parlamentar como um “grande amigo de vida”. Os investigadores, porém, apuram se a relação entre os dois também envolveu interesses relacionados ao Banco Master.
Segundo elementos mencionados na investigação, um auxiliar de Vorcaro teria elaborado o texto de uma proposta legislativa posteriormente apresentada por Ciro Nogueira.
A chamada “emenda Master” previa ampliar a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) dos atuais R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.
A alteração poderia beneficiar instituições que captavam recursos por meio de CDBs (Certificados de Depósito Bancário), uma vez que elevaria o montante protegido pelo fundo.
Os fatos relacionados ao episódio permanecem sob investigação, e a eventual participação ou responsabilidade de cada pessoa mencionada depende da conclusão das apurações.
A Polícia Federal também teria identificado uma conversa na qual Vorcaro comentou o andamento da proposta legislativa.
Segundo o material atribuído à investigação, o ex-banqueiro teria afirmado pelo WhatsApp que o ato legislativo “saiu exatamente” como havia sido encaminhado.
Para os investigadores, o episódio precisa ser esclarecido de maneira detalhada em uma eventual colaboração.
Uma das exigências seria justamente evitar relatos seletivos ou versões consideradas incompatíveis com documentos, mensagens e outros elementos que as autoridades já possuem.
A possibilidade de retomada das negociações ganhou força depois de uma nova alteração na equipe jurídica de Daniel Vorcaro.
O advogado Daniel Bialski passou a atuar no caso no último mês, juntamente com Sérgio Leonardo, que acompanha o ex-banqueiro desde o início da Operação Compliance Zero.
Bialski declarou publicamente que seu cliente “quer falar e quer colaborar”, caso exista oportunidade para isso.
Apesar da sinalização, a defesa ainda não teria apresentado formalmente uma terceira proposta de colaboração à Polícia Federal ou à Procuradoria-Geral da República (PGR).
A equipe jurídica também solicitou audiência com o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso.
O gabinete do ministro, entretanto, indica que uma eventual reunião não deverá tratar da negociação de colaboração premiada.
O entendimento é de que cabe ao relator receber advogados e analisar questões processuais, mas não negociar diretamente as condições de um acordo dessa natureza.
Entre outros assuntos que poderiam ser apresentados pela defesa estão as condições da prisão e uma eventual ampliação do período destinado às visitas dos advogados.
Daniel Vorcaro permanece preso no Distrito Federal desde junho, depois que a Polícia Federal e a PGR rejeitaram sua segunda tentativa de colaboração.
Atualmente, ele está custodiado na unidade conhecida como Papudinha.
Anteriormente, permanecia na Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal, onde, segundo a defesa, possuía maior facilidade de contato com os advogados.
A localização de recursos fora do Brasil aparece como um dos pontos de maior interesse para uma eventual retomada das conversas.
Investigadores afirmam possuir indícios da existência de dinheiro remetido ao exterior, mas ainda buscam determinar valores, destinos e estruturas utilizadas para manter esses ativos.
Nesse cenário, uma colaboração poderia acelerar o rastreamento e eventual recuperação dos recursos.
Sem informações fornecidas pelo próprio investigado, a localização de ativos internacionais pode depender de rastreamento financeiro, cooperação jurídica entre países e outras medidas que normalmente tornam o processo mais demorado.
As autoridades também consideram o risco de que determinados ativos se tornem mais difíceis de recuperar enquanto avançam as etapas judiciais.
Apesar da abertura para uma nova negociação, integrantes das equipes responsáveis pelo caso sustentam que a continuidade da investigação não depende da colaboração de Vorcaro.
A avaliação é de que já existe quantidade significativa de documentos, mensagens, dados financeiros e outros elementos obtidos de maneira independente.
Segundo os investigadores citados na apuração, o trabalho ainda estaria distante de ser concluído e novas provas poderão ser reunidas por meio das diligências em andamento.
Uma eventual delação teria, portanto, caráter complementar. Para que seja aceita, Vorcaro precisaria demonstrar que possui informações relevantes que as autoridades ainda não conseguiram obter por outros meios, além de contribuir para localizar provas, identificar possíveis envolvidos e recuperar recursos relacionados às irregularidades investigadas.
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