Política / Democracia
Ex-comandante da FAB relata risco de golpe e diz que temeu ruptura entre tropas
Carlos Baptista Júnior afirma que país esteve próximo de uma ruptura institucional após as eleições de 2022 e relata pressões sobre comandantes militares
18/08/2026
21:15
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior, afirmou que o Brasil enfrentou um risco concreto de ruptura institucional durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, especialmente no período que cercou as eleições de 2022 e a transição para o governo seguinte.
Os relatos estão reunidos no livro “Eu Disse Não! – Uma Trincheira Antigolpista” e também foram detalhados pelo militar da reserva em entrevistas recentes. Baptista Júnior descreve reuniões da cúpula das Forças Armadas, pressões políticas e o temor de que setores militares adotassem iniciativas isoladas capazes de provocar uma divisão interna nas tropas.
Na avaliação do ex-comandante, o risco naquele momento não estava limitado a uma disputa política. Uma eventual adesão de unidades militares a uma iniciativa de ruptura poderia criar uma crise dentro das próprias Forças Armadas.
Ao reconstruir os acontecimentos, Baptista Júnior afirma que havia intensa pressão sobre os comandantes depois da derrota de Bolsonaro nas urnas. Segundo seu relato, a preocupação também envolvia a possibilidade de iniciativas individuais de militares contrárias à posição legalista adotada pelo então comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes.
O brigadeiro sustenta que sua posição foi de cumprimento da Constituição e rejeição a qualquer alternativa fora das regras democráticas.
“Eu não concordo com os excessos de poder, eu não concordo com muitas coisas que há de errado no país em todos os governos. Mas o golpe não é a solução desses problemas”, afirmou Baptista Júnior.
Para o ex-comandante, recusar uma ruptura institucional não deveria ser tratado como comportamento excepcional de um militar.
“O que eu fiz foi cumprir a lei, e não quero ser herói por causa disso. Ninguém deveria ser herói por cumprir a lei ao não apoiar o golpe”, declarou.
Baptista Júnior também revelou que integrantes da cúpula militar procuraram representantes de outras instituições antes mesmo do segundo turno das eleições.
Segundo o ex-comandante, em agosto de 2022 foi realizado um encontro reservado envolvendo chefes militares, o então procurador-geral da República, Augusto Aras, e o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O objetivo, conforme seu relato, era alertar sobre o aumento das tensões institucionais e buscar uma redução dos conflitos entre os Poderes. Baptista Júnior descreveu aquele período como marcado por um intenso “fogo cruzado institucional”.
A situação teria se agravado após a derrota eleitoral de Bolsonaro.
Baptista Júnior afirma que integrantes das Forças Armadas foram pressionados a analisar medidas que poderiam interferir na posse do presidente eleito. Ele sustenta ter deixado claro que a Aeronáutica não apoiaria uma iniciativa contrária à ordem constitucional.
O ex-comandante também relatou reuniões envolvendo Bolsonaro e os comandantes militares naquele período. Parte desses episódios já havia sido abordada por Baptista Júnior em depoimentos prestados posteriormente no âmbito das investigações sobre a tentativa de ruptura institucional.
Apesar da gravidade que atribui aos acontecimentos, Baptista Júnior rejeita a ideia de que sua atuação deva ser apresentada como heroica.
O brigadeiro argumenta que respeitar o resultado eleitoral e permanecer dentro da legalidade era simplesmente uma obrigação inerente ao comando militar.
Ele também faz críticas mais amplas à politização das Forças Armadas e defende maior separação entre a atividade militar e as disputas partidárias.
Os novos relatos acrescentam a perspectiva de um integrante que ocupava um dos postos mais altos da estrutura militar durante a crise política. Ao descrever o temor de uma divisão entre tropas e as pressões sofridas pelos comandantes, Baptista Júnior reforça que, na avaliação dele, a possibilidade de ruptura institucional naquele período foi concreta e exigiu uma posição explícita dos chefes militares em defesa da legalidade.
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