Política / Democracia
Ex-comandante da FAB diz que temeu golpe e ruptura entre tropas após eleição de 2022
Carlos Baptista Júnior relata pressão sobre chefes militares e afirma que resistência na FAB e no Exército foi decisiva contra uma ruptura institucional
18/08/2026
08:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB) Carlos de Almeida Baptista Júnior afirmou que temeu uma ruptura entre tropas durante o período de tensão institucional que sucedeu a eleição presidencial de 2022. Segundo o militar, as pressões exercidas sobre integrantes das Forças Armadas foram intensas e havia incerteza sobre como diferentes setores reagiriam a uma eventual tentativa de impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva.
O relato integra o livro “Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista”, lançado pelo ex-comandante, no qual ele apresenta sua versão sobre reuniões e articulações ocorridas nos últimos meses do governo do então presidente Jair Bolsonaro.
Baptista Júnior sustenta que o risco de uma ruptura institucional não era, naquele momento, uma possibilidade abstrata. Segundo ele, havia preocupação com a posição de diferentes comandos e com a possibilidade de setores militares adotarem iniciativas próprias.
“As Forças Armadas são muito grandes. Eu não sabia qual era a posição do almirantado. Eu sabia a posição do almirante Garnier, a posição do Alto Comando da Aeronáutica, mas as pressões foram muito grandes em cima de todos os comandantes militares. Eu temia por uma ruptura entre tropas”, afirmou.
De acordo com a versão apresentada por Baptista Júnior, Bolsonaro participou de reuniões com os comandantes das Forças Armadas nas quais foram discutidas alternativas relacionadas ao resultado das eleições e à continuidade do então presidente no poder.
O ex-comandante afirma que se posicionou contra qualquer medida que ultrapassasse os limites estabelecidos pela Constituição Federal.
Segundo seu relato, posição semelhante foi adotada pelo então comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes.
Baptista Júnior sustenta que a resistência dos dois comandantes teve papel importante para impedir o avanço de iniciativas de ruptura dentro das Forças Armadas.
As declarações reproduzidas no livro representam o relato do ex-comandante da FAB sobre aqueles acontecimentos.
Baptista Júnior descreve um ambiente de crescente pressão após a derrota eleitoral de Bolsonaro.
Enquanto a transição de governo avançava, apoiadores do então presidente passaram a ocupar áreas próximas a instalações militares em várias cidades do país. Parte dos manifestantes defendia uma intervenção das Forças Armadas contra o resultado eleitoral.
Nesse período, segundo o ex-comandante, havia preocupação não apenas com decisões tomadas pela cúpula militar, mas também com possíveis iniciativas isoladas dentro das tropas.
Uma movimentação sem coordenação entre as três Forças, na avaliação apresentada por Baptista Júnior, poderia desencadear uma crise ainda mais grave.
Foi nesse contexto que surgiu o temor de uma “ruptura entre tropas”, com diferentes setores militares assumindo posições conflitantes diante da crise política.
Ao descrever as posições existentes dentro das Forças Armadas, Baptista Júnior menciona o então comandante da Marinha, almirante Almir Garnier Santos.
Segundo a versão apresentada pelo ex-chefe da Aeronáutica, ele conhecia a posição de Garnier e também sabia como o Alto Comando da Aeronáutica encarava as discussões daquele período.
O ponto de maior incerteza, conforme seu relato, estava na possibilidade de divergências internas ganharem proporções capazes de provocar uma quebra na cadeia de comando.
Baptista Júnior afirma que a pressão alcançava os comandantes militares diretamente e que as decisões tomadas naquele período poderiam determinar a resposta das Forças Armadas à crise.
Outro episódio abordado pelo militar envolve os acampamentos montados por apoiadores de Bolsonaro diante de quartéis após o segundo turno da eleição.
Baptista Júnior afirma que era contrário, naquele momento, a uma retirada imediata e forçada dos manifestantes.
A posição, segundo ele, não significava concordância com os pedidos de intervenção militar. Sua preocupação estava relacionada ao risco de uma operação provocar confrontos violentos e ampliar a instabilidade.
Na avaliação apresentada pelo ex-comandante, uma ação dessa natureza exigia cautela diante do ambiente de elevada tensão política e social existente naquele momento.
As afirmações apresentadas no livro ampliam relatos que Baptista Júnior já havia feito anteriormente em depoimentos sobre os acontecimentos posteriores às eleições de 2022.
O ex-comandante afirmou ter participado de encontros nos quais foram discutidas medidas relacionadas à permanência de Bolsonaro no poder e à posse do candidato eleito.
Agora, ao reconstruir os bastidores daquele período, Baptista Júnior sustenta que a possibilidade de ruptura chegou a ser concreta e que o comportamento dos comandantes militares teve peso no desfecho da crise.
Seu relato coloca novamente no centro da discussão as reuniões realizadas entre o então presidente e integrantes da cúpula das Forças Armadas e as divergências internas sobre como os militares deveriam agir depois do resultado das urnas.
Ao afirmar que temeu até mesmo uma ruptura entre tropas, o ex-comandante da FAB descreve o fim de 2022 como um dos momentos de maior tensão institucional de sua passagem pelo comando da Aeronáutica.
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