Mundo / Imigração
Brasileiros reavaliam Portugal e Espanha ganha espaço como destino na Europa
Custo de vida, crise habitacional, salários e dificuldades de integração ajudam a explicar por que parte dos brasileiros em Portugal começa a considerar a Espanha
15/08/2026
08:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
Durante anos, Portugal consolidou-se como uma das principais portas de entrada dos brasileiros na Europa. A língua, os vínculos históricos e culturais e a relativa facilidade de adaptação ajudaram a impulsionar uma comunidade que cresceu rapidamente. Agora, porém, parte desses imigrantes começa a considerar a Espanha como alternativa para trabalhar, morar e construir uma vida no continente.
O movimento não representa uma saída generalizada de brasileiros de Portugal. Ele revela, contudo, uma mudança na maneira como os imigrantes avaliam fatores como moradia, renda, custo de vida, burocracia, oportunidades profissionais e integração social antes de decidir onde permanecer.
Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) apontam que 574.195 cidadãos de nacionalidade brasileira residiam em Portugal em 2025, correspondendo a 35,9% da população estrangeira do país. O contingente mais do que dobrou desde 2021, demonstrando a dimensão alcançada pela imigração brasileira.
Os registros oficiais, entretanto, não sustentam a afirmação de que mais de 1 milhão de brasileiros residam atualmente em território português. A presença efetiva pode ser superior aos números administrativos devido a situações como dupla nacionalidade, processos migratórios pendentes e pessoas ainda sem regularização, mas não existe dado oficial que permita confirmar uma comunidade acima dessa marca.
Um dos principais pontos de pressão está na habitação. Dados do Eurostat indicam que os preços dos imóveis em Portugal aumentaram aproximadamente 180% entre 2015 e 2025, colocando o país entre aqueles que registraram as maiores valorizações imobiliárias da União Europeia no período.
Para brasileiros que chegaram ao país atraídos também pelo custo relativamente mais acessível, a mudança alterou significativamente o planejamento financeiro.

O neurocientista luso-brasileiro Dr. Fabiano de Abreu Agrela, representante lusófono, assessor da Câmara Portuguesa, ligado ao projeto Terras de Cabral e filho de portugueses nascido no Brasil, avalia que o problema deve ser observado principalmente pela relação entre renda e despesas.
“Portugal deixou de ser aquele país relativamente barato que muitos brasileiros encontraram quando chegaram. O problema não é apenas o preço isolado de um produto; é a relação entre rendimento, habitação e custo cotidiano.”
Segundo ele, quando essa relação deixa de ser economicamente sustentável, aumenta a tendência de o imigrante procurar alternativas em outros países europeus.
Nesse cenário, a Espanha ganha relevância. O país possui população superior a 49,5 milhões de habitantes em 2025, com crescimento demográfico impulsionado principalmente pela imigração, além de uma economia e um mercado consumidor de escala maior.
A presença brasileira em território espanhol também vem aumentando, enquanto empresas especializadas em imigração e relatos publicados em 2026 apontam a movimentação de brasileiros que inicialmente escolheram Portugal e posteriormente passaram a avaliar cidades espanholas.
Entre os fatores considerados estão oportunidades profissionais, custo da moradia em determinadas regiões, acesso a serviços e possibilidades de regularização.
“O brasileiro que chega hoje compara Portugal não apenas com o Brasil, mas com toda a Europa”, afirma Fabiano de Abreu Agrela.
Na avaliação do neurocientista, quando entram nessa comparação salários, habitação, serviços, oportunidades profissionais e ambiente social, a Espanha passa a disputar espaço na decisão do imigrante.
A questão econômica não explica sozinha essa movimentação. A sensação de pertencimento e a maneira como os estrangeiros são recebidos também passaram a fazer parte dessa avaliação.
Apesar da proximidade histórica entre brasileiros e portugueses, episódios de xenofobia e discriminação permanecem como preocupação. Relatórios europeus vêm chamando atenção para discursos hostis direcionados a imigrantes, enquanto registros de organismos portugueses de combate à discriminação já apontaram crescimento das denúncias em períodos anteriores.
Para Fabiano, é necessário evitar generalizações ao tratar do assunto.
“Existe uma diferença entre Portugal ser um país xenófobo e existir xenofobia em Portugal. A primeira afirmação generaliza uma sociedade inteira; a segunda é um problema real que precisa ser reconhecido.”
Ele acrescenta que experiências positivas de acolhimento e episódios discriminatórios podem ocorrer simultaneamente dentro de uma comunidade numerosa e diversificada.
A mudança de percepção não significa necessariamente um rompimento entre brasileiros e Portugal. O país continua tendo vantagens importantes, especialmente pela língua, proximidade cultural, presença de uma comunidade brasileira consolidada e vínculos históricos.
O que começa a perder força é a ideia de Portugal como escolha automática para qualquer brasileiro interessado em viver na Europa.
“Não acredito que estejamos diante do fim da relação entre brasileiros e Portugal. Pelo contrário. Mas estamos diante do fim de uma idealização”, avalia Fabiano de Abreu Agrela.
Na prática, o fenômeno mostra uma mudança no próprio perfil da imigração brasileira. Depois de entrar na Europa, parte dessa população passa a comparar diferentes países e cidades antes de estabelecer raízes definitivamente.
Assim, Portugal pode continuar sendo a porta de entrada, mas já não é necessariamente o destino final. Para um número crescente de brasileiros, permanecer ou mudar depende de uma equação cada vez mais pragmática: conseguir moradia compatível com a renda, oportunidades de trabalho, segurança jurídica, acesso a serviços e condições para construir uma vida sustentável.
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