Política / Justiça
Ex-secretário do Maranhão investigado por monitorar Dino também é citado em apuração sobre assassinato
Raimundo Cutrim é investigado por suposto acesso a dados restritos sobre o ministro e aparece em caso que apura tentativa de proteger políticos ligados a homicídio
12/08/2026
20:00
UOL
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O ex-secretário de Segurança Pública do Maranhão Raimundo Cutrim tornou-se personagem de investigações distintas que chegaram ao Supremo Tribunal Federal (STF). Além de ser apontado pela Polícia Federal (PF) como responsável pela obtenção de informações restritas sobre veículos e deslocamentos do ministro Flávio Dino, Cutrim também aparece em uma apuração relacionada ao assassinato do empresário João Bosco Sobrinho, ocorrido em 2022.
Os procedimentos tramitam sob sigilo e envolvem diferentes gabinetes do Supremo. As suspeitas ainda estão sob investigação e não representam conclusão definitiva sobre eventual responsabilidade criminal dos citados.
Segundo relatório da Polícia Federal, Cutrim teria utilizado sua condição de agente público para obter informações armazenadas em sistemas de acesso controlado sobre veículos utilizados por Flávio Dino durante permanências no Maranhão.
Os dados teriam sido posteriormente repassados ao comunicador Luís Pablo, que publicou informações sobre carros blindados disponibilizados pelo Tribunal de Justiça do Maranhão para a segurança do ministro.
A investigação avançou depois que equipamentos eletrônicos do comunicador foram apreendidos. Conforme a PF, foi possível acessar conversas mantidas pelo WhatsApp com um contato identificado como “Secretário Raimundo Cutrim”.
Para os investigadores, as mensagens indicariam que Cutrim teria sido responsável pela obtenção das informações posteriormente divulgadas.
“Fica claramente demonstrado que quem obteve as informações e imagens divulgadas por Luís Pablo foi Raimundo Cutrim”, registra trecho do relatório policial citado no material da investigação.
A PF sustenta ainda que as informações consultadas estavam armazenadas em sistemas que exigem cadastro prévio, usuário e senha.
As consultas não teriam ficado restritas aos veículos públicos utilizados pelo ministro. De acordo com a investigação, também foram levantados dados relacionados a um veículo particular pertencente a um irmão de Flávio Dino.
Paralelamente, Raimundo Cutrim aparece em outra investigação, desta vez relacionada ao assassinato do empresário João Bosco Sobrinho, ocorrido em 2022.
O caso chegou ao Supremo depois que Gilbson Cutrim, condenado pelo crime, apresentou habeas corpus alegando que familiares teriam recebido uma proposta de vantagem financeira para que ele retirasse políticos maranhenses das acusações relacionadas ao homicídio.
Segundo as informações apresentadas ao STF, parte das conversas envolvendo Raimundo Cutrim teria sido gravada e posteriormente entregue à Polícia Federal.
A apuração havia passado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em razão da possível presença de autoridades com prerrogativa de foro. Posteriormente, familiares do condenado recorreram ao Supremo e apresentaram alegações sobre possíveis vínculos entre pessoas mencionadas no caso e integrantes do STJ.
Essas alegações também passaram a ser confrontadas com informações obtidas pela Polícia Federal em outra investigação, relacionada às irregularidades no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Documentos obtidos em investigações distintas acabaram estabelecendo pontos de contato entre os procedimentos.
Informações encontradas pela PF durante a apuração envolvendo o INSS foram encaminhadas ao ministro André Mendonça, relator desse caso. Ao identificar possível conexão entre comunicações envolvendo um parlamentar e um integrante do STJ e a investigação do assassinato, Mendonça determinou o compartilhamento do material com o gabinete de Flávio Dino.
O habeas corpus relacionado ao homicídio chegou ao gabinete de Dino em 24 de outubro de 2025. O ministro passou a conduzir a apuração sobre os possíveis mandantes e demais circunstâncias relacionadas ao crime.
Dias depois, a Secretaria de Segurança do STF comunicou à Polícia Federal a suspeita de monitoramento irregular dos deslocamentos de Dino e de integrantes de sua família no Maranhão.
Atualmente, as três frentes estão distribuídas entre ministros diferentes:
Alexandre de Moraes – apuração relacionada ao suposto monitoramento de Flávio Dino;
Flávio Dino – investigação ligada ao assassinato do empresário João Bosco Sobrinho;
André Mendonça – investigação relacionada ao esquema envolvendo o INSS.
Embora sejam procedimentos independentes, Raimundo Cutrim aparece em elementos relacionados às três apurações, segundo as informações reunidas pela Polícia Federal.
Outro ponto analisado pelos investigadores envolve Diogo Lima, apontado como pessoa que mantinha contato frequente com Luís Pablo e teria participado da orientação sobre o conteúdo das publicações relacionadas à segurança de Dino.
A PF identificou uma transferência de R$ 100 mil feita por Lima ao comunicador.
Em entrevista ao UOLNews, Luís Pablo afirmou que o dinheiro correspondia a um empréstimo. Também declarou que Lima é advogado e teria auxiliado na análise jurídica das reportagens.
A Polícia Federal, entretanto, passou a investigar as circunstâncias da operação financeira.
Segundo trecho do relatório, os investigadores consideraram relevante verificar por que uma pessoa que participaria da definição de conteúdos políticos teria realizado pagamento de valor elevado ao responsável pelas publicações.
A origem, finalidade e eventual relação desse dinheiro com as reportagens permanecem sob apuração.
Raimundo Cutrim está em prisão domiciliar em razão da investigação relacionada ao assassinato.
Em nota, sua defesa afirmou não ter acesso integral aos procedimentos conduzidos a partir de decisões de Flávio Dino e criticou a divulgação de informações provenientes de processos sigilosos.
Os advogados também sustentaram que as medidas contra o ex-secretário fariam parte de um processo de “terror eleitoral”.
Sobre o procedimento sob responsabilidade de Alexandre de Moraes, a defesa afirmou que tomou conhecimento das acusações principalmente por meio de reportagens jornalísticas.
Os advogados argumentam ainda que Cutrim teria sido identificado como fonte de Luís Pablo em reportagens sobre suposto uso irregular de veículos do Tribunal de Justiça por familiares de Dino e invocaram a garantia constitucional do sigilo da fonte.
As investigações sobre o suposto monitoramento de Flávio Dino, o assassinato de João Bosco Sobrinho e as irregularidades envolvendo o INSS continuam sob sigilo no Supremo Tribunal Federal. Até a conclusão dos procedimentos, as suspeitas atribuídas aos envolvidos permanecem sujeitas à apuração e ao contraditório.
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