Saúde / Medicamentos
Cortar comprimido ao meio pode alterar dose e comprometer tratamento
Medicamentos de liberação prolongada, revestidos ou sem sulco exigem atenção; divisão deve ser feita somente quando a formulação permitir e houver orientação profissional
13/08/2026
14:30
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
Dividir um comprimido ao meio parece uma prática simples, seja para facilitar a ingestão ou adequar a quantidade do medicamento. O procedimento, porém, não é seguro para todos os remédios e pode modificar a forma como o princípio ativo é absorvido pelo organismo, comprometer a dose administrada e aumentar o risco de efeitos indesejados.
A possibilidade de fracionamento depende da formulação de cada medicamento. Alguns comprimidos são desenvolvidos com revestimentos específicos ou tecnologias que controlam a velocidade e o local de liberação do princípio ativo. Ao quebrá-los, essas características podem ser comprometidas.
O farmacêutico Ivan Olisan, CRF 3436, docente do curso de Farmácia da Unopar, explica que a decisão não deve ser tomada apenas pela aparência do comprimido.
“Existem comprimidos desenvolvidos para liberar o medicamento de forma gradual no organismo. Quando eles são cortados, essa liberação pode ser comprometida, aumentando o risco de efeitos adversos ou reduzindo a eficácia do tratamento”, afirma.
Um dos pontos que exigem atenção é a presença do sulco, aquela linha existente no comprimido que pode indicar que a apresentação foi projetada para permitir a divisão.
Quando não existe essa marcação, partir o medicamento pode resultar em pedaços de tamanhos diferentes e, consequentemente, em doses desiguais.
Mesmo a existência do sulco, porém, não deve ser interpretada isoladamente como autorização para fracionar qualquer medicamento. A orientação da bula, do fabricante e de um profissional de saúde deve ser considerada.
Comprimidos de liberação prolongada, controlada ou modificada são desenvolvidos para liberar o princípio ativo durante determinado período.
Dependendo da formulação, romper essa estrutura pode fazer com que uma quantidade maior da substância seja disponibilizada em intervalo menor do que o previsto, alterando o efeito esperado e aumentando o risco de reações adversas.
Situação semelhante pode ocorrer com determinados comprimidos revestidos. O revestimento pode ter funções específicas, como proteger o princípio ativo do ambiente do estômago ou permitir que sua liberação ocorra em outra região do aparelho digestivo.
Abrir cápsulas para consumir apenas parte do conteúdo também não deve ser feito automaticamente. Algumas possuem formulações cuja eficácia depende da cápsula ou das características do material existente em seu interior.
O mesmo cuidado vale para drágeas e outras apresentações especiais. Antes de triturar, abrir, dissolver ou dividir um medicamento, é necessário verificar se aquela apresentação permite a alteração.
“Mesmo hábitos considerados simples podem interferir diretamente no tratamento. A orientação correta ajuda a garantir mais segurança e eficácia no uso dos medicamentos”, explica Ivan Olisan.
Outro cuidado envolve o armazenamento do comprimido depois de cortado. A divisão pode deixar partes antes protegidas expostas ao ar, à umidade, à luz e ao calor, afetando a estabilidade de determinados medicamentos.
Por isso, não é recomendável criar um estoque de comprimidos previamente cortados sem saber se aquela apresentação pode ser armazenada dessa maneira.
Quando a prescrição exige uma quantidade que não está disponível nas apresentações industrializadas, uma possibilidade, quando tecnicamente adequada e prescrita, é a preparação individualizada em farmácia de manipulação.
Segundo Ivan Olisan, a manipulação permite produzir determinadas formulações na quantidade estabelecida pelo profissional responsável, evitando a tentativa de obter doses intermediárias por meio de cortes imprecisos.
“Nem todos os medicamentos podem ser fracionados ou manipulados da mesma maneira. Por isso, a avaliação técnica é fundamental para garantir que a eficácia e a segurança do tratamento sejam preservadas”, ressalta.
A regra prática, portanto, é evitar improvisações: antes de cortar um comprimido, abrir uma cápsula ou triturar um medicamento, é necessário conferir a bula e buscar orientação do médico ou farmacêutico, especialmente quando se trata de apresentações de liberação modificada ou revestimento especial.
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