Internacional / Política
Ex-presidente do Paraguai é preso em casa após impeachment provocado por crise bancária
Santiago Peña foi destituído por unanimidade pelo Senado nesta sexta-feira (6); Pedro Alliana assumiu a Presidência em meio às investigações sobre o colapso do Ueno Bank.
06/11/2026
19:30
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O ex-presidente do Paraguai, Santiago Peña, foi detido em sua residência, em Assunção, na noite desta sexta-feira (6 de novembro), poucas horas depois de ser destituído pelo Senado em um processo de impeachment relacionado à crise financeira do Ueno Bank. A ordem de detenção foi expedida pelo Ministério Público paraguaio, que investiga suspeitas de irregularidades envolvendo a instituição bancária e a aplicação de recursos públicos.
A prisão ocorreu enquanto o então vice-presidente Pedro Alliana assumia oficialmente o comando do país, em cerimônia realizada no Congresso Nacional. Peña permanecerá sob custódia em sua residência até ser apresentado às autoridades responsáveis pela investigação.
A crise política e financeira também desperta atenção em Mato Grosso do Sul, que mantém uma extensa fronteira com o Paraguai e relações comerciais com o país vizinho.
Segundo informações divulgadas pelo jornal paraguaio ABC Color e pela agência Associated Press, a investigação envolve suspeitas de lesão de confiança, conflitos de interesses e possíveis irregularidades na administração de recursos públicos.
Peña nega ter cometido crimes. A detenção não representa condenação, e as acusações ainda dependem de apuração e análise judicial.
Senado aprovou destituição por unanimidade
A saída de Santiago Peña foi confirmada após os 44 senadores presentes votarem favoravelmente à destituição do presidente.
O processo já havia avançado na Câmara dos Deputados, onde 78 parlamentares aprovaram o prosseguimento do julgamento político.
Na quinta-feira (5), Peña havia anunciado a intenção de renunciar ao cargo, em meio ao agravamento da crise bancária e à pressão política.
Entretanto, o pedido não foi efetivado pelo Congresso, que deu continuidade ao processo de impeachment.
Com a decisão do Senado, Peña perdeu o cargo e Pedro Alliana assumiu a Presidência para completar o mandato iniciado em 2023, previsto para terminar em agosto de 2028.
A mudança no comando do governo ocorreu em meio a manifestações populares e questionamentos sobre a atuação das autoridades financeiras.
Polícia cumpriu ordem de detenção em Assunção
De acordo com o ABC Color, agentes da Polícia Nacional compareceram à residência de Santiago Peña para comunicar e executar a ordem de detenção.
O procedimento foi realizado por determinação do Ministério Público, no âmbito da investigação sobre o Ueno Bank.
A medida estabelece que o ex-presidente permaneça em sua residência até ser colocado à disposição da unidade especializada em Delitos Econômicos e Anticorrupção.
A apresentação de Peña ao Ministério Público está prevista para sábado (7), às 11h, conforme informações divulgadas pela imprensa paraguaia.
O advogado do ex-presidente, Ricardo Preda, questionou a necessidade de uma eventual prisão preventiva e afirmou que pretende se opor a medidas que considere sem fundamento legal.
A defesa sustenta que não estão presentes os requisitos necessários para manter Peña privado de liberdade.
Colapso do Ueno Bank atingiu milhares de famílias
O impeachment foi desencadeado pelo agravamento da situação financeira do Ueno Bank, instituição que atendia aproximadamente 3 milhões de clientes, segundo os dados divulgados sobre sua base de usuários.
O Banco Central do Paraguai determinou a intervenção na instituição diante de problemas relacionados à sua situação financeira e às práticas de concessão de crédito.
A crise provocou dificuldades de acesso a depósitos e pagamentos, afetando correntistas e empresas que mantinham recursos no banco.
A situação desencadeou protestos e aumentou a pressão sobre o governo, especialmente diante das suspeitas de que recursos públicos teriam sido direcionados à instituição em condições questionadas pelos investigadores.
As autoridades paraguaias também apuram possíveis falhas na fiscalização bancária.
Participação societária de Peña entrou na investigação
Um dos pontos examinados pelas autoridades é a antiga participação de Santiago Peña em empresas relacionadas ao grupo controlador do Ueno Bank.
Em declaração patrimonial apresentada em 2023, o então presidente informou possuir ações da Ueno Holding avaliadas em aproximadamente 6,144 bilhões de guaranis, equivalentes, na conversão informada à época, a cerca de R$ 5,28 milhões.
Peña vendeu sua participação societária em abril de 2025.
A declaração também mencionava um certificado de depósito de 2,4 bilhões de guaranis no banco e um título relacionado à empresa de tecnologia financeira Itti.
Outro aspecto citado nas apurações é a participação de um irmão do ex-presidente na U Holding SARL, apontada como integrante da estrutura empresarial relacionada ao grupo.
Os investigadores buscam esclarecer se houve conflitos de interesses ou interferência indevida em decisões envolvendo o banco e recursos administrados por órgãos públicos.
A existência de vínculos societários anteriores, por si só, não comprova a prática de irregularidades.
Aplicações de dinheiro público são investigadas
As suspeitas também envolvem depósitos e aplicações financeiras realizados por instituições públicas paraguaias.
Entre os órgãos citados nas investigações estão o Instituto de Previdência Social (IPS), o Ministério da Economia e as entidades binacionais Itaipu e Yacyretá.
Parlamentares solicitaram a apuração das decisões que levaram à aplicação desses recursos no Ueno Bank, incluindo a análise dos critérios utilizados e de possíveis prejuízos ao patrimônio público.
O papel do Banco Central do Paraguai também passou a ser questionado.
As investigações procuram determinar se os mecanismos de supervisão foram suficientes e se houve omissões ou interferências que contribuíram para o agravamento da crise.
O ex-presidente do Banco Central paraguaio, Carlos Carvallo, também foi alvo de uma ordem de detenção no âmbito das apurações.
Novo governo assume em cenário de instabilidade
Com a destituição de Peña, Pedro Alliana passou a comandar o Paraguai em um momento de dificuldades para o sistema financeiro e de pressão por esclarecimentos sobre a situação dos depósitos bancários.
Entre os desafios imediatos estão o acompanhamento das medidas adotadas para proteger os correntistas e a recuperação da confiança nas instituições responsáveis pela fiscalização financeira.
A crise também poderá ter reflexos sobre as relações econômicas com países vizinhos, embora ainda não exista uma estimativa confirmada de impactos diretos sobre o comércio com Mato Grosso do Sul.
A fronteira entre os dois países concentra atividades comerciais, transporte de mercadorias, turismo e circulação de trabalhadores, especialmente em municípios como Ponta Porã e Pedro Juan Caballero.
As investigações continuam, e novas medidas poderão ser adotadas conforme o Ministério Público reúna provas e apresente suas conclusões à Justiça.
A destituição e a detenção de Santiago Peña são fatos distintos de uma eventual condenação criminal. A responsabilidade do ex-presidente e dos demais investigados dependerá do andamento dos procedimentos judiciais, com direito à defesa.
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