Polícia / Investigação
Mensagens atribuídas a Vorcaro revelam recrutamento de mulheres para festas e levantam suspeitas de exploração sexual
Reportagem do UOL aponta participação do banqueiro na seleção de brasileiras e estrangeiras, negociações financeiras e organização de eventos; Polícia Federal investiga o caso.
14/10/2026
08:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
Mensagens obtidas pelo UOL apontam que o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teria participado diretamente da seleção e contratação de mulheres brasileiras e estrangeiras para festas privadas realizadas no Brasil e no exterior. Os diálogos revelados pela reportagem, publicada na terça-feira (13), também mencionam pagamentos a intermediários, viagens internacionais e negociações envolvendo uma agência de modelos. A Polícia Federal (PF) investiga possíveis irregularidades, incluindo suspeitas de tráfico internacional de pessoas.
Segundo a apuração, a atuação atribuída a Vorcaro não se limitava ao financiamento dos encontros. As conversas indicam que o banqueiro opinava sobre a escolha das mulheres, autorizava pagamentos e decidia quem poderia permanecer no grupo organizado para atender a ele e seus convidados.
Entre os envolvidos mencionados estão Diogo Batista, promotor de eventos em São Paulo, e Leonardo Serrano, empresário responsável por parte da organização logística internacional. Conforme as mensagens, Diogo recebia aproximadamente R$ 120 mil mensais de Vorcaro.
Procurada pelo UOL, a defesa do banqueiro informou que não se manifestaria sobre o assunto.
Os diálogos reproduzidos pela reportagem indicam que as mulheres eram selecionadas de acordo com as preferências de Vorcaro e com as características dos eventos.
Parte delas seria encaminhada para encontros privados, enquanto outras participariam de festas com maior número de convidados.
Nas mensagens, Vorcaro e Diogo utilizavam expressões depreciativas para se referir às mulheres, incluindo os termos “escravas” e “kengas”.
Em uma conversa, o promotor de eventos escreveu que pretendia “escravizar” uma mulher para trabalhar em um encontro. Em outros trechos, os envolvidos discutiam a substituição de participantes e a contratação de novas mulheres.
Os registros também sugerem uma relação de subordinação entre o organizador dos eventos e o banqueiro.
Em determinada mensagem, Diogo afirmou: “Chefe manda e a gente executa”.
A reportagem aponta que Vorcaro recebia informações sobre as candidatas, avaliava os nomes apresentados e autorizava despesas relacionadas à estrutura.
Um dos episódios descritos envolve uma jovem ucraniana de 19 anos, refugiada da guerra, que teria ingressado no grupo em outubro de 2023, durante os preparativos de uma festa de Halloween.
Em novembro daquele ano, Diogo informou a Vorcaro que havia três refugiadas ucranianas entre as mulheres recrutadas. O banqueiro teria manifestado interesse em manter pelo menos uma delas no grupo.
As conversas também mencionam o envio de informações do passaporte da jovem para organizar uma viagem ao Rio de Janeiro.
Segundo os diálogos, ela enfrentava dificuldades para retornar à Ucrânia em razão da guerra e não tinha condições definidas de moradia.
Em dezembro, Diogo relatou que a jovem pretendia buscar refúgio na Itália e mencionou a possibilidade de incluí-la em uma agência.
A situação voltou a ser discutida nos meses seguintes. Em março de 2024, a ucraniana apareceu entre as mulheres indicadas para um jantar de Vorcaro em um estabelecimento nos Jardins, em São Paulo.
A investigação deverá esclarecer as condições em que essas mulheres foram recrutadas, transportadas e mantidas no grupo, além da eventual existência de exploração.
As mensagens também revelam negociações envolvendo a Allure Eventos, empresa que, segundo o UOL, teria sido considerada para centralizar o recrutamento das mulheres.
Em dezembro de 2023, Vorcaro recebeu um contrato que previa a aquisição de 50% da agência por R$ 1,5 milhão, em negociação com o empresário Felipe Nisti Cataldo.
O pagamento teria sido dividido em três parcelas de R$ 500 mil.
Em janeiro de 2024, Diogo informou ao banqueiro que o contrato havia sido assinado e afirmou que a estrutura ofereceria proteção aos envolvidos.
A reportagem também menciona um comprovante de transferência via Pix de R$ 500 mil, realizado pela empresa Super Empreendimentos para Nisti.
O empresário, entretanto, apresentou uma versão diferente ao UOL. Ele confirmou que Vorcaro demonstrou interesse no negócio, mas negou que a negociação tivesse avançado nos termos apresentados nas conversas.
Sobre a transferência financeira, afirmou que precisaria verificar a origem e a finalidade do pagamento.
Ainda conforme os registros, o empresário Tiago Polo, que trabalhava com Diogo, participou das discussões sobre a utilização de uma agência para organizar as contratações.
Em janeiro de 2024, Vorcaro teria solicitado que Tiago viajasse ao Sul do Brasil para buscar mulheres que seriam cadastradas na empresa.
No mesmo período, Diogo pediu R$ 500 mil para alugar um imóvel destinado às modelos.
A estrutura descrita pela reportagem alcançava eventos realizados em cidades como Paris, Londres, Roma e Dubai, além de festas no Brasil.
Parte da logística internacional era atribuída a Leonardo Serrano, proprietário da SL Consulting, empresa sediada na Flórida, nos Estados Unidos.
Segundo as mensagens, ele organizava passagens aéreas, hospedagens, pagamentos e contatos com promotores de eventos.
Em uma festa de Halloween realizada em outubro de 2023, na boate Madame Satã, em São Paulo, Serrano mencionou a participação de 74 mulheres.
Diogo teria levado outras 40, hospedadas em 21 quartos do hotel Rosewood. Em outra mensagem, o total mencionado ultrapassava 120 mulheres.
Em junho de 2024, durante a preparação de um evento na França, Serrano sugeriu disponibilizar 3 mil euros para compras a cada uma de oito mulheres. Vorcaro teria proposto elevar o valor para 4 mil euros.
Já em abril de 2024, uma festa em Londres teria contado com a presença de autoridades de Brasília. Conforme a reportagem, as mensagens mencionavam 99 mulheres levadas para trabalhar no evento.
Também foram identificadas conversas sobre contratação de mulheres e profissionais do sexo masculinos para uma casa noturna em Londres, além de deslocamentos de participantes entre Roma e Dubai.
O planejamento teria continuado até o carnaval de 2025, quando Diogo solicitou a presença de aproximadamente 15 mulheres estrangeiras em festas no Rio de Janeiro.
A investigação jornalística também identificou movimentações financeiras relacionadas à organização dos encontros.
De acordo com o UOL, foram localizadas 21 faturas emitidas pela SL Consulting entre abril de 2024 e março de 2025, totalizando aproximadamente US$ 70 milhões.
Os documentos eram encaminhados à Moriah Asset, gestora sediada em Belo Horizonte, e apresentavam descrições relacionadas a eventos, hospitalidade, hospedagens e fretamentos.
A reportagem afirma que Vorcaro encaminhava essas cobranças ao setor financeiro do Banco Master.
As despesas relacionadas às mulheres recrutadas no Brasil também aparecem associadas à empresa Prime You, que, segundo as mensagens, seria utilizada para o faturamento de passagens e hospedagens.
Em setembro e outubro de 2024, Serrano solicitou autorização para pagamentos de R$ 350 mil e R$ 260 mil, respectivamente, relacionados ao grupo organizado por Diogo.
Os registros indicam que, em janeiro de 2025, Vorcaro determinou a interrupção dos pagamentos vinculados ao promotor.
Os valores mencionados nas conversas e faturas não demonstram, por si só, a existência de operações criminosas. A finalidade dos pagamentos e sua relação com eventuais irregularidades dependem da análise das autoridades.
A Polícia Federal abriu um inquérito em maio de 2026 para investigar circunstâncias relacionadas à contratação de mulheres estrangeiras e à organização dos eventos.
Entre os pontos que deverão ser esclarecidos estão as condições de recrutamento, deslocamento internacional, permanência e eventual exploração das participantes.
Em uma conversa de fevereiro de 2024, Leonardo Serrano negou envolvimento com tráfico de pessoas e atribuiu responsabilidades a Diogo Batista.
As declarações fazem parte do material divulgado, mas não representam conclusão da investigação.
No Brasil, a prostituição exercida voluntariamente por adultos não constitui crime. Já determinadas formas de exploração sexual, favorecimento da prostituição e tráfico de pessoas podem configurar infrações penais, conforme as circunstâncias e os requisitos previstos na legislação.
A existência de mensagens sobre contratação de acompanhantes, viagens e pagamentos não permite concluir automaticamente que esses crimes tenham ocorrido.
A apuração deverá determinar se houve exploração, coação, abuso de vulnerabilidade ou outras condutas previstas na legislação penal.
Até o momento descrito na reportagem, os elementos divulgados indicam suspeitas sob investigação, sem comprovação definitiva de responsabilidade criminal dos envolvidos.
O caso amplia os questionamentos sobre as atividades privadas e as relações financeiras atribuídas ao dono do Banco Master, enquanto a Polícia Federal busca esclarecer a natureza dos eventos e a atuação de seus organizadores.
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