Artigo / Opinião
O papel político da Igreja nas eleições
02/10/2026
08:00
WILSON AQUINO
WILSON AQUINO*
Não é inteiramente verdade que política e religião não se misturam, e que não se discute política na igreja. O assunto envolve diretamente o bem-estar do indivíduo e da família, e por isso deve ser tratado, sim, no ambiente religioso. O que não pode acontecer é a discussão descer ao terreno partidário, transformando o púlpito em palanque e a fé em cabide eleitoral. A igreja deve limitar-se a esclarecer a importância da boa e consciente escolha de pessoas realmente comprometidas com o bem-estar comunitário, deixando a sigla, o nome e o partido para o juízo particular de cada fiel.
Não é à toa que as Escrituras Sagradas advertem: "quando os justos governam, o povo se alegra; mas quando o ímpio governa, o povo geme" (Provérbios 29:2). A qualidade dos governantes não é um detalhe administrativo. É questão que toca a vida de todos, porque determina as escolas em que nossos filhos estudam, a segurança de nossas ruas, o peso dos impostos que pagamos e o respeito, ou a falta dele, com que o Estado trata o cidadão. Daí a importância de a igreja trabalhar para que a sociedade faça boas escolhas, sem ser desonesta consigo mesma, vendendo, por exemplo, o voto em troca de dinheiro, de cesta básica ou de favores pessoais.
Essa conscientização é mais necessária do que nunca. Os últimos anos nos mostraram, com dolorosa frequência, o que acontece quando escolhas malfeitas colocam no poder pessoas que manipulam as instituições em benefício próprio ou de grupos restritos. Os escândalos de corrupção parecem dominar os noticiários, e a cada semana eclodem novos casos que se somam a um quadro já suficientemente grave. O cidadão que se acostuma com isso corre o risco de concluir que todos são iguais, e essa conclusão é a mais perigosa de todas, porque desobriga de escolher com cuidado. Não são todos iguais. Justamente por isso, escolher é responsabilidade séria.
Provavelmente por conta de tamanhos absurdos, algumas autoridades religiosas acabam extrapolando esse papel e avançando para questões partidárias, chegando a indicar candidatos de forma positiva ou negativa, o que não é recomendável. Quando isso acontece, a instituição perde em duas frentes: aliena parte de seus próprios membros, que pensam diferente entre si, e se expõe à suspeita de que sua mensagem espiritual está a serviço de interesses temporais.
É verdade que o Estado é laico, mas o povo não é. A fé de milhões de brasileiros informa sua visão de justiça, de família e de honestidade, e seria artificial pedir que ela fique guardada na porta da seção eleitoral. O que a laicidade exige não é a ausência de convicção, e sim a garantia de que nenhuma convicção seja imposta pelo Estado. Nem por isso, porém, a igreja deve cruzar a linha tênue que a separa das questões partidárias. Deve limitar-se a formar consciências sábias e honestas, aliás em tudo na vida, não apenas na hora de votar.
As escrituras modernas dão a essa convicção um fundamento notável. A Seção 134 do livro Doutrina e Convênios, registrada em 1835, é praticamente uma declaração de princípios sobre governo, e merece ser lida por qualquer eleitor que queira votar com clareza do que está em jogo. Ela afirma que "os governos foram instituídos por Deus para o benefício do homem" e que "não há governo maior do que aquele que controla todos os povos", devendo suas leis fundar-se "nos princípios de equidade e justiça". Prossegue dizendo que cabe ao governo proteger o direito de consciência e o livre exercício do culto, e que todos os homens deveriam gozar de iguais direitos e privilégios.
A mesma seção estabelece o limite duplo que define um bom poder público: os magistrados devem "punir a culpa, mas nunca suprimir a liberdade de consciência", e devem "restringir e conter o ato criminoso, mas nunca interferir nos direitos e deveres religiosos". E vai além, ao determinar que o cidadão não deve tomar a justiça nas próprias mãos, mas buscar reparação pelas leis, e que o livre exercício da consciência e o direito de adorar conforme os ditames da própria consciência "devem ser mantidos sagrados para todos os homens".
Repare o que isso significa na prática. A Seção 134 não descreve um governo distante da vida das pessoas; descreve um governo que protege a família, garante a liberdade, pune o crime e trata todos com igualdade. Se o governo foi instituído para o benefício do homem, então escolher quem vai exercê-lo é um ato de consequências morais, e não um trâmite burocrático a cada quatro anos. A igreja não diz em quem votar. Ela forma a consciência que decide. É nessa distinção, fina mas firme, que se resolve a aparente tensão entre fé e política: à igreja cabe ensinar os princípios; ao eleitor cabe aplicá-los diante da urna.
Além de incentivar seus membros a serem cidadãos e cidadãs responsáveis na comunidade, inclusive se mantendo informados sobre os assuntos que a afetam, a igreja deve incentivar as pessoas a votarem, e não a se absterem. O dado é preocupante: no primeiro turno das eleições de 2022, 32,7 milhões de brasileiros aptos não compareceram às urnas, quase 21% do eleitorado, o pior índice desde 1998. A abstenção cresce há cinco eleições seguidas, e tudo indica que 2026 pode estabelecer novo recorde. Quando um quinto do país desiste de escolher, quem decide são os que sobraram, e a qualidade da representação se degrada na mesma proporção. Votar não é favor ao sistema; é a forma mais elementar de defender o próprio interesse e o da comunidade.
A igreja também espera que seus membros se envolvam no processo político de forma ordeira e respeitosa, reconhecendo que membros da mesma fé têm origens e experiências diferentes e podem chegar a conclusões diversas sobre partidos e candidatos. E que os candidatos não sugiram que sua candidatura ou plataforma seja endossada pela igreja, que se reserva o direito de, como instituição, pronunciar-se de maneira apartidária sobre questões que acredita terem consequências significativas em âmbito comunitário ou moral, ou que afetem diretamente seus interesses.
Chegamos, então, ao domingo, 4 de outubro. Nas urnas estarão em jogo a Presidência da República, governadorias, o Senado e as câmaras que escreverão as leis dos próximos anos. Quem for eleito decidirá se os governos cumprirão ou não aquilo que a Seção 134 declara ser sua razão de existir: o benefício do homem, a equidade, a justiça, a proteção da consciência e da família. Nenhum eleitor vota por todos, mas cada voto pesa, e a soma das escolhas conscientes é o que separa um povo que se alegra de um povo que geme.
Que cada um compareça, portanto, com a consciência formada, a informação em dia e a dignidade intacta, rejeitando qualquer troca que transforme o voto em mercadoria. Que vote pensando menos em quem promete mais e mais em quem demonstrou caráter, competência e respeito ao próximo. E que, ao sair da urna no domingo, possa dizer que fez sua parte para que os justos governem. O povo tem o governo que escolhe, e no dia 4 de outubro a escolha estará, mais uma vez, em nossas mãos.
Wilson Aquino é jornalista, professor e escritor. Autor do livro “Reflexões e Memória”.
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