Eleições / Desinformação
Rede no X transformou fala de Lula sobre exame de próstata em falsa acusação de pedofilia
Levantamento analisou 1.819 publicações e identificou articulação para ampliar conteúdo; TSE determinou retirada de postagem de Nikolas Ferreira
01/10/2026
15:45
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
Uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre prevenção ao câncer de próstata foi retirada de contexto e transformada, em poucas horas, em uma falsa acusação de pedofilia nas redes sociais. Um levantamento com 1.819 publicações no X, obtido e verificado pelo Aos Fatos, reconstruiu a circulação da narrativa entre os dias 28 e 29 de setembro. Markdown colado
A fala ocorreu durante um comício em Belém (PA), na noite de segunda-feira (28). Lula abordava a resistência de parte dos homens ao exame de próstata e fez uma comparação com os cuidados das mulheres com a saúde, mencionando exames ginecológicos realizados desde a infância. O contexto do discurso era, portanto, prevenção de doenças e cuidados médicos, e não sexualidade ou pedofilia. Aos Fatos
A análise identificou que recortes da declaração começaram a circular ainda naquela noite. Às 23h59, uma publicação da influenciadora conhecida como Pâm, fundadora do portal The Incorrupt e integrante do Estúdio 5, apareceu entre as primeiras postagens de maior alcance identificadas pelo levantamento. Markdown colado
À 0h28 de terça-feira (29), o perfil Space Liberdade publicou outro trecho do discurso. Um minuto depois, segundo o monitoramento, já havia postagens classificando Lula como pedófilo e incentivando outros usuários a disseminar a acusação. Markdown colado
Nas horas seguintes, o levantamento encontrou pedidos para baixar e republicar o vídeo, sugestões de criação de hashtag e propostas de mobilização de influenciadores para aumentar o alcance do conteúdo.
Às 2h48, por exemplo, uma publicação sugeriu selecionar duas frases do discurso, definir uma hashtag e mobilizar entre dez e 20 influenciadores. Markdown colado
A acusação, porém, não começou exclusivamente com o recorte do discurso em Belém. Horas antes, usuários já faziam experiências com o Grok, ferramenta de inteligência artificial integrada ao X, utilizando comandos construídos para induzir o chatbot a produzir uma frase que associava Lula à sigla inglesa usada para pornografia infantil. O próprio sistema posteriormente reconheceu que o resultado havia sido produzido a partir de um jogo de palavras e que não existia registro que sustentasse a afirmação. Markdown colado
O monitoramento também identificou expressões, códigos e slogans usados para ampliar a narrativa.
Dos 1.819 posts analisados, 746, o equivalente a 43%, apresentavam acusações diretas de pedofilia contra Lula ou, além de fazer a acusação, incentivavam outras pessoas a disseminá-la. Markdown colado
A análise do Aos Fatos descreve parte dos usuários envolvidos como integrantes da chamada “bolha da resenha”, um ecossistema de perfis, muitos anônimos, marcado por humor agressivo, conteúdo político extremado e referências à cultura de fóruns anônimos da internet. Essa classificação é da reportagem que realizou o monitoramento. Markdown colado
A narrativa chegou posteriormente a contas de maior alcance político.
Às 9h49 do dia 29, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou um dos recortes. Às 10h23, divulgou outro vídeo contestando a declaração de Lula sobre exames realizados por meninas. Markdown colado
O levantamento ressalta que não encontrou evidências de que Nikolas tenha participado dos experimentos com o Grok ou da criação inicial da acusação. O parlamentar aparece na análise como um dos primeiros políticos de grande alcance a divulgar conteúdo relacionado à narrativa depois que ela já circulava nas redes. Markdown colado
Após as publicações, expressões relacionadas ao episódio cresceram nos Assuntos do Momento do X. Uma delas saiu da 28ª posição, às 9h04, para o primeiro lugar às 11h15. Outras expressões relacionadas à acusação também figuraram entre os assuntos mais comentados. Markdown colado
A repercussão chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na quarta-feira (30), a ministra Estela Aranha determinou liminarmente que Nikolas retirasse, em até 24 horas, uma publicação relacionada ao episódio.
Na decisão, segundo o material consultado, a ministra considerou que o conteúdo atribuiu à declaração uma conotação diferente daquela apresentada no discurso original, deslocando uma fala sobre saúde pública para um contexto relacionado a crimes contra crianças e adolescentes. Markdown colado Folha de S.Paulo
A ordem também proibiu a republicação ou nova difusão, pelo parlamentar, de conteúdo equivalente. A determinação é liminar, portanto não corresponde ao julgamento definitivo da controvérsia eleitoral. Rádio Santana FM
Depois da viralização, a acusação deixou de se apoiar apenas no discurso de Belém. O levantamento identificou publicações que passaram a reunir episódios antigos e sem relação direta entre si para construir uma narrativa mais ampla contra Lula. Markdown colado
Entre os temas recuperados apareceram denúncias de exploração sexual de crianças no Marajó, referências ao financista norte-americano Jeffrey Epstein e uma história conhecida como “menino do MEP”.
No caso do Marajó, não há evidências apresentadas no material de ligação entre Lula e os crimes de violência sexual contra crianças e adolescentes registrados na região. O problema dos abusos no arquipélago é real e documentado, mas foi incorporado às publicações sem demonstração dessa conexão. Markdown colado
Outra associação recuperou um email atribuído a Jeffrey Epstein, no qual o financista dizia ter conversado por telefone com Lula quando o petista estava preso em Curitiba, supostamente por intermédio do linguista Noam Chomsky.
O email existe, mas sua existência não comprova que o telefonema tenha acontecido. Valeria Chomsky, mulher do linguista, negou que o marido tenha intermediado a conversa. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República também declarou, quando o documento veio a público, que a ligação nunca ocorreu. Markdown colado
Outra história reutilizada foi a do chamado “menino do MEP”, baseada em um artigo publicado pelo cientista político César Benjamin, em 2009, sobre uma suposta conversa ocorrida anos antes.
A acusação relatada no artigo nunca foi comprovada. Pessoas que estiveram presas com Lula e foram ouvidas posteriormente não apresentaram elementos que confirmassem o episódio. O militante mencionado na história também não confirmou a acusação e afirmou que caberia a quem a fez apresentar provas. Markdown colado
O levantamento do Aos Fatos combinou a análise das 1.819 publicações únicas no X com mensagens de grupos de WhatsApp e Telegram monitorados pelo veículo para reconstruir o caminho percorrido pela narrativa e verificar separadamente as principais alegações utilizadas nas postagens. Aos Fatos
Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veículo.
Leia Também
Leia Mais
Morre Lito Sousa, especialista em aviação e criador do canal Aviões e Músicas, aos 59 anos
Leia Mais
Fachin rejeita pedido de Flávio Bolsonaro para afastar Dino de processos eleitorais
Leia Mais
Manifesto Nacional pela Educação Empreendedora
Leia Mais
Mensagens mostram que Campos Neto convidou Vorcaro para encontro em casa quando comandava o BC
Municípios