Saúde / Bem-estar
Café vai além da cafeína e pode provocar efeitos inesperados no organismo
Bebida pode estimular o intestino, interferir na absorção de medicamentos e ferro e, dependendo do preparo, contribuir para elevar o colesterol
02/10/2026
07:30
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
Presente na rotina de milhões de brasileiros, o café costuma ser associado principalmente à cafeína e ao efeito estimulante. A bebida, porém, é uma mistura química complexa, formada por centenas de compostos bioativos capazes de atuar no intestino, metabolismo, absorção de nutrientes e medicamentos.
Algumas dessas reações também aparecem após o consumo de café descafeinado, indicando que nem todos os efeitos dependem da cafeína. Compostos como ácidos clorogênicos, polifenóis, diterpenos, melanoidinas e polissacarídeos também participam dessa interação com o organismo.
Para algumas pessoas, uma xícara é suficiente para estimular o funcionamento intestinal. Em um estudo com 99 voluntários, 29% relataram vontade de evacuar depois de beber café.
Em parte dos participantes, tanto o café comum quanto o descafeinado aumentaram a atividade do cólon poucos minutos depois do consumo. Isso indica que a cafeína não é a única responsável pelo fenômeno.
O horário também pode interferir, já que o funcionamento do intestino varia naturalmente ao longo do dia. Leite, adoçantes e outros ingredientes adicionados à bebida também podem contribuir para sintomas gastrointestinais em algumas pessoas.
O café pode piorar sintomas de refluxo gastroesofágico em pessoas suscetíveis. Além da conhecida azia, o refluxo pode estar associado a manifestações na garganta, como irritação e tosse.
A cafeína também pode provocar aumento temporário da pressão intraocular em algumas pessoas, questão particularmente relevante para quem apresenta glaucoma ou hipertensão ocular.
Já a relação com a enxaqueca não é simples. A cafeína aparece em algumas formulações para dor de cabeça e pode ajudar em determinadas circunstâncias. Por outro lado, consumo excessivo ou irregular e a interrupção abrupta do hábito podem favorecer dores de cabeça em algumas pessoas.
O horário da xícara pode ser importante para quem utiliza determinados remédios. O café pode prejudicar a absorção da levotiroxina, medicamento usado no tratamento do hipotireoidismo.
Também há evidências de redução da absorção do alendronato, utilizado contra a osteoporose. A cafeína ainda pode interferir no metabolismo da clozapina, aumentando a exposição do organismo ao medicamento.
Por isso, quem faz uso contínuo desses ou de outros medicamentos deve seguir os intervalos e orientações estabelecidos pelo médico e pela bula, em vez de tomar os comprimidos junto com o café.
Dois compostos encontrados naturalmente no café, cafestol e kahweol, pertencentes ao grupo dos diterpenos, podem aumentar os níveis de colesterol total e LDL.
A quantidade que chega à bebida depende bastante da preparação. Métodos sem filtro de papel tendem a preservar maior quantidade dessas substâncias.
O filtro de papel retém boa parte dos diterpenos. Por isso, o café preparado dessa maneira tende a exercer impacto menor sobre o colesterol do que algumas formas de café não filtrado.
Nem tudo o que existe na xícara é absorvido no intestino delgado. Parte dos ácidos clorogênicos chega ao cólon, onde pode ser metabolizada pela microbiota intestinal.
O café também contém polissacarídeos e melanoidinas, formadas durante a torrefação, que podem alcançar o intestino grosso e interagir com os microrganismos presentes ali.
A composição da microbiota varia entre indivíduos, o que ajuda a explicar por que os efeitos digestivos da bebida não são iguais para todos.
Tomar café junto das refeições pode reduzir a absorção do ferro não-heme, encontrado principalmente nos alimentos de origem vegetal.
Nesse caso, o principal mecanismo não está relacionado à cafeína. Polifenóis, entre eles os ácidos clorogênicos, podem se ligar ao ferro durante a digestão e dificultar sua absorção.
A interação merece atenção principalmente entre pessoas com baixas reservas de ferro ou que obtêm grande parte desse mineral por meio de alimentos vegetais.
A bebida também interfere em diferentes etapas da digestão. Estudos experimentais indicam que o café pode estimular a liberação de tripsina pelo pâncreas, enzima envolvida na digestão das proteínas.
Alterações também foram observadas em hormônios gastrointestinais, incluindo a gastrina, relacionada à atividade digestiva.
Algumas dessas respostas aparecem com café comum e descafeinado, reforçando que a atuação da bebida no sistema digestivo não depende exclusivamente da cafeína.
Os efeitos não significam que o café necessariamente fará mal a quem o consome. Quantidade ingerida, frequência, horário, método de preparo, alimentação, medicamentos utilizados e características individuais influenciam a resposta do organismo.
Por isso, além do conhecido aumento do estado de alerta provocado pela cafeína, uma simples xícara reúne substâncias capazes de desencadear diferentes respostas fisiológicas. É essa composição que faz do café uma bebida biologicamente mais complexa do que seu efeito estimulante sugere.
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