Política / Banco Master
Vorcaro repassou US$ 12,3 milhões para filme de Bolsonaro e pagamento avançou além do admitido por Flávio
Reportagem aponta transferência de US$ 1,66 milhão após cobrança do senador; polícia investiga caminho do dinheiro e financiamento de Dark Horse
01/09/2026
21:30
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
Novos documentos sobre o financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, ampliam o volume de recursos atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro e colocam sob questionamento declarações dadas pelo senador Flávio Bolsonaro sobre quando os pagamentos teriam terminado. Segundo reportagem da revista piauí, Vorcaro transferiu pelo menos US$ 12,3 milhões, mais de R$ 65 milhões à época, para o projeto.
O ponto central da nova apuração está em uma transferência realizada em 16 de setembro de 2025. O pagamento ocorreu oito dias depois de Flávio cobrar Vorcaro pelo atraso das parcelas destinadas à produção. De acordo com relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) citado pela revista, foram enviados US$ 1.666.667 ao Havengate Development Fund, no Texas.
A transferência contraria a versão apresentada posteriormente por Flávio. Em entrevista à GloboNews, o senador declarou que o último pagamento realizado por Vorcaro havia ocorrido em maio de 2025 e afirmou que, após o surgimento das suspeitas envolvendo o banqueiro, o fundo usado na operação teria sido isolado.
A relação financeira voltou ao centro das atenções após a divulgação de um áudio enviado por Flávio a Vorcaro em 8 de setembro de 2025. Na mensagem, o senador cobrava parcelas atrasadas de aproximadamente US$ 1,6 milhão cada, alegando que a falta do dinheiro colocava a continuidade da produção em risco.
O repasse de setembro não seria necessariamente o último. A reportagem também apresenta mensagens de 22 de outubro de 2025, quando Flávio voltou a procurar o banqueiro e afirmou que a produção estava no terceiro dia de gravações e “no limite”. Vorcaro respondeu que verificaria a situação.
Pouco depois, o publicitário Thiago Miranda, apontado como um dos responsáveis pela captação de recursos para o filme, perguntou ao banqueiro se conseguiria liberar as parcelas. Vorcaro respondeu: “Sim. Liberei mais uma hoje”. Se essa transferência de aproximadamente US$ 1,6 milhão tiver sido efetivamente concluída, o total atribuído ao banqueiro chegaria a cerca de US$ 14 milhões, aproximadamente R$ 72 milhões na conversão apresentada pela reportagem. A própria apuração trata esse segundo pagamento como ainda não comprovado documentalmente.
Outro ponto investigado é o caminho percorrido pelos recursos. Segundo a apuração, o dinheiro não era transferido diretamente das empresas de Vorcaro para a Go Up Entertainment LLC, produtora responsável pelo filme.
Os valores passavam pela Entre Investimentos e Participações, ligada a Antonio Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”, e seguiam para o Havengate Development Fund, sediado no Texas. Somente depois o fundo fazia os repasses destinados à produção.
A primeira transferência identificada nesse circuito foi de US$ 2 milhões, em 13 de fevereiro de 2025. O valor fazia parte de um compromisso de financiamento que, segundo os documentos analisados pela revista, chegaria a US$ 24 milhões, mais de R$ 120 milhões.
Entre abril e maio de 2025, outras três parcelas foram encaminhadas ao Havengate. Uma planilha enviada posteriormente a Vorcaro apontava que, até então, haviam sido transferidos US$ 10,6 milhões, com o último pagamento registrado em 29 de maio e outras parcelas em atraso.
As investigações agora procuram esclarecer se todo o dinheiro que passou pelo Havengate efetivamente chegou à produção de Dark Horse. Também está sob análise o papel desempenhado por Eduardo Bolsonaro, que aparece em documentos relacionados ao projeto como produtor executivo ou financiador.
Até o momento, porém, segundo o material analisado pela revista, não há evidência de que parte do dinheiro tenha sido desviada para custear a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Esse ponto permanece como objeto de apuração e não pode ser tratado como fato comprovado.
Uma mensagem de Eduardo também chamou a atenção dos investigadores. Nela, ele discutia a conveniência de manter os recursos nos Estados Unidos e mencionava o sistema utilizado para remeter o dinheiro. Para os investigadores citados na reportagem, o diálogo indica participação ativa nas discussões sobre a estrutura financeira da produção, mas não comprova, por si só, domínio sobre os valores depositados no fundo.
As dúvidas sobre o financiamento passaram a se cruzar com investigações envolvendo organizações administradas por Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up. Uma das linhas de apuração busca saber se recursos públicos recebidos pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) poderiam ter sido usados na produção cinematográfica.
Segundo o material, a Polícia Civil de São Paulo investiga suspeitas de confusão patrimonial. Em 24 de agosto, o ministro Flávio Dino autorizou a Polícia Federal a acessar elementos recolhidos nessa investigação, fazendo com que o filme passasse a ser examinado em frentes distintas.
A reportagem ressalta, entretanto, que não encontrou nos documentos disponíveis transferência direta do ICB para a Go Up. As conexões identificadas até então incluem profissionais que atuavam tanto na entidade quanto na produção cinematográfica.
Outro ponto ainda sem esclarecimento completo envolve os gastos do filme. Flávio havia anunciado que apresentaria uma prestação de contas, mas, segundo a reportagem, o documento prometido não foi divulgado.
A produção entregou às autoridades um Laudo de Perícia Investigativa Defensiva, encomendado pela própria equipe, segundo o qual foram recebidos e gastos exatamente US$ 13.393.081,29 até 4 de junho de 2026. O documento, porém, não detalha individualmente atores, fornecedores, serviços, datas e pagamentos, o que dificulta a conferência independente da movimentação financeira.
A revelação do pagamento de setembro de 2025 acrescenta uma diferença objetiva entre os registros financeiros apresentados pela reportagem e a declaração pública de Flávio de que os repasses de Vorcaro haviam terminado em maio. Procurada pela revista para explicar a divergência e informar o montante total recebido, a assessoria do senador direcionou os questionamentos à produtora do filme.
Enquanto as investigações avançam sobre a origem, a rota e a destinação dos recursos, Dark Horse permanece sem data definida de estreia no Brasil. Segundo o material, o filme ainda depende do Certificado de Registro de Título (CRT) para chegar aos cinemas e não deverá ser lançado antes das eleições.
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