Esporte / Opinião
A ingenuidade seletiva diante das controvérsias do futebol
Questionar tÃtulos e arbitragens é legÃtimo, mas a análise perde credibilidade quando os critérios mudam conforme a seleção envolvida
27/07/2026
08:30
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
A última Copa do Mundo foi tecnicamente divertida, mas também marcada por um ambiente desgastante. O futebol sempre teve dimensão política, econômica e social, porém nem todo lance, resultado ou decisão de arbitragem precisa ser transformado em prova de uma conspiração cuidadosamente planejada.
Após a competição, parte do debate passou a se concentrar em um suposto favorecimento à Argentina. O argumento ganhou espaço mesmo com a seleção tendo perdido a decisão e terminado a final com um jogador expulso. Ainda assim, investigadores formados nas redes sociais decidiram reexaminar não apenas o torneio recente, mas também os títulos argentinos conquistados anteriormente.
Revisitar a história é legítimo. O problema aparece quando esse exercício é seletivo e direcionado somente ao adversário que se pretende desqualificar.
Caso a proposta seja analisar interferências políticas, erros de arbitragem e decisões controversas, será necessário começar pela Copa do Mundo de 1934, disputada na Itália governada por Benito Mussolini. A influência do regime fascista sobre a organização e a arbitragem daquela competição permanece como um dos episódios mais questionados da história do torneio.
O mesmo rigor deveria ser aplicado ao Mundial de 1962. Mané Garrincha foi expulso na semifinal, mas acabou liberado para disputar a decisão. Naquele período, a expulsão não provocava automaticamente a suspensão da partida seguinte, mas a ausência de julgamento continua sendo um ponto relevante para quem pretende investigar possíveis favorecimentos.
Também merece discussão a final de 1966, entre Inglaterra e Alemanha Ocidental. A escolha de um auxiliar soviético para uma partida envolvendo os ingleses, durante o auge da Guerra Fria, alimentou questionamentos que atravessaram décadas, especialmente por causa do controverso gol validado na prorrogação.
Na campanha brasileira de 1970, Pelé poderia ter sido expulso após atingir um jogador uruguaio com o cotovelo durante a semifinal. Caso uma punição mais rigorosa tivesse sido aplicada, o maior nome daquela seleção talvez não tivesse participado da histórica decisão contra a Itália.
É nesse contexto que devem entrar as controvérsias argentinas. O título de 1978, disputado durante a ditadura de Jorge Rafael Videla, continua cercado por dúvidas, sobretudo pela goleada sobre o Peru. Em 1986, o gol de mão marcado por Diego Maradona contra a Inglaterra tornou-se um dos erros de arbitragem mais famosos do esporte.
Mas a análise não pode parar por aí. Durante o pentacampeonato brasileiro de 2002, a arbitragem também tomou decisões favoráveis à Seleção. Contra a Turquia, foi marcado um pênalti por uma falta ocorrida fora da área. Diante da Bélgica, um gol legítimo dos europeus acabou anulado.
Esses episódios mostram que o problema não pertence exclusivamente à Argentina, ao Brasil, à Itália ou à Inglaterra. A história do futebol é atravessada por pressões políticas, interesses comerciais, arbitragens frágeis e federações pouco transparentes.
O torcedor pode reconhecer essa realidade e continuar acompanhando o esporte. O que não parece razoável é dividir seleções entre representantes absolutos do bem e do mal, como se uma Copa do Mundo fosse uma produção cinematográfica com heróis e vilões definidos previamente.
Quando a indignação depende da camisa envolvida, ela deixa de ser crítica e passa a ser apenas conveniência.
Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veÃculo.
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