Economia / Comércio Exterior
Tarifaço dos EUA entra em vigor e atinge 18% das exportações brasileiras
Sobretaxa de 25% alcança bens industriais e biocombustíveis, enquanto mais de 2,1 mil produtos ficaram fora da medida para reduzir impactos nos EUA
22/07/2026
08:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
O novo pacote de tarifas imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros entrou em vigor à 1h01 desta quarta-feira, 22 de julho. A medida aplica uma sobretaxa de 25% sobre parte das importações procedentes do Brasil e pode provocar perdas de até US$ 11 bilhões às exportações nacionais.
A decisão foi oficializada pelo governo do presidente norte-americano Donald Trump em 16 de julho, após o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, conhecido pela sigla USTR, concluir uma investigação aberta contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
Segundo a administração norte-americana, o Brasil mantém práticas consideradas desleais em áreas como comércio digital, acesso ao mercado de etanol, políticas ambientais e regras relacionadas ao Pix.
A sobretaxa será cobrada além dos impostos de importação já existentes. Na prática, uma mercadoria atualmente sujeita a uma alíquota de 5% passará a pagar 30% para entrar no mercado dos Estados Unidos.
As novas tarifas atingem mercadorias importadas ou retiradas de armazéns para consumo a partir desta quarta-feira.
O governo norte-americano, porém, estabeleceu uma regra de transição para produtos que já estavam em deslocamento. As mercadorias embarcadas antes da entrada em vigor da medida poderão ser comercializadas sem a cobrança adicional, desde que cheguem aos Estados Unidos até 29 de julho.
A exceção busca evitar que cargas contratadas e enviadas antes da mudança sejam atingidas pela nova tributação durante o transporte.
Apesar do aumento das barreiras comerciais, o governo dos Estados Unidos retirou mais de 2,1 mil produtos da lista sujeita à sobretaxa.
A decisão procura reduzir possíveis danos à própria economia norte-americana, conter pressões inflacionárias e evitar interrupções em cadeias de abastecimento consideradas estratégicas.
Entre os itens excluídos estão alguns dos produtos mais importantes da pauta de exportações brasileiras, como carne bovina, café, laranja, suco de laranja, petróleo e aeronaves civis.
No setor agropecuário, ficaram fora da sobretaxa os cortes de carne bovina frescos, refrigerados, congelados e processados.
Também foram preservados o café em grão, torrado e solúvel, além da laranja, do suco congelado e do suco não congelado.
A lista de exceções inclui ainda frutas como açaí, banana, abacaxi, goiaba, manga e melão, além de mel orgânico, peixes e crustáceos.
Na área de mineração e energia, não serão atingidos o petróleo bruto, os derivados, o ferro-gusa, a sucata de aço e o hidróxido de alumínio.
Também ficaram fora da cobrança adicional produtos como minério de ferro, nióbio, grafite, caulim e gás natural.
Esses produtos têm peso relevante no abastecimento e na produção industrial norte-americana, o que ajudou a justificar a retirada da lista tarifária.
O governo dos Estados Unidos também concedeu exceções a equipamentos e componentes de maior valor tecnológico.
A relação inclui aviões, helicópteros, drones, motores e peças para aeronaves, além de computadores, notebooks, celulares, monitores e semicondutores.
Na área da saúde, ficaram isentos vacinas, insulina, antibióticos, plasma e outros insumos farmacêuticos.
Produtos usados na agricultura, como fertilizantes, ureia e sulfato de amônio, também não sofrerão a sobretaxa de 25%.
Entre os produtos atingidos estão o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar, outros biocombustíveis e determinadas categorias de celulose branqueada.
Na indústria pesada, a cobrança alcançará produtos de aço e alumínio semiacabados, máquinas agrícolas, equipamentos de mineração e transformadores elétricos de grande porte.
Também serão afetados bens de consumo como calçados, móveis de madeira, pisos, revestimentos, rochas ornamentais, vestuário, tecidos e peças de roupa.
Esses segmentos poderão enfrentar perda de competitividade no mercado norte-americano, já que os importadores terão de absorver o aumento ou repassá-lo aos preços finais.
O Brasil dispõe, desde julho de 2025, de um mecanismo legal que permite reagir a barreiras comerciais impostas por outros países.
A Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, autoriza a adoção de contramedidas quando ações externas forem consideradas prejudiciais à economia brasileira.
Após o anúncio do tarifaço, o governo federal passou a avaliar a utilização da legislação. Nos últimos dias, entretanto, integrantes do Palácio do Planalto indicaram que a estratégia inicial não deve ser baseada em retaliação imediata.
O vice-presidente Geraldo Alckmin, que também atua na área de desenvolvimento e comércio exterior, afirmou que o objetivo é preservar o diálogo e evitar uma escalada de medidas entre os dois países.
“Foi aprovada a Lei da Reciprocidade por unanimidade. A ideia não é retaliação. Olho por olho, pode acontecer de os dois ficarem cegos”, declarou Alckmin após reunião com representantes dos setores exportadores na terça-feira, 21 de julho.
A estimativa do governo federal é que a sobretaxa alcance aproximadamente 18% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos.
De acordo com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio França, o volume afetado equivale a cerca de US$ 7,4 bilhões, considerando os resultados do comércio exterior registrados em 2024.
Outras projeções apontam que as perdas acumuladas poderão chegar a US$ 11 bilhões, dependendo da duração da medida, do comportamento dos compradores norte-americanos e da capacidade das empresas brasileiras de encontrar mercados alternativos.
O governo federal prepara um programa de apoio aos segmentos mais expostos ao aumento tarifário. As medidas deverão buscar a preservação das exportações, do emprego e da atividade econômica nas cadeias industriais e agropecuárias afetadas.
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