Artigo / Opinião
Tempo de ser Pacificador
08/11/2026
11:30
WILSON AQUINO
WILSON AQUINO*
Os ânimos nunca estiveram tão acirrados no Brasil e no mundo como nestes últimos tempos. Questões políticas, econômicas e sociais funcionam como combustível para as mais ásperas desavenças, e elas já não ficam apenas nas redes sociais ou nos debates públicos. Entraram pela porta de casa. Pais e filhos que se evitam à mesa, irmãos que se bloqueiam, casais que trocaram o diálogo por silêncios rancorosos. O prejuízo não é abstrato: relacionamentos se desgastam, confianças se rompem e laços que levaram anos para serem construídos se desfazem em uma única frase dita no calor da raiva.
Daí a urgência de ponderar, refletir e adotar uma comunicação não violenta. A linguagem dos pacificadores é a que fortalece relacionamentos, devolve a confiança e preserva a paz no lar, no trabalho e na rua. Ela não é sinal de fraqueza nem de omissão: é a escolha mais difícil e mais corajosa que existe, porque exige domínio próprio num tempo em que gritar parece mais natural do que escutar.
Ser pacificador é não agir por impulso. É ponderar, medir o peso de cada palavra e evitar tudo o que é agressivo e que conduz ao ódio, à discórdia e ao desentendimento. É um exercício espiritual identificar as expressões que precisamos abandonar, a ironia que humilha, o sarcasmo que fere, a generalização que condena, o “você sempre” e o “você nunca” que transformam uma conversa em tribunal, e depois substituí-las por palavras que tragam paz onde quer que estejamos.
Desde os tempos antigos, o Senhor aconselha Seu povo a evitar contendas, disputas e linguagem que crie conflitos. Em Provérbios, lemos que há seis coisas que o Senhor odeia, e sete que a sua alma abomina: entre elas estão “a língua mentirosa” e “o que semeia contendas entre irmãos” (Provérbios 6.16-19).
O detalhe é revelador: a discórdia não é tratada como um acidente de percurso, mas como algo que alguém semeia. Há uma semeadura deliberada de palavras que depois germina em brigas. Quem semeia colhe conflito; quem planta paz colhe convivência.
Jesus Cristo foi direto ao ponto: “Mas eu vos digo que de toda a palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no dia do juízo. Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado” (Mateus 12.36-37).
A palavra ociosa não é apenas a mentira escancarada; é também a fofoca, o comentário maldoso, a insinuação que não edifica ninguém. E note a gravidade do que Ele diz: nossas palavras não são apenas sons passageiros, elas nos definem.
O apóstolo Paulo escreveu aos Efésios: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para utilidade da edificação, para que dê graça aos que a ouvem” (Efésios 4.29).
O critério é simples e exigente ao mesmo tempo: a palavra deve edificar e deve dar graça a quem escuta. Se não edifica e não concede graça, não deveria sair.
Da mesma maneira, em Colossenses, os santos foram aconselhados a ser sábios até mesmo na escolha das palavras: “A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como vos convém responder a cada um” (Colossenses 4.6).
Sal tempera, conserva e dá sabor, não queima. A palavra do pacificador tem esse tempero: não é insossa, mas também não é corrosiva.
Mas é preciso ir mais fundo, porque a palavra é apenas a superfície. Antes de sair pela boca, toda palavra nasce no coração, e é ali que o mal se instala primeiro.
Jesus foi categórico ao dizer que “do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicações, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias” (Mateus 15.19).
Ou seja: a língua que fere não cria o mal, apenas o revela. O orgulho que não quer ceder, a vaidade que precisa vencer a discussão, a inveja que se alegra com a queda do outro, a impaciência que não suporta ser contrariada, tudo isso mora em nós, inclusive em quem se considera uma boa pessoa.
É exatamente aí que o Plano de Deus se torna luminoso. O Senhor não nos pede que nos apresentemos perfeitos; pede que sejamos honestos. O convite do Evangelho é o de olhar para dentro, não para se condenar, mas para se transformar.
“Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” (Salmo 51.10), clamou Davi depois de reconhecer o próprio pecado.
E o apóstolo João nos assegura que “se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar” (1 João 1.9).
O arrependimento não é humilhação: é a porta da liberdade. Sempre é tempo de recomeçar, sempre é possível corrigir a rota, e essa é a boa notícia que sustenta toda a esperança Cristã.
Jesus não nos deixou apenas um mandamento: deixou um exemplo. Ele, sendo ofendido, não revidava; sendo humilhado, não ameaçava. Lavou os pés de quem o trairia. Perdoou os que o crucificaram.
Se queremos falar como pacificadores, precisamos primeiro pensar como Cristo, e o pensamento se educa, se disciplina, se corrige. A evolução de que falamos não é automática: é fruto de oração, de exame sincero de consciência e de decisões pequenas e repetidas todos os dias.
É quando olhamos para dentro, com coragem e sem desculpas, que o mal perde terreno e a bondade ganha espaço. E é assim que nos tornamos capazes de ser honestos, bondosos e honrados com nós mesmos e com o próximo, não por esforço isolado, mas porque o caráter vai sendo moldado à imagem daquele a quem decidimos seguir.
Lutemos por uma comunicação pacífica entre nós, sejam quais forem nossas diferenças de opinião. E que essa luta se transforme em compromisso: nesta semana, escolha uma pessoa com quem você está em atrito e dê o primeiro passo. Uma ligação, uma mensagem, um pedido de desculpas, um “vamos conversar com calma”.
Não espere que o outro comece. Antes de falar, olhe para dentro e pergunte: “o que em mim está reagindo agora?”
Adotemos, a partir de hoje, uma linguagem que eleva, edifica, conforta e aproxima as pessoas.
Porque a paz não começa nos governos, nos parlamentos ou nas manchetes: começa no coração de alguém que decide não revidar, e depois se transforma em palavra.
Jornalista, Professor e Escritor. Autor do livro “Reflexões e Memória”.
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