Política / Diplomacia
Lula levará combate ao crime organizado à ONU em meio a divergências com os EUA
Presidente deve defender cooperação contra facções e rejeitar interferências externas sem citar diretamente o governo Trump durante discurso em Nova York
17/09/2026
19:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pretende colocar o combate ao crime organizado transnacional entre os temas de seu discurso na Assembleia-Geral das Nações Unidas, na próxima terça-feira (22), em Nova York. A abordagem deverá ocorrer sem menções nominais aos Estados Unidos ou ao governo de Donald Trump, apesar das recentes divergências entre Brasília e Washington sobre segurança pública.
O Brasil tradicionalmente abre a sequência de pronunciamentos dos chefes de Estado na Assembleia-Geral. Neste ano, Lula será seguido por Trump. Segundo informações obtidas pela Folha de S.Paulo com integrantes da diplomacia brasileira, o texto está sendo preparado para transmitir as posições do governo brasileiro de maneira indireta, sem transformar o pronunciamento em uma resposta específica à Casa Branca.
Uma das questões no pano de fundo é o Escudo das Américas, coalizão liderada pelos Estados Unidos para ampliar a cooperação regional contra organizações criminosas e o narcotráfico. O Brasil não integra a iniciativa, que reúne países como Argentina, El Salvador, Equador, Bolívia, Colômbia e Peru.
As diferenças ganharam novo capítulo nesta semana após o governo Trump divulgar sua avaliação sobre os esforços internacionais de combate às drogas. A Casa Branca encaminhou ao Congresso norte-americano a relação anual de países considerados importantes produtores ou rotas de trânsito de drogas ilícitas e pediu ampliação das ações contra o narcotráfico.
Reportagem do UOL informa que documentos do governo americano também fizeram críticas específicas à atuação brasileira diante do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV). O governo brasileiro contestou essa avaliação e argumentou que Washington desconsidera medidas adotadas pelo país e a cooperação bilateral já existente.
O assunto ganhou dimensão política adicional depois que os Estados Unidos passaram a enquadrar PCC e CV em sua política de combate a organizações terroristas estrangeiras. A posição brasileira tem sido de tratar essas facções como organizações criminosas, dentro do ordenamento jurídico nacional, enquanto mantém mecanismos internacionais de cooperação policial e de inteligência.
Criado sob a liderança de Trump, o Escudo das Américas busca coordenar compartilhamento de informações, cooperação judicial e ações contra organizações criminosas que atuam além das fronteiras nacionais.
O Peru confirmou sua adesão em 10 de setembro, durante encontro da presidente Keiko Fujimori com o secretário de Estado americano, Marco Rubio. A presidente peruana afirmou que a participação permitirá obter informações com maior rapidez e reforçar operações contra o crime transnacional.
O Brasil, por sua vez, não aderiu à coalizão. A expectativa relatada por integrantes da diplomacia brasileira é que Lula defenda na ONU o enfrentamento internacional ao crime organizado, mas ressalte a necessidade de respeito à soberania dos países e às regras do direito internacional.
Outro assunto previsto é a rejeição brasileira a interferências estrangeiras no processo eleitoral. O tema ganhou espaço na relação bilateral depois da revelação de que, durante negociações comerciais em 2025, o governo Trump apresentou ao Brasil um documento que incluía demandas relacionadas à participação de chamados “dissidentes políticos” nas eleições brasileiras de 2026. O governo Lula rejeitou as exigências.
Apesar das divergências, não está previsto um encontro bilateral formal entre Lula e Trump durante a passagem por Nova York. A possibilidade de uma conversa informal, entretanto, não foi descartada por auxiliares brasileiros.
Os dois presidentes já tiveram contato durante a Assembleia-Geral de 2025 e voltaram a conversar posteriormente. Para esta viagem, Lula deve chegar a Nova York no domingo (20), cumprir compromissos na segunda-feira e discursar na manhã de terça-feira (22). O retorno ao Brasil está previsto para depois do pronunciamento, em meio à reta final da campanha eleitoral brasileira.
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