Internacional / Economia
Corrupção, inflação e queda na indústria ampliam pressão sobre governo Milei na Argentina
Governo argentino enfrenta pior momento político desde 2023, com perda de popularidade, atividade econômica em retração e denúncias contra aliados
06/05/2026
18:30
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O governo do presidente Javier Milei enfrenta o momento mais delicado desde que assumiu a Casa Rosada, em dezembro de 2023. A combinação de escândalos de corrupção, queda na popularidade, inflação em aceleração e retração da atividade econômica aumentou a pressão sobre a gestão ultraliberal na Argentina.
A inflação, que até então era apresentada como principal vitrine política do governo, voltou a preocupar. Depois de reduzir os índices mensais de dois dígitos, registrados no fim de 2023, para cerca de 2% ao mês ao longo de 2025, os preços voltaram a acelerar entre o fim do ano passado e o início de 2026. Em março, a inflação chegou a 3,4%.
A piora fez o próprio Milei reconhecer publicamente a dificuldade. Em uma rede social, o presidente argentino afirmou que o dado era ruim.
A atividade econômica também perdeu força. Em fevereiro, a economia argentina registrou retração de 2,6% em relação a janeiro. No acumulado de 12 meses, a queda é de 2,1%.
O ponto mais preocupante, segundo analistas, está na indústria. A produção industrial caiu 4% em fevereiro e acumula retração de 8,7% em 12 meses, sinalizando perda de fôlego em um setor considerado estratégico para produtividade, inovação e empregos qualificados.
O professor de economia da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV-SP) Paulo Gala avalia que o plano econômico de Javier Milei é simplista e não tem sido suficiente para reverter completamente a crise herdada pelo governo.
“As pessoas não confiam mais no peso. Elas dolarizam os contratos, um pouco parecido com o que aconteceu com o Brasil antes do Plano Real. Com isso, com qualquer coisa a inflação volta a acelerar. Reduzir o tamanho do Estado não resolve nada”, afirmou.
A política econômica de Milei tem como eixo a redução do tamanho do Estado, cortes de gastos e austeridade fiscal. Para o governo argentino, essas medidas são necessárias para conter a inflação e reorganizar a economia.
Na avaliação de Paulo Gala, porém, o plano não deve ir muito longe sem medidas mais profundas, como a criação de uma nova moeda. O economista também aponta que o peso argentino estaria sobrevalorizado, o que, segundo ele, prejudica diretamente a indústria do país.
“Esse mergulho da atividade manufatureira é fatal para o país porque esse setor é responsável por aumento de produtividade, por ganhos tecnológicos. Esse dado da indústria é muito ruim. Essa abertura comercial violenta que o Milei tem feito também destrói o pouco que restou de indústria na Argentina”, completou.
Para o especialista, a tendência é de avanço da desindustrialização, com a economia argentina cada vez mais dependente do setor agroexportador e de matérias-primas. Ele também não descarta um cenário de recessão e nova crise cambial, agravada pelo aumento da dívida em dólares.
Além das dificuldades econômicas, casos de corrupção envolvendo integrantes do governo têm contribuído para a queda na aprovação de Javier Milei.
Um dos episódios envolve o chefe de gabinete Manuel Adorni, investigado por suposto enriquecimento ilícito. Ele tem sido cobrado a explicar viagens de luxo, compra e reforma de imóveis supostamente incompatíveis com sua renda.
Pesquisas recentes mostram que a desaprovação ao governo supera 60%, os piores índices desde a posse de Milei. Levantamento da Atlas Intel, divulgado no fim de abril, apontou 63% de reprovação e 35% de aprovação à figura do presidente argentino.
Segundo a consultoria Zentrix, 66,6% da população avaliam que foi quebrada a promessa “anti-casta” de combate à corrupção, uma das principais bandeiras da campanha de Milei.
A consultoria aponta que a corrupção aparece hoje como o principal desafio do país, inclusive entre eleitores que apoiaram o partido governista em 2025, superando preocupações como desemprego, inflação e salários.
O cientista político argentino Leandro Gabiati afirma que o desgaste é significativo porque o governo transformou o combate à corrupção em uma política central.
“Esse governo colocou a pauta da corrupção como uma política de Estado. Quando se observa que há casos envolvendo alguns funcionários do governo, como é o caso do chefe de gabinete, que seria uma espécie de primeiro-ministro, isso afeta a imagem do governo, desgasta o governo e cria problemas”, explicou.
Ao mesmo tempo, Gabiati avalia que parte da população ainda reconhece o mérito do governo na redução da inflação em relação ao patamar encontrado em 2023. A ponderação, segundo ele, é que os preços continuam subindo em ritmo elevado, com inflação anual estimada entre 30% e 40%.
Apesar do desgaste de Milei, a oposição argentina ainda não aparece como uma alternativa política clara para o eleitorado. Para Leandro Gabiati, esse fator ajuda o governo a ganhar tempo, mesmo enfrentando crises econômicas e denúncias.
“O governo tem alguns problemas que terá que resolver agora, mas a oposição ainda permanece desorganizada e sem ser uma opção política clara para o eleitor argentino”, avaliou.
Em meio ao cenário negativo, o governo recebeu uma notícia favorável no campo financeiro. A agência de classificação de risco Fitch Ratings elevou a nota de crédito da Argentina de CCC+ para B-, com perspectiva estável, citando melhorias na situação fiscal e na balança externa do país.
A decisão impulsionou a Bolsa de Buenos Aires nesta quarta-feira, 6 de maio. Para o economista Paulo Gala, no entanto, a melhora na nota não altera o quadro geral de fragilidade da economia argentina.
Em paralelo à crise econômica e política, o governo Milei também tem acumulado atritos com a imprensa. No fim de abril, a gestão proibiu a entrada de jornalistas na Casa Rosada, afetando cerca de 60 profissionais que cobriam o Poder Executivo em Buenos Aires.
O governo alegou que algumas emissoras teriam filmado áreas do edifício sem autorização, o que foi negado pelas empresas de comunicação.
Após críticas de entidades e profissionais da imprensa, que apontaram violação à liberdade de imprensa, o governo reabriu a Casa Rosada para jornalistas nesta segunda-feira, 3 de maio, mas manteve restrições à circulação dentro da sede do poder argentino.
A combinação de inflação persistente, queda na produção industrial, denúncias de corrupção e tensão institucional mantém o governo Javier Milei sob pressão e amplia as incertezas sobre os próximos passos da economia argentina.
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