Brasil / Comércio
Lula e Trump retomam diálogo e Planalto vê espaço para renegociar tarifas após eleição
Telefonema reabre negociação entre Brasil e EUA, mas avaliação no governo é de que mudanças no tarifaço dificilmente ocorrerão antes das eleições de outubro
23/08/2026
08:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
A retomada do diálogo direto entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump abriu uma nova frente para tentar reduzir as tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros. Apesar da aproximação, integrantes do governo brasileiro avaliam que uma mudança significativa nas alíquotas antes das eleições presidenciais de outubro é pouco provável.
Lula e Trump conversaram por telefone na sexta-feira (21), por iniciativa do presidente brasileiro. De acordo com o Palácio do Planalto, o republicano concordou com a retomada das negociações comerciais e defendeu que representantes dos dois governos voltem a discutir o assunto rapidamente.
“O presidente Trump concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que equipes dos dois países voltassem a se reunir o mais brevemente possível”, informou o governo brasileiro após a ligação.
O principal resultado prático apareceu logo depois. O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, entrou em contato com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e uma reunião por videoconferência foi acertada para a próxima semana.
O diálogo comercial estava praticamente interrompido desde que investigações conduzidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) resultaram em tarifas adicionais de 25% e 12,5% sobre produtos brasileiros.
Quando uma mercadoria é alcançada simultaneamente pelas duas medidas, a sobretaxa pode chegar a 37,5%.
A tarifa adicional de 25%, direcionada especificamente ao Brasil, foi fundamentada pelo governo norte-americano em acusações de práticas comerciais consideradas desleais. A cobrança de 12,5%, que alcança o Brasil e outras 59 economias, está relacionada a alegações de insuficiência no combate ao trabalho forçado em determinadas cadeias produtivas.
O governo brasileiro contesta os argumentos utilizados por Washington e sustenta que há componente político na imposição das barreiras comerciais. Brasília também destaca que os Estados Unidos mantêm superávit no comércio bilateral.
A crise produziu declarações duras dos dois lados. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, acusou Lula de não negociar de boa-fé. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, reagiu classificando as declarações como “grosseiras e arrogantes”.
Apesar da reabertura do canal de negociação, auxiliares de Lula não trabalham com a expectativa de retirada imediata das tarifas.
A avaliação no governo é de que a proximidade das eleições brasileiras torna a administração norte-americana mais cautelosa na definição de uma política comercial de longo prazo para o Brasil.
Nesse cenário, o resultado das urnas em 4 de outubro poderá influenciar os próximos movimentos entre Brasília e Washington.
Caso Lula seja reeleito, interlocutores do governo brasileiro acreditam que o canal restabelecido com Trump poderá ser utilizado para uma negociação mais ampla sobre as tarifas. Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL), por outro lado, produziria uma configuração política diferente na relação com a Casa Branca.
Essas projeções representam avaliações políticas de integrantes do governo brasileiro, e não compromissos assumidos pela administração Trump.
Segundo relatos de integrantes do governo brasileiro, o telefonema teve duração de aproximadamente uma hora e 20 minutos e foi considerado cordial.
Trump teria elogiado a trajetória política de Lula e sinalizado que o brasileiro poderia procurar diretamente o presidente norte-americano quando julgasse necessário.
A manutenção desse canal é vista pelo Planalto como instrumento para diminuir tensões e demonstrar disposição para negociar, mesmo sem perspectiva de solução imediata para o conflito comercial.
Além das tarifas, Lula levou à conversa questões relacionadas ao combate ao crime organizado e aos conflitos internacionais, incluindo as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.
As eleições brasileiras também apareceram no telefonema. Conforme interlocutores do governo, Trump abordou o assunto no início da conversa e perguntou sobre a preparação do país para a votação de outubro.
Lula respondeu que o processo ocorre normalmente, mencionou a existência de vários candidatos à Presidência e defendeu a segurança do sistema eleitoral brasileiro.
Segundo os relatos divulgados após a conversa, Trump não aprofundou o tema.
O assunto é tratado com atenção em Brasília. No fim de julho, o Itamaraty negou vistos a dois oficiais norte-americanos que pretendiam realizar uma missão relacionada ao processo eleitoral brasileiro. O governo brasileiro busca evitar que divergências sobre as eleições provoquem uma nova deterioração das relações bilaterais.
A reunião prevista entre as equipes comerciais será o primeiro teste concreto da aproximação entre Lula e Trump. O encontro poderá indicar até onde Washington está disposto a rever as medidas e quais contrapartidas serão colocadas sobre a mesa.
Por enquanto, a principal mudança é diplomática: depois de um período de tensão, Brasil e Estados Unidos voltaram a negociar diretamente.
Para os setores brasileiros atingidos pelas sobretaxas, entretanto, o efeito econômico imediato ainda é limitado. Enquanto não houver uma decisão formal do governo norte-americano, permanecem em vigor as tarifas adicionais, e exportadores continuam submetidos aos custos que desencadearam a disputa comercial entre os dois países.
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