Política / Eleições
Polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro reduz espaço para terceira via em 2026
Pesquisa Quaest mostra Lula com 39% e Flávio com 33%, enquanto nomes alternativos ainda não conseguem romper a disputa entre dois polos
16/05/2026
09:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
A disputa presidencial de 2026 começa a repetir um padrão conhecido da política brasileira: dois nomes concentrando a maior parte das intenções de voto e candidatos alternativos tentando encontrar espaço em meio à polarização. Pesquisa Quaest divulgada na última quarta-feira, 13 de maio, mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) distantes dos demais pré-candidatos.
No cenário de primeiro turno, Lula aparece com 39%, enquanto Flávio Bolsonaro registra 33%. Bem atrás, Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) aparecem com 4% cada, e Renan Santos (Missão) soma 2%. Para especialistas, os números indicam que a chamada terceira via ainda não conseguiu se apresentar como alternativa competitiva.
Segundo a Quaest, cerca de 32% dos eleitores brasileiros se declaram independentes, ou seja, não se identificam nem como lulistas, nem como bolsonaristas, nem como eleitores de esquerda ou direita. Mesmo assim, esse grupo ainda não se traduz em força eleitoral suficiente para impulsionar uma candidatura fora dos dois principais campos políticos.
O diretor da Quaest, Felipe Nunes, avalia que a polarização segue dominante. Para ele, a divisão entre o campo ligado ao lulismo e o campo associado ao bolsonarismo já concentra a maior parte das intenções de voto neste momento. O pesquisador também aponta que a falta de coordenação entre partidos e lideranças dificulta a consolidação de uma candidatura alternativa.
Na prática, diferentes nomes acabam tentando ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Em 2026, Ronaldo Caiado e Romeu Zema buscam ampliar projeção nacional, mas ainda disputam um eleitorado majoritariamente anti-Lula, sem conseguir se firmar como opção independente de fato.
As diferenças entre os dois apareceram nas reações ao caso envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, citado em negociações para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Enquanto Zema classificou a conduta como “imperdoável” e “um tapa na cara”, Caiado afirmou que o senador precisa dar explicações, mas defendeu manter o foco na união da direita contra Lula.
Para o cientista político Murilo Mendes, da Universidade de Brasília (UnB), Caiado tenta construir uma candidatura “antissistema moderada”, combinando discurso crítico ao establishment com experiência administrativa. Já Zema busca reforçar a imagem de outsider, com uma postura mais dura de enfrentamento ao sistema político tradicional.
A ex-ministra Marina Silva, que ficou em terceiro lugar nas eleições presidenciais de 2010 e 2014, avalia que candidaturas como as de Caiado e Zema não representam mudança substantiva em relação ao bolsonarismo. Para ela, esses nomes reproduzem elementos centrais do mesmo campo político, especialmente nas agendas econômica, social e ambiental.
Marina Silva também relativiza o uso do termo terceira via. Segundo ela, suas candidaturas no passado buscavam apresentar uma nova visão de desenvolvimento para o país, com base em sustentabilidade e inclusão, mas o avanço da polarização acabou limitando esse projeto.
O histórico eleitoral brasileiro reforça a dificuldade desse caminho. Desde a redemocratização, nenhum candidato apresentado como terceira via venceu uma eleição presidencial. Em 1989, a primeira disputa direta após a ditadura militar teve 22 candidatos, mas a reta final ficou concentrada entre Fernando Collor (PRN), Lula (PT) e Leonel Brizola (PDT). Lula avançou por margem apertada ao segundo turno e foi derrotado por Collor, por 53% a 46%.
Nos anos seguintes, consolidou-se o modelo de disputa entre dois protagonistas. De 1994 a 2014, o confronto presidencial foi marcado principalmente pela polarização entre PT e PSDB. Em 2014, Marina Silva, então no PSB, chegou perto de disputar o segundo turno após assumir a candidatura no lugar de Eduardo Campos, mas terminou fora da etapa final, que novamente opôs Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB).
Os melhores desempenhos de candidaturas alternativas no período recente foram de Marina Silva, com 21,3% dos votos em 2014, e Anthony Garotinho (PSB), com 17,8% em 2002. Em 2018 e 2022, nomes como Ciro Gomes e Simone Tebet ficaram distantes dos dois primeiros colocados.
A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, encerrou o ciclo de duas décadas de disputas presidenciais entre PT e PSDB. A partir daquele pleito, o bolsonarismo passou a ocupar o espaço de principal oposição ao campo lulista, substituindo os tucanos como polo dominante da direita nacional.
Para o empresário João Amoêdo, fundador do Novo e candidato à Presidência em 2018, o espaço para candidaturas de centro encolheu porque os partidos priorizam a ampliação de bancadas e o acesso a recursos públicos, como Fundo Partidário, Fundo Eleitoral e emendas parlamentares. Ele deixou o Novo após apoiar Lula em 2022, decisão que justificou como necessária diante do que considerava risco institucional em um eventual segundo mandato de Bolsonaro.
Especialistas avaliam que a terceira via enfrenta três obstáculos principais em 2026: a força da polarização, a fragmentação de nomes alternativos e a descrença de parte do eleitorado no sistema político. Para Felipe Nunes, muitos eleitores dizem querer alguém fora da polarização, mas também fora da política tradicional. Esse perfil ajuda a explicar o crescimento de nomes com discurso outsider em disputas recentes.
O cientista político Fernando Schuler, professor do Insper, afirma que as eleições brasileiras das últimas três décadas seguiram a lógica de dois campos fortes, com visões opostas de país, programas de governo e valores. Esse ambiente, segundo ele, torna mais difícil o surgimento de uma candidatura alternativa viável.
O historiador Herbert Anjos também vê o cenário pós-2018 como um fator de estreitamento eleitoral. Para ele, a ascensão da extrema direita, os ataques às urnas eletrônicas, os questionamentos ao funcionamento dos Poderes e a defesa de discursos golpistas criaram uma unidade em torno de Lula entre setores que veem o atual presidente como barreira institucional contra retrocessos democráticos.
Com isso, a eleição de 2026 tende a manter, ao menos por enquanto, a lógica de confronto direto entre lulismo e bolsonarismo. Embora exista um eleitorado que rejeita os dois polos, os dados disponíveis mostram que nenhuma candidatura alternativa conseguiu transformar essa insatisfação em intenção de voto suficiente para ameaçar os líderes da corrida presidencial.
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