Política / Investigação
Contrato liga Eduardo Bolsonaro à gestão financeira do filme sobre Jair Bolsonaro, aponta reportagem
Documentos e mensagens obtidos pelo Intercept Brasil indicam que ex-deputado atuou como produtor-executivo de “Dark Horse” e participou de tratativas sobre financiamento
15/05/2026
18:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) aparece como produtor-executivo do filme “Dark Horse”, produção biográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, com atribuições ligadas à gestão financeira e à captação de recursos do projeto, segundo contrato e diálogos obtidos pelo Intercept Brasil.
Os documentos citados pela reportagem contradizem declarações feitas por Eduardo Bolsonaro em publicação no Instagram, na qual ele afirmou ter apenas cedido direitos de imagem e negou exercer função de gestão na produção. Conforme o material divulgado, o ex-parlamentar teria sido colocado em posição de influência sobre decisões estratégicas do filme, inclusive em temas relacionados a orçamento e financiamento.
O contrato de produção, datado de novembro de 2023 e assinado digitalmente por Eduardo Bolsonaro em 30 de janeiro de 2024, apresenta a empresa GoUp Entertainment, sediada nos Estados Unidos, como produtora. O mesmo documento cita Eduardo Bolsonaro e o deputado federal Mario Frias (PL-SP) como responsáveis pela produção-executiva.
Na época, o projeto era identificado como “O Capitão do Povo”, antes de receber o nome “Dark Horse”. O contrato também menciona que Jair Bolsonaro cedeu os chamados “direitos de história de vida” para a realização da produção.
De acordo com o documento, a produtora e os produtores-executivos atuariam em conjunto em atividades de desenvolvimento do filme, incluindo discussões estratégicas sobre o financiamento, preparação de informações e documentos para investidores, identificação de fontes de recursos, créditos e incentivos fiscais, colocação de produtos e patrocínios.
A reportagem afirma que o contrato atribui a Eduardo Bolsonaro, ao lado da GoUp Entertainment e de Mario Frias, responsabilidades sobre como os recursos seriam captados e utilizados. O material, no entanto, não informa quem executou, na prática, cada uma dessas funções.
O Intercept Brasil informou ter enviado questionamentos a Eduardo Bolsonaro e ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mas não obteve resposta até a publicação da reportagem. A defesa de Mario Frias afirmou que Eduardo Bolsonaro “não é e nunca foi produtor-executivo da produção do filme Dark Horse” e que ele “nunca recebeu qualquer quantia do fundo de investimento cujo produto privado final é o filme”.
A defesa do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, informou que não se manifestaria sobre o tema. Já a defesa de Jair Bolsonaro disse que o ex-presidente não poderia se manifestar por estar preso e alegou não ter acesso a ele, pois as visitas dos advogados estariam restritas.
Além do contrato, a reportagem cita uma troca de mensagens entre o empresário Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, e o banqueiro Daniel Vorcaro, datada de 21 de março de 2025. Segundo o material, Miranda teria atuado como intermediário entre Vorcaro, a família Bolsonaro e Mario Frias nas tratativas relacionadas ao filme.
Em uma das mensagens encaminhadas a Vorcaro, Miranda envia uma captura de tela de conversa recebida de Eduardo Bolsonaro e afirma que estaria preparando um aditivo de troca de empresa, pedindo direcionamento para seguir.
Na mensagem atribuída a Eduardo Bolsonaro, ele sugere que seria melhor que os recursos já estivessem nos Estados Unidos, afirmando que transferências internas no país seriam mais simples. O texto também menciona que, caso uma empresa brasileira precisasse enviar valores aos EUA sem grande orçamento, o processo poderia ser problemático e demorar cerca de seis meses.
Em seguida, segundo o material obtido pelo Intercept Brasil, Eduardo teria sugerido enviar “o máximo possível” pelo sistema então utilizado, com o mesmo remetente. A reportagem aponta que não é possível precisar a data em que a mensagem foi enviada por Eduardo a Miranda, mas o encaminhamento a Vorcaro indica que isso ocorreu em março de 2025, mês em que Eduardo anunciou licença do mandato para permanecer nos Estados Unidos.
Procurado pela reportagem, Thiago Miranda afirmou que não teve função na produção, divulgação, gestão financeira ou estratégia de lançamento de “Dark Horse”, dizendo que sua participação se limitou a intermediar o contato entre um possível investidor e os interessados no projeto.
Outro documento mencionado pela reportagem é uma minuta de aditivo contratual, datada de fevereiro de 2024, que qualifica Eduardo Bolsonaro como financiador do filme e autoriza o uso de recursos financeiros que ele viesse a investir no projeto. Não há confirmação, segundo o material, de que o aditivo tenha sido efetivamente assinado.
Para o Intercept Brasil, a existência dessa minuta reforça a contradição com a versão apresentada por Eduardo, de que sua participação teria se limitado à cessão de direitos de imagem.
A GoUp Entertainment, produtora do filme, é uma empresa sediada na Flórida. De acordo com a reportagem, a companhia tem como sócios a brasileira Karina Ferreira da Gama e Michael Brian Davis, brasileiro naturalizado norte-americano.
O material também cita que Karina Gama é ligada ao Instituto Conhecer Brasil, organização que recebeu pelo menos R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para operar um contrato de Wi-Fi público. O contrato passou a ser investigado pelo Ministério Público desde março, conforme informado na reportagem.
A reportagem também menciona que, nesta sexta-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, determinou abertura de apuração preliminar para verificar eventual direcionamento de emendas parlamentares a projetos culturais, incluindo o filme “Dark Horse”.
O caso ganhou mais repercussão após a informação de que o STF tenta intimar Mario Frias para prestar esclarecimentos sobre possíveis irregularidades na execução de recursos de emendas destinados ao Instituto Conhecer Brasil. Segundo a reportagem, o parlamentar teria destinado R$ 2 milhões à organização.
O Intercept Brasil informou que também enviou questionamentos a Karina Gama e Michael Brian Davis, mas não recebeu resposta até a publicação do material.
O caso se conecta às revelações anteriores sobre a participação do banqueiro Daniel Vorcaro no financiamento de “Dark Horse”. Segundo a reportagem, o senador Flávio Bolsonaro articulou apoio financeiro de Vorcaro para a produção do filme sobre Jair Bolsonaro.
Vorcaro teria se comprometido a repassar US$ 24 milhões, valor equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões à época. Desse total, ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações destinadas ao projeto cinematográfico.
A Polícia Federal apura se parte dos recursos destinados ao filme teria custeado despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Em publicação nas redes sociais, o ex-deputado negou ter recebido dinheiro negociado para a produção.
O material analisado pelo Intercept Brasil aponta ainda que parte dos valores negociados por Flávio Bolsonaro junto a Daniel Vorcaro teria sido encaminhada a um fundo controlado por aliados de Eduardo, incluindo Paulo Calixto, advogado responsável pelo processo imigratório do ex-deputado nos Estados Unidos.
As informações ampliam a pressão política sobre a família Bolsonaro e colocam o financiamento de “Dark Horse” no centro de apurações envolvendo contratos, recursos privados, eventuais emendas parlamentares e a atuação de personagens ligados ao Banco Master.
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