Política / Justiça
Produtora de filme sobre Bolsonaro tem ligações com entidades que receberam emendas e contrato de R$ 108 milhões
Go Up nega uso de dinheiro público no longa “Dark Horse”, enquanto empresas ligadas à sócia Karina Gama aparecem em convênio com a Prefeitura de São Paulo e emendas de deputados do PL
14/05/2026
13:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A produtora responsável pelo filme “Dark Horse”, longa-metragem sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), nega ter recebido dinheiro público para financiar a obra. No entanto, empresas e entidades ligadas à sócia-administradora da produtora, Karina Gama, aparecem em uma rede abastecida por emendas parlamentares de deputados do PL e por um convênio de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo, na gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
O tema ganhou força após a revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, pediu recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar o filme sobre o pai. Ao justificar o pedido, Flávio afirmou que o projeto teria “zero de dinheiro público”.
A Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”, tem como sócia-administradora Karina Gama, que também controla outras empresas e entidades do setor cultural beneficiadas por verbas públicas destinadas por parlamentares do Partido Liberal, entre eles o deputado federal Mário Frias (PL-SP).
Uma das entidades presididas por Karina Gama, o Instituto Conhecer Brasil, firmou termo de colaboração para receber R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo. O contrato, revelado pelo The Intercept Brasil, prevê a instalação de pontos de internet wi-fi em comunidades de baixa renda, após chamamento público realizado em 2024.
A gestão de Ricardo Nunes afirmou que a contratação do instituto para instalação de 5 mil pontos do Wi-Fi Livre foi feita por meio de chamamento público transparente e sem contestações.
Segundo a prefeitura, a organização cumpriu todas as exigências do edital. A administração municipal informou ainda que o serviço está em andamento, com 3.200 pontos de wi-fi implementados e outros 1.800 previstos para 2026.
A Go Up afirma que o filme sobre Jair Bolsonaro não recebeu recursos de pessoas ou empresas brasileiras, sejam públicos ou privados. A produtora também nega que Daniel Vorcaro tenha repassado qualquer valor à produção do longa-metragem.
Segundo a empresa, o financiamento do filme vem de mais de dez investidores estrangeiros. A produtora, porém, informou que não pode revelar os nomes dos financiadores por causa de acordo de confidencialidade.
Além da Go Up, Karina Gama aparece associada a outras três empresas do ramo cultural. Conforme os dados oficiais da Receita Federal, elas têm o mesmo endereço e telefone fixo. O local, porém, abriga a Gowork, empresa que oferece escritório virtual e endereço fiscal para recebimento de correspondências.
A Gowork afirmou que a produtora não tem relação com o endereço e que apenas o Instituto Conhecer Brasil é cliente do serviço. A Go Up negou irregularidades e declarou que suas documentações estão regulares junto aos prestadores de serviço.
O Instituto Conhecer Brasil também recebeu R$ 2 milhões em emendas do deputado federal Mário Frias, em 2025, para projetos de letramento digital e incentivo ao esporte.
Frias afirmou que os recursos foram destinados a projetos sociais estruturados e supervisionados por órgãos federais. O deputado negou qualquer relação entre essas emendas e o filme “Dark Horse”.
O parlamentar também atua no projeto do longa-metragem, para o qual contribuiu com argumento inicial, atuação e produção executiva. Segundo ele, sua participação ocorreu especialmente na articulação internacional e na captação de investimento privado e estrangeiro para o setor audiovisual brasileiro.
Frias também foi citado pelo The Intercept Brasil como possível intermediário nos contatos com Daniel Vorcaro, mas endossou a versão da produtora e negou a existência de repasses do banqueiro para o filme.
Outra entidade ligada a Karina Gama, a Academia Nacional de Cultura (ANC), teve R$ 2,6 milhões em emendas destinadas por deputados federais do PL.
Entre os parlamentares citados estão Marcos Pollon (PL-MS), Bia Kicis (PL-DF), Carla Zambelli, então deputada pelo PL de São Paulo, e Alexandre Ramagem, que exercia mandato pelo PL do Rio de Janeiro.
Segundo revelação do UOL, os recursos foram repassados em 2024, por meio de emenda Pix, para o Estado de São Paulo, tendo como destino final a ANC para realização de uma série sobre heróis nacionais.
A assessoria de Marcos Pollon informou que a emenda do parlamentar, no valor de R$ 1 milhão, foi redirecionada para uma instituição oncológica depois que o projeto não cumpriu os requisitos necessários. O deputado afirmou que não houve destinação de recursos para finalidade diferente da apresentada formalmente e que as emendas seguiram os critérios legais.
Bia Kicis afirmou que sua emenda, de R$ 150 mil, nem sequer foi paga até o momento. A deputada disse que o projeto tinha natureza cultural e educativa, voltada à valorização da história nacional e ao fortalecimento da economia criativa.
Ela também negou ter destinado emenda parlamentar para a produção de filme ou qualquer conteúdo audiovisual relacionado à vida de Jair Bolsonaro.
O Governo de São Paulo, comandado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), informou que as emendas destinadas à série sobre heróis nacionais estão integralmente sem execução por causa de diligências em andamento para sanar restrições técnicas e pendências documentais relacionadas ao beneficiário.
Segundo o governo paulista, não houve empenho, liquidação nem pagamento dos valores. Os recursos permanecem preservados, contabilmente identificados e vinculados à finalidade original. Caso as pendências não sejam resolvidas, os valores deverão ser devolvidos.
As conexões entre entidades ligadas a Karina Gama, emendas parlamentares e convênio com a Prefeitura de São Paulo motivaram uma representação da deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) no Supremo Tribunal Federal (STF).
A representação questiona os aportes públicos feitos pela prefeitura e por parlamentares a organizações ligadas à empresária. O caso passou a ser analisado no STF em meio às novas suspeitas envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse”.
Outra empresa vinculada a Karina Gama, a Conhecer Brasil Assessoria Produção e MKT Cultural, recebeu R$ 54 mil da campanha eleitoral de Mário Frias em 2022.
Segundo o deputado, a prestação de contas foi analisada e aprovada pelos órgãos competentes. Frias afirmou que não há relação entre esses serviços, projetos sociais ou produções audiovisuais, e que cada contratação seguiu as regras legais aplicáveis ao processo eleitoral.
A Go Up informou que a estreia comercial de “Dark Horse” ainda está em fase de definição. As gravações foram encerradas em dezembro, em São Paulo.
O filme conta com o ator norte-americano Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus em “A Paixão de Cristo”, no papel de Jair Bolsonaro. A direção é de Cyrus Nowrasteh, cineasta norte-americano de origem iraniana, conhecido por obras de temática religiosa.
A produtora mantém a versão de que o longa foi financiado com capital estrangeiro privado e sem uso de dinheiro público. As conexões com entidades que receberam verbas públicas, porém, seguem sob questionamento político e jurídico.
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