Política / Justiça
STF vê impacto político em áudio de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, mas não descarta investigação
Ministros avaliam que pedido de patrocínio para filme sobre Jair Bolsonaro pode ter desgaste eleitoral, enquanto ala da Corte defende apuração sobre destino dos recursos
14/05/2026
08:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) avaliam, nos bastidores, que a revelação de um áudio em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, deve provocar inicialmente um desgaste político para o parlamentar. Integrantes da Corte, porém, não descartam a possibilidade de desdobramentos criminais, a depender do avanço das apurações.
O caso envolve uma suposta negociação de patrocínio para o filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O áudio foi divulgado pelo site The Intercept Brasil e mostra Flávio cobrando apoio financeiro de Vorcaro para o projeto.
A avaliação reservada de três ministros do Supremo é de que, neste primeiro momento, o material conhecido até agora não permite concluir, por si só, a prática de crime apenas pelo pedido de financiamento. Um dos magistrados ouvidos considera que, se a negociação tratava de patrocínio privado com eventual participação do patrocinador na bilheteria, o episódio tende a ter maior impacto político do que jurídico.
“Se for, como dizem, um pedido de patrocínio para o filme com promessa de participação do patrocinador na bilheteria, não vejo problema. Mas acho que causa algum estrago político”, afirmou um ministro do STF.
Apesar dessa primeira leitura, uma ala do Supremo entende que alguns pontos precisam ser esclarecidos antes de qualquer conclusão. Para esses ministros, há espaço para uma eventual investigação criminal caso surjam indícios de que o dinheiro prometido não tenha sido destinado ao filme ou de que tenha havido alguma contrapartida política em favor de Daniel Vorcaro.
O principal ponto de atenção é saber se os valores teriam sido efetivamente encaminhados à produção cinematográfica, se foram direcionados a outro destino ou se houve tentativa de obter vantagem indevida a partir da aproximação com o senador.
Também está sob observação a possibilidade de apuração sobre eventual atuação de Flávio Bolsonaro para favorecer o banqueiro em troca do patrocínio. Até o momento, o senador nega qualquer irregularidade.
Segundo o The Intercept Brasil, o contrato de patrocínio relacionado ao filme teria valor total de R$ 134 milhões. Desse montante, R$ 61 milhões teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações.
Além do áudio, Flávio também teria cobrado Vorcaro por mensagens de texto. Uma delas, conforme a reportagem, foi enviada em 16 de novembro de 2025, um dia antes da primeira prisão do banqueiro e dois dias antes da liquidação do Banco Master.
A produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse”, afirmou em nota que a produção não recebeu “um único centavo” proveniente de Daniel Vorcaro.
A declaração aumentou as dúvidas sobre o destino dos supostos recursos. Para ministros que defendem uma investigação, a negativa da produtora torna necessário esclarecer se houve pagamento, para quem os valores foram enviados e qual foi a finalidade real da operação.
O deputado federal Mário Frias (PL-SP), produtor executivo do filme, também se manifestou sobre o caso. Em nota, ele afirmou que Flávio Bolsonaro não tinha sociedade na produção nem participação na produtora.
Segundo Frias, o papel do senador teria se limitado à cessão dos direitos de imagem da família Bolsonaro e ao peso político e público do sobrenome na busca por investidores interessados em financiar o projeto.
A explicação, no entanto, não afastou totalmente as dúvidas dentro do STF. Para parte dos ministros, a ausência de vínculo formal de Flávio com a produtora reforça a necessidade de entender em que condição o senador negociava valores com o banqueiro.
Em nota divulgada à imprensa, Flávio Bolsonaro confirmou que pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, mas negou ter recebido qualquer vantagem indevida. O senador afirmou que a conversa mostra apenas “um filho procurando patrocínio privado para um filme privado” sobre a história do pai.
Flávio também disse que conheceu Vorcaro em dezembro de 2024, antes das acusações envolvendo o Banco Master, e que retomou contato com o banqueiro em 2025 por causa do atraso no pagamento das parcelas do patrocínio.
O episódio ocorre em meio ao avanço das investigações relacionadas à Operação Compliance Zero, que apura suspeitas envolvendo o Banco Master, movimentações financeiras e possíveis irregularidades no sistema financeiro. Daniel Vorcaro está no centro das apurações conduzidas pela Polícia Federal.
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