Política / Congresso
Alcolumbre busca reunião com Lula para recompor relação após derrota de Messias no Senado
Presidente do Senado tenta sinalizar trégua após rejeição de indicado ao STF, enquanto governo avalia mudanças na articulação política
08/05/2026
07:15
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), manifestou a emissários do governo o interesse em conversar pessoalmente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O movimento ocorre após a derrota sofrida pelo Planalto na Casa, com a rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF).
A intenção de Alcolumbre, segundo interlocutores, é “passar a régua” no episódio e reconstruir a relação com o governo. O presidente do Senado tem afirmado que não trabalhou contra a indicação de Messias e que o resultado da votação refletiu uma insatisfação interna da Casa, risco que, de acordo com ele, já havia sido alertado ao Palácio do Planalto.
O recado enviado ao governo é de que Alcolumbre não pretende prejudicar o Executivo, nem travar propostas de interesse do Planalto ou pautar matérias consideradas indigestas sem aviso prévio.
Até a rejeição de Jorge Messias, Davi Alcolumbre era visto no governo como o presidente de uma Casa que vinha oferecendo menos resistência à agenda de Lula. O senador amapaense tem sinalizado que ainda pretende manter uma relação de cooperação com o Planalto.
A aliados do Centrão, Alcolumbre afirmou que buscava apenas abrir um canal de interlocução com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário político de Lula na disputa presidencial, sem aderir formalmente à oposição.
Do lado do governo, Lula também tem demonstrado cautela para não romper com o presidente do Senado. Após a derrota na indicação ao STF, o presidente teria orientado auxiliares a tratar o episódio como “vida que segue”.
Na tentativa de medir o clima político, o ministro da Defesa, José Mucio, reuniu-se com Alcolumbre na terça-feira (5). No dia seguinte, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, almoçou com o chefe do Legislativo.
No Senado, Alcolumbre também tem conversado com aliados de Lula, entre eles o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), com quem esteve nesta quinta-feira (7).
Dentro do Planalto, uma das possibilidades discutidas para melhorar o desempenho do governo na Casa é a troca de lideranças. Há aliados que defendem o afastamento de Randolfe Rodrigues, tanto pela proximidade política dele com Alcolumbre no Amapá quanto pela necessidade de dedicação à própria campanha de reeleição.
O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), também enfrenta resistências. Alcolumbre rompeu relações com o petista durante o processo de indicação de Messias, e uma ala governista avalia que seria difícil mantê-lo na liderança sem uma interlocução direta com o presidente do Senado.
A reaproximação é considerada importante porque o governo tem propostas estratégicas paradas ou em tramitação no Senado. Entre elas estão a PEC do SUAS, que trata do Sistema Único de Assistência Social, e a PEC da Segurança Pública.
Também aguarda análise dos senadores o projeto que regulamenta a exploração de minerais críticos no Brasil, as chamadas terras raras, tema considerado relevante para a política industrial e para a relação do país com parceiros internacionais.
Outra pauta de interesse do governo é a proposta que acaba com a escala 6x1, apontada como uma das prioridades legislativas do Planalto em ano eleitoral. A PEC ainda está na Câmara e deve ser votada até o fim de maio. Caso avance, precisará passar pelo Senado, onde o ritmo de tramitação dependerá diretamente da condução de Alcolumbre.
O calendário também preocupa o governo. A partir de junho, a tendência é de maior dificuldade para votação de temas sensíveis, em razão da intensificação da pré-campanha e do início da Copa do Mundo.
Apesar dos movimentos de aproximação, a relação entre o governo e Davi Alcolumbre foi descrita por um ministro de Lula como uma fase “abrasiva”. A avaliação é que há esforço dos dois lados para evitar uma ruptura, mas o ambiente ainda exige cautela.
Ao mesmo tempo, o envolvimento de lideranças do Centrão no caso do Banco Master deve ser explorado politicamente pelo PT na disputa presidencial.
No entorno de Lula, a estratégia em relação à rejeição de Messias deve incluir o argumento de que adversários do presidente teriam se articulado com setores do STF para barrar o avanço das investigações, prejudicando um indicado evangélico ao Supremo.
A associação de nomes do campo bolsonarista e de dirigentes partidários ao caso Banco Master também ameaça gerar novos atritos. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, pivô do escândalo, teria se reunido com Davi Alcolumbre em 2025, na residência oficial do Senado, segundo diálogos encontrados em um dos celulares apreendidos pela Polícia Federal.
Outro ponto sensível envolve a Amprev (Amapá Previdência), gestora do regime próprio de previdência do Estado, que aplicou R$ 400 milhões em títulos de alto risco do banco. A instituição era comandada por Jocildo Silva Lemos, alvo da PF em fevereiro e apontado como afilhado político de Alcolumbre.
A tentativa de diálogo entre Lula e Alcolumbre ocorre em um momento em que o governo precisa reorganizar sua articulação no Senado para evitar novas derrotas. A rejeição de Jorge Messias expôs fragilidades na relação do Planalto com a Casa e reacendeu cobranças por mudanças na condução política.
Embora Alcolumbre sinalize disposição para retomar a convivência institucional, o governo ainda avalia ajustes para garantir apoio a pautas consideradas prioritárias. O resultado dessa reaproximação poderá influenciar diretamente a tramitação de propostas econômicas, sociais e de segurança pública nos próximos meses.
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