Política / Investigação
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz: cinco pontos que ligam senador a advogado investigado pela PF
Relação envolve negócios no setor de apostas, viagens internacionais, disputa por imóvel de luxo e endereços empresariais. Ambos negam irregularidades.
26/10/2026
18:45
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
A relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o advogado Willer Tomaz passou a ocupar o centro de investigações da Polícia Federal (PF) sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e possíveis vínculos empresariais no setor de apostas. A aproximação, identificada desde 2019, envolve viagens internacionais, negócios, endereços compartilhados e uma disputa judicial por uma propriedade de luxo em Angra dos Reis (RJ).
Derrotado na eleição presidencial de domingo (25 de outubro), Flávio foi intimado a entregar seus passaportes comum e diplomático e ficou proibido de deixar o Brasil por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A decisão também impede o senador de manter contato com Willer Tomaz, investigado por suspeita de lavagem de dinheiro e citado em apurações relacionadas à Operação Sem Desconto, que investiga fraudes em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
As medidas judiciais são cautelares e não representam condenação. Tanto Flávio quanto Willer negam irregularidades e sustentam que a relação entre suas famílias é de amizade.
A seguir, cinco pontos que ajudam a compreender os vínculos identificados em reportagens e investigações.
Um dos principais elementos examinados pela Polícia Federal é a identificação de Flávio Bolsonaro como usuário master de uma conta bancária empresarial da Alcazar Holdings, companhia ligada a Willer Tomaz e registrada na Ilha da Madeira, em Portugal.
A informação foi divulgada pelo UOL e confirmada pela Folha de S.Paulo.
Segundo reportagem da revista piauí, a Alcazar pode ter financiado a Cathedral Holdings, empresa portuguesa que controla a Rede Loto, responsável pela plataforma de apostas BestBet.
A Rede Loto foi constituída em 17 de fevereiro de 2023, aproximadamente dois meses antes do início do processo de licenciamento de plataformas de apostas pelo governo do Rio de Janeiro.
A autorização para a operação foi concedida pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), então presidida por Hazenclever Cançado, nomeado pelo governador Cláudio Castro. Segundo as reportagens, a indicação contou com a participação de Flávio Bolsonaro.
Hazenclever também havia atuado profissionalmente com Willer Tomaz.
A PF investiga a possibilidade de Flávio ter participação não declarada no negócio. A identificação do senador como usuário autorizado de uma conta empresarial, entretanto, não comprova isoladamente que ele seja proprietário da companhia ou beneficiário de operações ilícitas.
Willer e familiares aparecem como detentores da maioria das ações da Cathedral Holdings, conforme as informações empresariais citadas nas reportagens.
Em manifestação anterior, a assessoria de Flávio afirmou que a relação com o advogado é exclusivamente pessoal.
“Associar essa afinidade pessoal a suposições de irregularidades é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos”, declarou.
Outro ponto investigado envolve viagens realizadas por Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz, acompanhados de familiares, em aeronaves particulares com destinos nos Estados Unidos, Europa e África.
Um dos trajetos identificados ocorreu em janeiro de 2025, quando Flávio, sua esposa, duas filhas e Willer viajaram de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília.
O deslocamento foi realizado em um jato Legacy 650, de prefixo PP-NLR, pertencente à Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., empresa controlada pela Prime You.
A Prime You foi fundada por Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master.
Segundo os investigadores, a aeronave também aparece em informações relacionadas a uma suspeita de tentativa de deslocamento de Willer para Dubai.
O advogado afirmou que custeou a viagem utilizando horas disponíveis de sua própria cota de utilização da aeronave e que os demais passageiros viajaram como convidados.
Reportagens também apontaram que uma empresa controladora da BestBet pagou passagens de Flávio entre Portugal e França, em 2025.
O compartilhamento de viagens é um dos elementos analisados pela PF para verificar a natureza da relação entre os dois, mas não constitui, por si só, prova de participação em irregularidades financeiras.
A ligação entre Flávio e Willer também aparece em uma disputa judicial envolvendo uma propriedade na região de Angra dos Reis (RJ), avaliada em aproximadamente R$ 10 milhões.
Flávio visitou o local em julho de 2020. Desde 2022, os direitos de ocupação da propriedade estão vinculados a uma empresa de gestão imobiliária ligada a Willer Tomaz.
O imóvel é disputado judicialmente pelo advogado e pelo atacante Richarlison, jogador do Tottenham e da seleção brasileira.
O atleta afirma ter adquirido direitos sobre a propriedade em 2020 e sustenta que perdeu o imóvel em decorrência de procedimentos judiciais que considera irregulares.
Em 13 de maio de 2022, uma decisão liminar reconheceu direitos de uso do espaço em favor da parte ligada a Willer.
Richarlison, porém, contesta a situação e afirma que a propriedade teria sido tomada “na mão grande”, expressão utilizada pelo jogador ao questionar as circunstâncias da transferência.
Em 17 de outubro, o atleta e seus advogados solicitaram à Polícia Federal uma investigação sobre a possível participação de Flávio Bolsonaro na disputa.
O senador nega qualquer atuação irregular e afirma que seu vínculo com Willer se limita à amizade. Ele também figura como testemunha no processo.
Willer sustenta que adquiriu legalmente os direitos sobre o imóvel e afirma ter desembolsado R$ 5 milhões para regularizar pendências fiscais da propriedade.
O advogado também contesta a legitimidade da ocupação anterior.
As versões apresentadas pelas partes são conflitantes, e a existência da disputa judicial não comprova que Flávio tenha participado de qualquer irregularidade.
Reportagens também identificaram coincidências de endereços empresariais envolvendo Flávio Bolsonaro e pessoas citadas em investigações relacionadas a Willer Tomaz.
Segundo informações divulgadas pelo ICL, a Bravo Grafeno, empresa do setor de capacetes de grafeno da qual Flávio e o ex-presidente Jair Bolsonaro são sócios, utiliza uma sala comercial em Águas Claras, no Distrito Federal.
O mesmo endereço aparece vinculado à construtora RPLD, relacionada ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.
Antunes é investigado em apurações sobre descontos associativos irregulares em benefícios previdenciários.
Outro vínculo citado envolve Alexandre Caetano dos Reis, apontado como sócio de Antunes. Sua irmã, Letícia Caetano dos Reis, ocupa cargo de direção estatutária no escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro.
O endereço desse escritório corresponde a um imóvel residencial avaliado em aproximadamente R$ 6 milhões, adquirido pelo senador, que teria realizado um pagamento de R$ 3,4 milhões ao Banco de Brasília (BRB) para quitar a propriedade.
O UOL também revelou que o escritório de advocacia de Flávio emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026.
Segundo a reportagem, aproximadamente metade do valor foi faturada para outros profissionais da advocacia.
Flávio afirmou anteriormente que reportagens sobre suas atividades profissionais representam tentativas de criminalizar o exercício da advocacia.
A utilização de endereços comuns e a existência de relações profissionais entre pessoas investigadas não demonstram automaticamente participação em crimes. Esses elementos dependem de análise conjunta com documentos financeiros e outras provas.
A relação profissional entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz também aparece em um processo envolvendo o empresário Mário Gadelha Simas Filho, ligado à Simas Industrial de Alimentos, uma das principais fabricantes brasileiras de balas e pirulitos.
A disputa judicial envolve questões societárias da companhia.
Flávio ingressou no processo em 2022, passando a representar o empresário.
Na ocasião, Willer também atuava como advogado de Mário Gadelha e não havia sido formalmente destituído da representação.
Conforme os registros processuais citados na reportagem, Flávio passou a assinar as manifestações apresentadas no caso.
A atuação dos dois profissionais em favor de um mesmo cliente demonstra uma conexão na atividade jurídica, mas não caracteriza, isoladamente, qualquer irregularidade.
As investigações ganharam novos desdobramentos às vésperas do segundo turno presidencial.
O ministro Alexandre de Moraes determinou medidas contra Willer Tomaz, incluindo a quebra de sigilos bancário, fiscal e cambial de uma holding ligada ao advogado.
Também foram determinadas restrições a passaportes e atividades econômicas de empresas relacionadas ao investigado, conforme as decisões mencionadas nas reportagens.
Em relação a Flávio Bolsonaro, a decisão estabelece a entrega dos passaportes, a proibição de deixar o país e a restrição de contato com Willer.
As determinações integram procedimentos de investigação e têm caráter cautelar.
A Polícia Federal busca esclarecer se os vínculos empresariais, financeiros e pessoais identificados nas apurações estão relacionados a eventuais operações de lavagem de dinheiro.
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam a existência de sociedade irregular e afirmam que a proximidade entre eles decorre de uma relação de amizade.
Até o momento, os elementos apresentados nas reportagens descrevem suspeitas e conexões sob investigação, não uma conclusão judicial de que o senador ou o advogado tenham cometido os crimes investigados.
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