Política / Eleições 2026
Lula promete mudar forma de governar, ampliar diálogo com a população e enfrentar interferência digital
Após reeleição com 51,79% dos votos, presidente defende participação popular, anuncia maior atuação federal na segurança e critica Flávio Bolsonaro.
26/10/2026
08:15
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, na noite de domingo (25 de outubro), que pretende mudar a forma de conduzir o governo durante seu quarto mandato, ampliando a participação popular nas decisões e fortalecendo a comunicação direta com os brasileiros. Reeleito após superar o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, Lula também criticou a atuação das plataformas digitais durante a campanha, fez acusações ao adversário e defendeu uma presença maior do governo federal na segurança pública.
O petista venceu a eleição com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, revertendo a desvantagem registrada no primeiro turno. A diferença nacional superou 4,4 milhões de votos.
Em discurso realizado em São Paulo, Lula agradeceu aos eleitores, aos integrantes da campanha e ao vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), destacando a mobilização de jovens, idosos e pessoas que enfrentaram dificuldades para comparecer às urnas.
O presidente afirmou que a campanha lhe trouxe lições sobre a relação entre governo e sociedade e sinalizou mudanças na comunicação do Palácio do Planalto.
“Essa eleição me ensinou muitas lições. Posso dizer que vamos mudar o jeito de governar esse país. Vamos fazer o povo participar mais dessas decisões”, declarou.
Uma das mudanças anunciadas por Lula envolve o uso das ferramentas digitais para manter contato frequente com a população.
Segundo o presidente, as redes sociais e outros canais eletrônicos deverão ganhar maior importância na comunicação institucional durante o próximo mandato.
“A comunicação digital vai ganhar espaço muito grande. Eu inclusive já ganhei um celular [...] e pode ficar certo que daqui para frente eu vou conversar muito com o povo diretamente todo dia”, afirmou.
Lula também agradeceu ao deputado federal André Janones (Rede-MG), que participou da mobilização digital da campanha e coordenou um grupo de WhatsApp que, segundo a organização eleitoral, reuniu mais de 10 milhões de apoiadores durante o segundo turno.
O presidente chamou Janones de “general”, em referência à atuação do parlamentar na estratégia de comunicação.
A intenção anunciada é reduzir a distância entre o governo e os cidadãos, embora o formato e os mecanismos de participação popular ainda dependam de definição.
Durante o pronunciamento, Lula afirmou que a disputa presidencial foi influenciada pela atuação de plataformas digitais e defendeu avanços na regulamentação dessas empresas.
Na avaliação do presidente, o resultado representou uma derrota de práticas que ele associou à desinformação e à disseminação de conteúdos falsos.
Lula classificou a eleição como “uma derrota do negacionismo e da mentira”.
Também relacionou a mobilização popular à defesa da soberania brasileira, mencionando o ato realizado na avenida Paulista, em São Paulo, no sábado (24).
O presidente contou que se emocionou ao ouvir os participantes cantarem um trecho do Hino da Independência.
Segundo ele, a manifestação expressou a disposição de defender a autonomia nacional diante de pressões externas.
As declarações representam a interpretação política de Lula sobre a campanha. O discurso não apresentou, nos trechos divulgados, elementos específicos que permitam atribuir a determinada plataforma uma interferência ilegal comprovada no resultado eleitoral.
Apesar de defender uma relação institucional respeitosa entre diferentes setores da sociedade, Lula fez críticas contundentes ao adversário.
O presidente afirmou que se sentiu constrangido durante os debates eleitorais e utilizou a expressão “representante do milicianismo” ao se referir a Flávio Bolsonaro.
Também mencionou supostas relações do senador com o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e com um policial citado em um episódio de violência contra uma criança.
As afirmações foram feitas por Lula no contexto da disputa eleitoral e constituem acusações políticas que exigem comprovação específica. Não devem ser interpretadas como demonstração de envolvimento criminal do senador.
Durante o discurso, Lula voltou a criticar o comportamento de seu adversário, mas também defendeu que o resultado das urnas seja respeitado independentemente das preferências políticas de cada eleitor.
Em outro momento, Lula afirmou que pretende governar respeitando a diversidade de opiniões e crenças religiosas existentes no país.
O presidente destacou a importância do Estado laico e declarou que nenhuma religião deverá receber tratamento privilegiado pelo governo federal.
“Eu não tenho preferência por nenhuma religião. Eu tenho preferência pelo respeito à fé do povo brasileiro”, afirmou.
Lula também evitou utilizar a expressão “unidade nacional” como promessa central do próximo mandato, mas defendeu a convivência democrática e o respeito às instituições.
“Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos e ele foi eleito para governar com base no respeito da Constituição”, declarou.
A manifestação ocorreu em um cenário de forte divisão eleitoral, evidenciada pela diferença de 3,58 pontos percentuais entre os dois candidatos no resultado nacional.
O presidente também comentou as dificuldades que poderá enfrentar diante da composição do Congresso Nacional a partir de 2027.
O Partido Liberal (PL), de Flávio Bolsonaro, terá as maiores bancadas individuais da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.
Lula afirmou que respeitará a escolha dos eleitores para o Legislativo e que pretende negociar com deputados e senadores para aprovar as propostas do Executivo.
“Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu. E é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas”, declarou.
A posição indica que o governo pretende buscar acordos parlamentares mesmo com partidos que fizeram oposição à candidatura petista.
A construção dessas alianças será necessária para a aprovação de projetos que dependam de maioria no Legislativo.
Outra prioridade anunciada por Lula foi a ampliação da atuação do governo federal na segurança pública.
O presidente afirmou que pretende fortalecer a participação da União no enfrentamento à criminalidade, em articulação com os estados.
A Constituição estabelece competências para os diferentes entes federativos na área, e Lula sinalizou que buscará uma presença mais ativa do Executivo federal.
“Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção; para o bandido, a gente vai dar prisão”, declarou.
O presidente não detalhou, durante o trecho divulgado do pronunciamento, quais medidas administrativas ou legislativas serão adotadas para ampliar essa atuação.
A proposta poderá envolver negociações com governadores, órgãos de segurança e parlamentares, conforme o conteúdo das iniciativas que vierem a ser apresentadas.
O segundo turno também foi marcado por denúncias de dificuldades de deslocamento de eleitores em diferentes cidades brasileiras.
Em municípios como São Paulo e Salvador, relatos de redução da oferta de transporte público levaram a campanha de Lula a solicitar a ampliação do horário de votação.
A equipe de Flávio Bolsonaro também apresentou pedido de prorrogação em localidades afetadas por chuvas e problemas de acesso às seções eleitorais.
Durante o domingo, Lula criticou a atuação de administrações municipais e afirmou que pretendia buscar responsabilização de gestores caso fossem comprovadas medidas deliberadas para impedir o exercício do voto.
“Não é possível, em pleno século 21, você ter prefeito tentando coibir o povo de exercer o seu livre direito democrático de votar”, declarou.
O presidente também mencionou a possibilidade de pedir a prisão de prefeitos que, segundo sua avaliação, tenham dificultado intencionalmente o deslocamento dos eleitores.
As suspeitas de boicote dependem de investigação e de comprovação das responsabilidades individuais.
Após pedido apresentado pela campanha petista, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a extensão do horário de votação até as 19h, pelo horário de Brasília.
A decisão ocorreu próximo do encerramento regular das urnas, às 17h, quando algumas seções eleitorais já haviam concluído o atendimento.
Posteriormente, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, esclareceu que a prorrogação deveria ser aplicada apenas às seções que ainda estivessem com as urnas abertas.
Em Salvador, a Justiça Eleitoral determinou a prisão do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, em meio aos questionamentos sobre a circulação de ônibus.
Em São Paulo, a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, pediu a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade Urbana e Transporte e do presidente da SPTrans.
O pedido, entretanto, foi negado pela Justiça.
As medidas judiciais e investigações relacionadas ao transporte constituem procedimentos distintos da totalização dos votos.
Apesar dos problemas relatados durante a votação, o segundo turno registrou redução da abstenção e dos votos inválidos em comparação com a primeira etapa da eleição.
Segundo os dados apresentados na reportagem, aproximadamente 3 milhões de eleitores que não haviam comparecido no primeiro turno participaram da votação decisiva.
A abstenção total no domingo foi de cerca de 30,4 milhões de pessoas.
O levantamento também apontou que os índices de abstenção e votos inválidos atingiram os menores níveis desde 2002, ano em que a utilização da urna eletrônica foi universalizada no país.
A maior participação eleitoral foi destacada por Lula como um dos elementos relevantes de sua vitória.
Durante o pronunciamento, Lula voltou a mencionar a manifestação realizada na avenida Paulista, no sábado anterior à eleição.
O ato reuniu apoiadores do presidente e ocupou uma extensa área da avenida, segundo os relatos divulgados pela campanha.
Lula afirmou que a participação popular superou suas expectativas e comparou a mobilização com episódios de campanhas presidenciais anteriores, incluindo a disputa de 1989.
“Não foi partido político, não foi sindicato, não foi igreja, não fui eu nem Alckmin. O povo foi pra rua para defender suas conquistas”, declarou.
O presidente afirmou que a participação dos eleitores foi decisiva para a recuperação de sua candidatura no segundo turno.
Com a vitória, Lula conquistou o direito de exercer a Presidência da República pela quarta vez.
O presidente governou o Brasil entre 2003 e 2010, retornou ao cargo em 2023 e permanecerá à frente do Executivo federal durante o mandato correspondente ao período de 2027 a 2030.
O discurso da vitória apresentou como prioridades a ampliação da participação popular, o fortalecimento da comunicação digital, a atuação federal na segurança pública e o diálogo com o Congresso.
Ao mesmo tempo, as críticas ao adversário e às plataformas digitais indicam que os conflitos registrados durante a campanha continuarão presentes no debate político.
A implementação das mudanças anunciadas dependerá das medidas que o governo apresentar, dos recursos disponíveis e da capacidade de negociação com o Legislativo.
Para o próximo mandato, Lula terá de conciliar as promessas feitas durante a campanha com a necessidade de governar um país cujo eleitorado terminou o segundo turno dividido entre duas candidaturas.
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