Campo Grande (MS), Terça-feira, 27 de Outubro de 2026

Política / Eleições 2026

Lula promete mudar forma de governar, ampliar diálogo com a população e enfrentar interferência digital

Após reeleição com 51,79% dos votos, presidente defende participação popular, anuncia maior atuação federal na segurança e critica Flávio Bolsonaro.

26/10/2026

08:15

DA REDAÇÃO

©DIVULGAÇÃO

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, na noite de domingo (25 de outubro), que pretende mudar a forma de conduzir o governo durante seu quarto mandato, ampliando a participação popular nas decisões e fortalecendo a comunicação direta com os brasileiros. Reeleito após superar o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, Lula também criticou a atuação das plataformas digitais durante a campanha, fez acusações ao adversário e defendeu uma presença maior do governo federal na segurança pública.

O petista venceu a eleição com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, revertendo a desvantagem registrada no primeiro turno. A diferença nacional superou 4,4 milhões de votos.

Em discurso realizado em São Paulo, Lula agradeceu aos eleitores, aos integrantes da campanha e ao vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), destacando a mobilização de jovens, idosos e pessoas que enfrentaram dificuldades para comparecer às urnas.

O presidente afirmou que a campanha lhe trouxe lições sobre a relação entre governo e sociedade e sinalizou mudanças na comunicação do Palácio do Planalto.

“Essa eleição me ensinou muitas lições. Posso dizer que vamos mudar o jeito de governar esse país. Vamos fazer o povo participar mais dessas decisões”, declarou.

Presidente quer ampliar comunicação direta com brasileiros

Uma das mudanças anunciadas por Lula envolve o uso das ferramentas digitais para manter contato frequente com a população.

Segundo o presidente, as redes sociais e outros canais eletrônicos deverão ganhar maior importância na comunicação institucional durante o próximo mandato.

“A comunicação digital vai ganhar espaço muito grande. Eu inclusive já ganhei um celular [...] e pode ficar certo que daqui para frente eu vou conversar muito com o povo diretamente todo dia”, afirmou.

Lula também agradeceu ao deputado federal André Janones (Rede-MG), que participou da mobilização digital da campanha e coordenou um grupo de WhatsApp que, segundo a organização eleitoral, reuniu mais de 10 milhões de apoiadores durante o segundo turno.

O presidente chamou Janones de “general”, em referência à atuação do parlamentar na estratégia de comunicação.

A intenção anunciada é reduzir a distância entre o governo e os cidadãos, embora o formato e os mecanismos de participação popular ainda dependam de definição.

Lula critica plataformas digitais e fala em interferência externa

Durante o pronunciamento, Lula afirmou que a disputa presidencial foi influenciada pela atuação de plataformas digitais e defendeu avanços na regulamentação dessas empresas.

Na avaliação do presidente, o resultado representou uma derrota de práticas que ele associou à desinformação e à disseminação de conteúdos falsos.

Lula classificou a eleição como “uma derrota do negacionismo e da mentira”.

Também relacionou a mobilização popular à defesa da soberania brasileira, mencionando o ato realizado na avenida Paulista, em São Paulo, no sábado (24).

O presidente contou que se emocionou ao ouvir os participantes cantarem um trecho do Hino da Independência.

Segundo ele, a manifestação expressou a disposição de defender a autonomia nacional diante de pressões externas.

As declarações representam a interpretação política de Lula sobre a campanha. O discurso não apresentou, nos trechos divulgados, elementos específicos que permitam atribuir a determinada plataforma uma interferência ilegal comprovada no resultado eleitoral.

Críticas a Flávio Bolsonaro marcaram pronunciamento

Apesar de defender uma relação institucional respeitosa entre diferentes setores da sociedade, Lula fez críticas contundentes ao adversário.

O presidente afirmou que se sentiu constrangido durante os debates eleitorais e utilizou a expressão “representante do milicianismo” ao se referir a Flávio Bolsonaro.

Também mencionou supostas relações do senador com o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e com um policial citado em um episódio de violência contra uma criança.

As afirmações foram feitas por Lula no contexto da disputa eleitoral e constituem acusações políticas que exigem comprovação específica. Não devem ser interpretadas como demonstração de envolvimento criminal do senador.

Durante o discurso, Lula voltou a criticar o comportamento de seu adversário, mas também defendeu que o resultado das urnas seja respeitado independentemente das preferências políticas de cada eleitor.

Presidente defende respeito à Constituição e liberdade religiosa

Em outro momento, Lula afirmou que pretende governar respeitando a diversidade de opiniões e crenças religiosas existentes no país.

O presidente destacou a importância do Estado laico e declarou que nenhuma religião deverá receber tratamento privilegiado pelo governo federal.

“Eu não tenho preferência por nenhuma religião. Eu tenho preferência pelo respeito à fé do povo brasileiro”, afirmou.

Lula também evitou utilizar a expressão “unidade nacional” como promessa central do próximo mandato, mas defendeu a convivência democrática e o respeito às instituições.

“Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos e ele foi eleito para governar com base no respeito da Constituição”, declarou.

A manifestação ocorreu em um cenário de forte divisão eleitoral, evidenciada pela diferença de 3,58 pontos percentuais entre os dois candidatos no resultado nacional.

Lula sinaliza diálogo com Congresso de perfil conservador

O presidente também comentou as dificuldades que poderá enfrentar diante da composição do Congresso Nacional a partir de 2027.

O Partido Liberal (PL), de Flávio Bolsonaro, terá as maiores bancadas individuais da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

Lula afirmou que respeitará a escolha dos eleitores para o Legislativo e que pretende negociar com deputados e senadores para aprovar as propostas do Executivo.

“Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu. E é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas”, declarou.

A posição indica que o governo pretende buscar acordos parlamentares mesmo com partidos que fizeram oposição à candidatura petista.

A construção dessas alianças será necessária para a aprovação de projetos que dependam de maioria no Legislativo.

Segurança pública terá maior participação federal

Outra prioridade anunciada por Lula foi a ampliação da atuação do governo federal na segurança pública.

O presidente afirmou que pretende fortalecer a participação da União no enfrentamento à criminalidade, em articulação com os estados.

A Constituição estabelece competências para os diferentes entes federativos na área, e Lula sinalizou que buscará uma presença mais ativa do Executivo federal.

“Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção; para o bandido, a gente vai dar prisão”, declarou.

O presidente não detalhou, durante o trecho divulgado do pronunciamento, quais medidas administrativas ou legislativas serão adotadas para ampliar essa atuação.

A proposta poderá envolver negociações com governadores, órgãos de segurança e parlamentares, conforme o conteúdo das iniciativas que vierem a ser apresentadas.

Problemas no transporte marcaram dia da votação

O segundo turno também foi marcado por denúncias de dificuldades de deslocamento de eleitores em diferentes cidades brasileiras.

Em municípios como São Paulo e Salvador, relatos de redução da oferta de transporte público levaram a campanha de Lula a solicitar a ampliação do horário de votação.

A equipe de Flávio Bolsonaro também apresentou pedido de prorrogação em localidades afetadas por chuvas e problemas de acesso às seções eleitorais.

Durante o domingo, Lula criticou a atuação de administrações municipais e afirmou que pretendia buscar responsabilização de gestores caso fossem comprovadas medidas deliberadas para impedir o exercício do voto.

“Não é possível, em pleno século 21, você ter prefeito tentando coibir o povo de exercer o seu livre direito democrático de votar”, declarou.

O presidente também mencionou a possibilidade de pedir a prisão de prefeitos que, segundo sua avaliação, tenham dificultado intencionalmente o deslocamento dos eleitores.

As suspeitas de boicote dependem de investigação e de comprovação das responsabilidades individuais.

Justiça autorizou prorrogação, mas aplicação foi limitada

Após pedido apresentado pela campanha petista, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a extensão do horário de votação até as 19h, pelo horário de Brasília.

A decisão ocorreu próximo do encerramento regular das urnas, às 17h, quando algumas seções eleitorais já haviam concluído o atendimento.

Posteriormente, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, esclareceu que a prorrogação deveria ser aplicada apenas às seções que ainda estivessem com as urnas abertas.

Em Salvador, a Justiça Eleitoral determinou a prisão do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, em meio aos questionamentos sobre a circulação de ônibus.

Em São Paulo, a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, pediu a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade Urbana e Transporte e do presidente da SPTrans.

O pedido, entretanto, foi negado pela Justiça.

As medidas judiciais e investigações relacionadas ao transporte constituem procedimentos distintos da totalização dos votos.

Abstenção caiu em relação ao primeiro turno

Apesar dos problemas relatados durante a votação, o segundo turno registrou redução da abstenção e dos votos inválidos em comparação com a primeira etapa da eleição.

Segundo os dados apresentados na reportagem, aproximadamente 3 milhões de eleitores que não haviam comparecido no primeiro turno participaram da votação decisiva.

A abstenção total no domingo foi de cerca de 30,4 milhões de pessoas.

O levantamento também apontou que os índices de abstenção e votos inválidos atingiram os menores níveis desde 2002, ano em que a utilização da urna eletrônica foi universalizada no país.

A maior participação eleitoral foi destacada por Lula como um dos elementos relevantes de sua vitória.

Mobilização na avenida Paulista foi lembrada pelo presidente

Durante o pronunciamento, Lula voltou a mencionar a manifestação realizada na avenida Paulista, no sábado anterior à eleição.

O ato reuniu apoiadores do presidente e ocupou uma extensa área da avenida, segundo os relatos divulgados pela campanha.

Lula afirmou que a participação popular superou suas expectativas e comparou a mobilização com episódios de campanhas presidenciais anteriores, incluindo a disputa de 1989.

“Não foi partido político, não foi sindicato, não foi igreja, não fui eu nem Alckmin. O povo foi pra rua para defender suas conquistas”, declarou.

O presidente afirmou que a participação dos eleitores foi decisiva para a recuperação de sua candidatura no segundo turno.

Quarto mandato começa com promessa de mudanças

Com a vitória, Lula conquistou o direito de exercer a Presidência da República pela quarta vez.

O presidente governou o Brasil entre 2003 e 2010, retornou ao cargo em 2023 e permanecerá à frente do Executivo federal durante o mandato correspondente ao período de 2027 a 2030.

O discurso da vitória apresentou como prioridades a ampliação da participação popular, o fortalecimento da comunicação digital, a atuação federal na segurança pública e o diálogo com o Congresso.

Ao mesmo tempo, as críticas ao adversário e às plataformas digitais indicam que os conflitos registrados durante a campanha continuarão presentes no debate político.

A implementação das mudanças anunciadas dependerá das medidas que o governo apresentar, dos recursos disponíveis e da capacidade de negociação com o Legislativo.

Para o próximo mandato, Lula terá de conciliar as promessas feitas durante a campanha com a necessidade de governar um país cujo eleitorado terminou o segundo turno dividido entre duas candidaturas.

 

 


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