Eleições / Apuração
Votação após as 17h somou 35,5 mil votos, menos de 1% da vantagem de Lula sobre Flávio
Levantamento analisou registros de 497,8 mil seções eleitorais; arquivos mostram horários dos votos, mas não permitem identificar os candidatos escolhidos.
26/10/2026
09:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A prorrogação do horário de votação no segundo turno das eleições presidenciais registrou 35.521 confirmações de voto após as 17h de domingo (25 de outubro), segundo levantamento do g1 baseado nos registros eletrônicos das urnas. O total representa aproximadamente 0,8% da diferença de 4,43 milhões de votos que garantiu a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL).
O levantamento ganha relevância diante da contestação apresentada pelo candidato derrotado, que anunciou a intenção de pedir à Justiça Eleitoral a anulação do segundo turno, alegando desigualdade na aplicação da decisão que ampliou o horário de votação.
Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio recebeu 59.826.041 votos, correspondentes a 48,21%.
A diferença foi de 4.430.191 votos.
Mesmo na hipótese de todos os 35.521 votos registrados depois das 17h terem sido destinados a apenas um dos candidatos, esse número seria insuficiente para alterar a vantagem estabelecida na apuração nacional.
Essa comparação, entretanto, considera exclusivamente os votos identificados no período de prorrogação. Ela não resolve, por si só, eventuais questionamentos jurídicos sobre as condições de acesso dos eleitores às seções.
Para identificar quantos votos foram registrados após o horário regular de encerramento, o g1 analisou os arquivos de log de 497.897 seções eleitorais.
Os logs funcionam como registros operacionais das urnas eletrônicas. Eles armazenam informações sobre o funcionamento dos equipamentos, incluindo os horários de inicialização, registro dos votos e encerramento da votação.
Esses arquivos são diferentes dos boletins de urna, que apresentam os resultados da votação em cada seção, e dos Registros Digitais do Voto (RDV), que armazenam os votos sem associá-los à identidade dos eleitores.
Por esse motivo, os logs permitem identificar o horário em que um voto foi confirmado, mas não revelam qual candidato recebeu aquele voto.
Não é possível, portanto, afirmar quantos dos votos registrados após as 17h foram destinados a Lula ou a Flávio Bolsonaro.
Dos 35.521 votos identificados pelo levantamento, 30.866 estavam associados a seções cujos dados haviam sido conferidos com os boletins de urna e apresentavam a situação “Totalizado”.
Outros 4.655 registros pertenciam a seções com validação ainda pendente no momento da análise.
A distinção é importante porque o levantamento reúne registros operacionais identificados nos arquivos das urnas, mas parte deles ainda precisava passar pelas verificações correspondentes.
Até o momento da publicação dos dados, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não havia divulgado um balanço oficial específico sobre a quantidade de votos registrados durante a prorrogação.
A extensão do período de votação foi determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), pouco depois das 17h, horário regular de encerramento das urnas pelo horário de Brasília.
O magistrado autorizou a continuidade do atendimento até as 19h, diante de relatos de dificuldades enfrentadas por eleitores para chegar aos locais de votação.
Posteriormente, Zanin esclareceu que a decisão deveria ser aplicada apenas às seções que ainda estivessem abertas.
A orientação foi reforçada pelo presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, que destacou a impossibilidade de reabrir urnas cujo encerramento já tivesse sido concluído.
Com isso, a prorrogação teve alcance limitado, uma vez que grande parte das seções eleitorais já havia encerrado suas atividades quando a decisão foi anunciada.
A ampliação do horário foi solicitada pelas duas campanhas presidenciais, embora com justificativas e abrangências diferentes.
A campanha de Lula apresentou pedido de prorrogação nacional, alegando problemas no transporte público em diferentes cidades, incluindo redução da frota de ônibus, dificuldades de deslocamento e denúncias de cobrança indevida de passagens.
Em São Paulo, a equipe petista afirmou que aproximadamente 60% da frota de ônibus estava em circulação, apesar de determinação judicial para disponibilização integral dos veículos.
A campanha de Flávio Bolsonaro, por sua vez, pediu a extensão do horário em municípios de cinco estados: Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Santa Catarina.
O pedido do PL foi fundamentado em chuvas intensas, enchentes, interrupções no fornecimento de energia elétrica e outras dificuldades que teriam prejudicado o acesso às seções eleitorais.
Assim, ambas as candidaturas reconheceram, por meio de seus pedidos, a existência de situações que poderiam justificar a ampliação do tempo disponível para votar.
O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, explicou que as urnas já encerradas não poderiam ser reabertas e que o tribunal adotou medidas para preservar o procedimento de totalização durante a prorrogação.
Segundo o ministro, o recebimento dos boletins de urna foi bloqueado temporariamente, para impedir o acesso antecipado aos resultados.
A providência buscou assegurar que as informações da apuração não fossem conhecidas antes do término do período adicional de votação.
A totalização foi retomada depois das 19h.
Após a conclusão do processo, Nunes Marques confirmou a reeleição de Lula e afirmou que a ampliação do horário não comprometeu o resultado eleitoral.
Apesar de sua campanha também ter solicitado a extensão do horário de votação, Flávio Bolsonaro criticou a forma como a decisão judicial foi executada.
O senador alegou que houve tratamento desigual entre eleitores de localidades onde as urnas permaneceram abertas e aqueles cujas seções já haviam encerrado o atendimento.
Flávio declarou ser “impossível reconhecer o resultado das eleições” nas circunstâncias em que ocorreu o segundo turno e anunciou que pretende recorrer à Justiça para pedir sua anulação.
O levantamento dos logs acrescenta um dado quantitativo ao debate: as 35.521 confirmações de voto após as 17h correspondem a aproximadamente 0,802% da diferença nacional entre os candidatos.
Isso significa que os votos registrados no período adicional, considerados isoladamente, não seriam suficientes para modificar o resultado.
Por outro lado, os registros não permitem calcular quantas pessoas eventualmente deixaram de votar em razão de dificuldades no transporte, de condições climáticas ou do encerramento de suas seções antes da prorrogação.
A eventual análise de irregularidades e de seus efeitos jurídicos caberá à Justiça Eleitoral, caso seja formalizada uma contestação.
A análise de quase 498 mil seções eleitorais oferece uma dimensão mais precisa da quantidade de votos efetivamente registrados depois do horário regular.
O número representa uma parcela pequena da vantagem obtida por Lula no segundo turno e permite distinguir o impacto aritmético dos votos adicionais das discussões sobre a legalidade e a execução da decisão judicial.
A apuração dos arquivos não identifica preferências eleitorais, não demonstra favorecimento a qualquer candidatura e não substitui a avaliação jurídica de eventuais reclamações.
Até que haja decisão judicial em sentido contrário, permanece válido o resultado da eleição presidencial anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral, que confirmou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato.
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