Campo Grande (MS), Sábado, 24 de Outubro de 2026

Eleições / Presidência

Debate na Globo tem confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro sobre programas sociais, economia e saúde

Presidente cobra desculpas após referência à perda de um dedo; senador reconhece excesso e candidatos divergem sobre Bolsa Família, endividamento e SUS

23/10/2026

22:00

DA REDAÇÃO

©REPRODUÇÃO

O último debate entre os candidatos à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), na TV Globo, foi marcado por acusações, cobranças e divergências sobre políticas públicas. Um dos momentos de maior tensão ocorreu quando o presidente reagiu a uma referência do adversário à perda de um dedo em um acidente de trabalho. O senador pediu desculpas, mas o confronto continuou com críticas à atuação dos dois grupos políticos.

A discussão ocorreu às vésperas do segundo turno das eleições, marcado para domingo (25 de outubro). Além das provocações pessoais, os candidatos apresentaram posições sobre programas de transferência de renda, endividamento das famílias, saúde pública e gestão econômica.

Referência a acidente de trabalho provoca reação de Lula

A troca de acusações começou depois que Flávio Bolsonaro afirmou que Lula "dá com uma mão e tira com nove dedos". A declaração fazia referência à perda do dedo mínimo da mão esquerda do presidente, em um acidente ocorrido em 1964, quando ele tinha 17 anos e trabalhava como torneiro mecânico.

Lula reagiu à fala, classificou a expressão como ofensiva e exigiu um pedido de desculpas. O presidente relacionou o episódio às condições de trabalho e aos acidentes sofridos por trabalhadores brasileiros.

"Se tem alguém que sabe o que é o mundo do trabalho sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu", afirmou.

Durante a resposta, Lula chamou o adversário de "miliciano", expressão rejeitada por Flávio Bolsonaro. A acusação não foi acompanhada, naquele momento, de comprovação apresentada no debate.

O senador reconheceu que sua declaração poderia ter causado ofensa e pediu desculpas diretamente ao presidente.

"Lula, se eu te ofendi, eu te peço desculpa de verdade. Não queria te ofender", declarou.

Apesar do pedido, Flávio retomou as críticas ao governo federal e questionou o presidente sobre o crescimento da população em situação de rua.

Dados sobre população em situação de rua entram na discussão

Durante o confronto, Flávio Bolsonaro afirmou que o número de pessoas vivendo nas ruas havia dobrado durante o governo Lula.

Dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua apontam, porém, um crescimento de aproximadamente 55% entre 2022 e dezembro de 2025, quando o levantamento registrou 365,8 mil pessoas nessa condição.

O percentual apresentado pelo observatório é inferior aos 100% mencionados pelo candidato do PL.

Pesquisadores também destacam que a ampliação dos registros pode estar relacionada a mudanças nos métodos de identificação, à intensificação da busca ativa e à inclusão de pessoas vulneráveis em cadastros de políticas públicas.

Dessa forma, o crescimento dos números registrados não significa necessariamente que todas as pessoas incluídas nos levantamentos tenham passado a viver nas ruas durante o período analisado.

Licença-maternidade e Bolsa Família dividem candidatos

As políticas sociais também estiveram entre os principais temas do debate.

Lula questionou Flávio Bolsonaro sobre um voto contrário à ampliação da licença-maternidade, registrado durante seu mandato como deputado estadual no Rio de Janeiro.

O senador confirmou o posicionamento anterior e reconheceu que mudou de opinião.

"Eu votei acreditando que isso poderia dificultar que as mulheres conseguissem arrumar emprego, eu estava errado", afirmou.

Flávio acrescentou que a experiência familiar e a convivência com as filhas modificaram sua compreensão sobre a importância da presença materna nos primeiros meses de vida das crianças.

Lula também recuperou publicações antigas do adversário nas redes sociais, nas quais o programa Bolsa Família teria sido chamado de "bolsa-farelo".

O presidente criticou a expressão, que considerou desrespeitosa com a população de baixa renda.

Em resposta, Flávio Bolsonaro afirmou que, caso seja eleito, pretende manter e ampliar os benefícios sociais, incluindo o Bolsa Família.

Endividamento das famílias gera divergência econômica

A situação financeira dos brasileiros provocou outro confronto entre os presidenciáveis.

Flávio responsabilizou a política econômica do governo pelo elevado endividamento das famílias, pelos juros e pelas dificuldades enfrentadas pelos consumidores.

O senador mencionou uma dívida pública de aproximadamente R$ 11 trilhões, em referência à Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), indicador acompanhado pelo Banco Central.

O candidato do PL também apresentou uma proposta para facilitar a renegociação de débitos. Segundo ele, a Caixa Econômica Federal poderia adquirir dívidas mantidas por consumidores junto aos bancos e oferecer novas condições de pagamento.

Lula respondeu que seu governo já havia encaminhado ao Senado Federal uma iniciativa voltada à renegociação de dívidas e acusou o adversário de reproduzir uma proposta existente.

O presidente também mencionou ações anteriores de renegociação, citando uma operação de aproximadamente R$ 15 bilhões, envolvendo 4,5 milhões de pessoas.

Na discussão, Lula atribuiu parte das dificuldades financeiras à política de juros do Banco Central e defendeu a expansão da atividade econômica como instrumento para melhorar as condições de pagamento da população.

O debate expôs diferenças nas explicações apresentadas pelos candidatos para o endividamento. A dívida pública, o crédito às famílias e os juros são indicadores distintos, embora possam apresentar relações econômicas entre si.

SUS e pandemia entram no confronto

A saúde pública também ocupou espaço no debate, com questionamentos sobre o financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS) e a qualidade dos serviços oferecidos à população.

Lula cobrou explicações de Flávio Bolsonaro sobre declarações atribuídas a um integrante de sua equipe econômica, relacionadas à possibilidade de restrições nos investimentos do SUS.

O presidente defendeu a importância do sistema público e criticou a condução da pandemia de covid-19 durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Na resposta, Flávio afirmou que pretende manter e ampliar os investimentos no SUS, caso vença a eleição.

O senador, entretanto, criticou as filas de atendimento, a burocracia e as dificuldades financeiras enfrentadas por hospitais e entidades filantrópicas.

Entre as medidas defendidas, mencionou a necessidade de reajustar os valores pagos pelos procedimentos realizados pelo SUS, especialmente para melhorar as condições de financiamento das Santas Casas.

Flávio também afirmou que pretende reduzir despesas que considera desnecessárias, combater a corrupção e rever medidas tributárias adotadas pelo atual governo.

As declarações sobre supostos cortes na saúde e o número de tributos criados ou elevados não foram acompanhadas, no material apresentado, de detalhamento que permita confirmar a abrangência dessas afirmações.

Eleitores decidem disputa presidencial no domingo

O debate colocou em evidência diferenças entre os candidatos sobre a manutenção de programas sociais, o enfrentamento das dívidas, a condução da economia e o financiamento dos serviços públicos.

Embora o confronto tenha sido marcado por acusações pessoais, os dois presidenciáveis também assumiram compromissos relacionados ao Bolsa Família e ao SUS, áreas diretamente ligadas ao atendimento da população de baixa renda.

A decisão caberá aos eleitores no domingo (25), quando será realizado o segundo turno da eleição presidencial.

 

 

 


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