Economia / Apostas
Bets já afetam 50 milhões de brasileiros e comprometem até despesas essenciais
Pesquisa da CNDL e SPC Brasil aponta aumento de 10,5 milhões de apostadores em um ano; 25% dizem já ter deixado contas sem pagar para jogar
25/09/2026
11:45
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
As apostas esportivas e os jogos de azar pela internet avançaram no orçamento das famílias brasileiras e já envolvem cerca de 50 milhões de pessoas nas capitais, segundo pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil. O número representa crescimento de 10,5 milhões de apostadores em relação a 2025.
O levantamento mostra que o gasto médio mensal com as chamadas bets chegou a R$ 213. Entre consumidores das classes A e B, o valor aumenta para R$ 314. Para 23% dos entrevistados, o dinheiro destinado aos jogos já comprometeu a renda ou o bem-estar financeiro.
A pressão sobre o orçamento aparece também nas despesas do cotidiano. 43% dos apostadores disseram ter reduzido gastos essenciais ou de consumo para conseguir dinheiro para jogar.
Entre os cortes mencionados estão internet, com 15%; contas de água, energia e telefone, 13%; passeios em família, 12%; vestuário, 12%; e alimentação fora de casa, também 12%.
A pesquisa aponta que 25% dos apostadores já deixaram de pagar alguma conta para direcionar recursos aos jogos. Outros 24% afirmaram que já tiveram o nome negativado devido aos gastos com apostas online, enquanto 11% continuam inadimplentes.
Outro dado mostra que 28% recorreram ou consideraram recorrer a medidas mais extremas para conseguir dinheiro para apostar. Entre as situações relatadas aparecem empréstimos, mencionados por 12%, venda de bens próprios ou da família sem consentimento, com 8%, e utilização de cartões de terceiros sem autorização, também com 8%.
O levantamento identificou ainda dificuldades para interromper o comportamento. 37% dos entrevistados afirmaram que já tentaram parar ou diminuir a frequência das apostas, mas não conseguiram.
A frequência também chama atenção: 62% apostam diariamente ou semanalmente. O Pix é a principal forma de movimentação financeira citada, utilizado por 78% dos entrevistados.
O levantamento analisou a presença dos jogos online em famílias com adolescentes. Entre os entrevistados que têm filhos de 12 a 18 anos, 10% disseram que os jovens estão envolvidos com bets.
Dentro desse grupo de pais, 70% relataram algum prejuízo na vida dos filhos. Foram mencionados sinais de dependência em 26% dos casos, endividamento em 24% e utilização de dinheiro da família sem autorização em 14%.
Além disso, 49% dos apostadores afirmaram conhecer alguma pessoa próxima que já enfrentou problemas relacionados aos jogos virtuais.
Apesar dos impactos relatados, a procura por auxílio ainda é limitada. A parcela dos que buscaram algum tipo de apoio passou de 21% para 30%, principalmente entre familiares, amigos e grupos relacionados a problemas com jogos. Segundo a pesquisa, aproximadamente 69% daqueles que enfrentam dificuldades continuam sem procurar suporte especializado.
Para o presidente da CNDL, José César da Costa, o crescimento das apostas exige atenção para consequências que ultrapassam o entretenimento.
“O avanço vertiginoso das apostas on-line no Brasil deixou de ser apenas uma questão de entretenimento digital e se transformou em uma grave crise de saúde pública e de desestruturação social. Quando o vício em jogos passa a comprometer a renda familiar, gerar conflitos profundos nos lares e distanciar os indivíduos de suas rotinas de trabalho e convivência, fica evidente que estamos lidando com um transtorno comportamental que exige acolhimento clínico e terapêutico, e não mera culpabilização do cidadão”, afirmou.
Costa também defendeu políticas públicas, ações educativas e maior controle da exposição de jovens e adolescentes às apostas online.
O estudo foi encomendado pelo SPC Brasil, em parceria com a Offerwise, e entrevistou 939 pessoas com 18 anos ou mais que fizeram compras pela internet nos 12 meses anteriores.
As entrevistas foram realizadas entre 25 de maio e 4 de junho. A pesquisa informa margem de erro de 3,5 pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%.
Os resultados indicam que a expansão das bets não se limita ao volume de pessoas que apostam. Os efeitos relatados alcançam o pagamento de contas, consumo familiar, endividamento e comportamento financeiro, além de aparecerem em lares com adolescentes.
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